A madrugada chegou com um peso sufocante. Acordei com um gosto amargo na boca e uma náusea tão forte que m*l tive tempo de pensar antes de correr para o banheiro. Ajoelhei-me no chão frio, as mãos tremendo enquanto segurava a borda da privada, e deixei o enjoo me dominar. O mundo girava, e por um instante, tudo o que existia era o gosto ácido na garganta e a fraqueza nos meus membros.
Respirei fundo, tentando me acalmar, mas outra onda de náusea me atingiu. Fechei os olhos, sentindo as lágrimas escaparem contra a minha vontade. Só mais um pouco, eu pensei. Isso vai passar.
Foi então que ouvi passos rápidos no corredor. A porta do banheiro, que eu nem tinha fechado direito, se abriu, revelando Matteo, desgrenhado e com os olhos pesados de sono, mas totalmente alerta.
— Stella? — A voz dele era áspera, cheia de preocupação.
Não consegui responder. Outro espasmo me dobrou ao meio, e eu engasguei, os dedos se apertando contra a porcelana.
Ele não hesitou. Entrou no banheiro e se ajoelhou ao meu lado, uma mão firme encontrando minhas costas.
— Vamos te levar para o hospital — ele disse, a voz tensa.
— Não… — consegui engolir em seco, limpando a boca com o dorso da mão. — É só o enjoo. Já vai passar.
— Você tá branca.
— Grávida, Matteo. É normal.
Ele não pareceu convencido, mas também não insistiu. Em vez disso, sentou-se no chão ao meu lado, as costas apoiadas na parede, e continuou a acariciar minhas costas em movimentos lentos e circulares.
— Você não precisa ficar aqui — murmurei, mesmo sabendo que ele não iria embora.
— Eu sei.
E ficou.
O silêncio que se seguiu não era desconfortável, apenas pesado, como se houvesse coisas demais pairando no ar entre nós. A náusea começou a diminuir, mas eu não tinha forças para me levantar. Fiquei ali, a testa encostada no braço, respirando fundo.
— Pior que isso só no primeiro trimestre — eu disse, tentando aliviar a tensão. — Depois melhora.
— Você tá falando como se eu fosse sumir antes disso.
Olhei para ele. Matteo estava olhando fixamente para a parede à frente, a expressão séria.
— Você não vai? — perguntei, e a pergunta saiu mais vulnerável do que eu pretendia.
Ele parou de mover a mão nas minhas costas por um segundo, como se eu tivesse cutucado uma ferida.
— Não.
A resposta foi simples, mas firme. Como um fato. Como uma promessa.
Respirei fundo, sentindo algo quente se apertar no meu peito.
— Você não tem obrigação de ficar.
— Eu sei, Stella.
Dessa vez, ele me olhou nos olhos, e eu vi algo nele que me fez engolir em seco. Não era pena. Não era dever. Era algo mais quente, mais complicado. Algo que eu não tinha coragem de nomear.
— Então por que você fica? — a pergunta saiu baixinho, quase um sussurro.
Matteo suspirou, os dedos dele encontrando meu cabelo e afastando os fios suados do meu rosto.
— Porque eu quero.
Era uma resposta tão simples, mas ela ecoou dentro de mim como um trovão.
Ficamos em silêncio de novo, mas agora o ar entre nós parecia diferente. Mais carregado. Mais perigoso.
— Você já pensou em nomes? — ele perguntou de repente, mudando de assunto com uma leveza forçada.
— Alguns. Nada certo ainda.
— Me conta.
Virei o corpo lentamente, sentando-me de lado no chão para encará-lo melhor. Ele ainda estava perto, tão perto que eu podia sentir o calor dele.
— Se for menina… talvez Alice.
— Alice — ele repetiu, testando o nome na boca. — Gosto.
— E você? Tem algum nome em mente?
Ele sorriu, um canto da boca subindo.
— Se for menino, acho que Lorenzo.
— Lorenzo — eu ri, fraco. — Parece nome de velho.
— É o nome do meu avô.
— Ah.
— Ele era teimoso pra c*****o. Igual a você.
Eu dei uma risada baixa, sentindo um pouco do m*l-estar se dissipar.
— Então tá combinado. Se for menino, Lorenzo. Se for menina, Alice.
— Combinado.
Ele disse isso como se fosse um acordo sério, como se fosse dele também.
E, Deus, como aquilo doeu de um jeito bom.
— Você já imaginou? — perguntei, sem pensar. — Como vai ser?
Matteo olhou para mim, os olhos escuros e impossíveis de ler.
— Todo dia.
A resposta me pegou de surpresa. Eu esperava um "não", ou um "às vezes". Mas todo dia?
— E como você imagina? — perguntei, mais por curiosidade do que por qualquer outra coisa.
Ele fez uma pausa, os dedos dele agora desenhando círculos leves no meu ombro.
— Imagino você cansada, mas feliz. Imagino o bebê chorando no meio da noite e a gente revezando. Imagino… — ele parou, como se tivesse dito demais.
— Imagina o quê?
— Imagino que eu vou me apaixonar por ele. Ou por ela. Na hora.
Eu não sabia o que dizer. Meu peito apertou, e de repente, percebi que estava segurando a respiração.
— Você não precisa fazer isso — eu disse, a voz quase falhando.
— Fazer o quê?
— Se envolver. Se… se apaixonar.
Ele olhou para mim como se eu tivesse dito algo absurdo.
— Stella, eu já estou envolvido.
E então, sem aviso, ele esticou o braço e pegou uma toalha limpa do rack, molhando-a com água morna. Antes que eu pudesse reagir, ele estava passando-a gentilmente no meu rosto, limpando o suor e as lágrimas secas.
Eu deixei.
Deixei ele cuidar de mim. Deixei suas mãos, tão grandes e tão cuidadosas, tirarem um pouco do meu cansaço.
— Melhor? — ele perguntou, baixinho.
Eu acenei com a cabeça, sem confiar na minha voz.
— Vamos? O chão tá gelado.
Ele se levantou e estendeu a mão para mim. Eu a peguei.
E naquela madrugada silenciosa, com o mundo ainda dormindo lá fora, Matteo me levou de volta para a cama. E, mesmo sabendo que não devia, eu deixei.