Capítulo 20: Stella Conti

1014 Words
A madrugada chegou com um peso sufocante. Acordei com um gosto amargo na boca e uma náusea tão forte que m*l tive tempo de pensar antes de correr para o banheiro. Ajoelhei-me no chão frio, as mãos tremendo enquanto segurava a borda da privada, e deixei o enjoo me dominar. O mundo girava, e por um instante, tudo o que existia era o gosto ácido na garganta e a fraqueza nos meus membros. Respirei fundo, tentando me acalmar, mas outra onda de náusea me atingiu. Fechei os olhos, sentindo as lágrimas escaparem contra a minha vontade. Só mais um pouco, eu pensei. Isso vai passar. Foi então que ouvi passos rápidos no corredor. A porta do banheiro, que eu nem tinha fechado direito, se abriu, revelando Matteo, desgrenhado e com os olhos pesados de sono, mas totalmente alerta. — Stella? — A voz dele era áspera, cheia de preocupação. Não consegui responder. Outro espasmo me dobrou ao meio, e eu engasguei, os dedos se apertando contra a porcelana. Ele não hesitou. Entrou no banheiro e se ajoelhou ao meu lado, uma mão firme encontrando minhas costas. — Vamos te levar para o hospital — ele disse, a voz tensa. — Não… — consegui engolir em seco, limpando a boca com o dorso da mão. — É só o enjoo. Já vai passar. — Você tá branca. — Grávida, Matteo. É normal. Ele não pareceu convencido, mas também não insistiu. Em vez disso, sentou-se no chão ao meu lado, as costas apoiadas na parede, e continuou a acariciar minhas costas em movimentos lentos e circulares. — Você não precisa ficar aqui — murmurei, mesmo sabendo que ele não iria embora. — Eu sei. E ficou. O silêncio que se seguiu não era desconfortável, apenas pesado, como se houvesse coisas demais pairando no ar entre nós. A náusea começou a diminuir, mas eu não tinha forças para me levantar. Fiquei ali, a testa encostada no braço, respirando fundo. — Pior que isso só no primeiro trimestre — eu disse, tentando aliviar a tensão. — Depois melhora. — Você tá falando como se eu fosse sumir antes disso. Olhei para ele. Matteo estava olhando fixamente para a parede à frente, a expressão séria. — Você não vai? — perguntei, e a pergunta saiu mais vulnerável do que eu pretendia. Ele parou de mover a mão nas minhas costas por um segundo, como se eu tivesse cutucado uma ferida. — Não. A resposta foi simples, mas firme. Como um fato. Como uma promessa. Respirei fundo, sentindo algo quente se apertar no meu peito. — Você não tem obrigação de ficar. — Eu sei, Stella. Dessa vez, ele me olhou nos olhos, e eu vi algo nele que me fez engolir em seco. Não era pena. Não era dever. Era algo mais quente, mais complicado. Algo que eu não tinha coragem de nomear. — Então por que você fica? — a pergunta saiu baixinho, quase um sussurro. Matteo suspirou, os dedos dele encontrando meu cabelo e afastando os fios suados do meu rosto. — Porque eu quero. Era uma resposta tão simples, mas ela ecoou dentro de mim como um trovão. Ficamos em silêncio de novo, mas agora o ar entre nós parecia diferente. Mais carregado. Mais perigoso. — Você já pensou em nomes? — ele perguntou de repente, mudando de assunto com uma leveza forçada. — Alguns. Nada certo ainda. — Me conta. Virei o corpo lentamente, sentando-me de lado no chão para encará-lo melhor. Ele ainda estava perto, tão perto que eu podia sentir o calor dele. — Se for menina… talvez Alice. — Alice — ele repetiu, testando o nome na boca. — Gosto. — E você? Tem algum nome em mente? Ele sorriu, um canto da boca subindo. — Se for menino, acho que Lorenzo. — Lorenzo — eu ri, fraco. — Parece nome de velho. — É o nome do meu avô. — Ah. — Ele era teimoso pra c*****o. Igual a você. Eu dei uma risada baixa, sentindo um pouco do m*l-estar se dissipar. — Então tá combinado. Se for menino, Lorenzo. Se for menina, Alice. — Combinado. Ele disse isso como se fosse um acordo sério, como se fosse dele também. E, Deus, como aquilo doeu de um jeito bom. — Você já imaginou? — perguntei, sem pensar. — Como vai ser? Matteo olhou para mim, os olhos escuros e impossíveis de ler. — Todo dia. A resposta me pegou de surpresa. Eu esperava um "não", ou um "às vezes". Mas todo dia? — E como você imagina? — perguntei, mais por curiosidade do que por qualquer outra coisa. Ele fez uma pausa, os dedos dele agora desenhando círculos leves no meu ombro. — Imagino você cansada, mas feliz. Imagino o bebê chorando no meio da noite e a gente revezando. Imagino… — ele parou, como se tivesse dito demais. — Imagina o quê? — Imagino que eu vou me apaixonar por ele. Ou por ela. Na hora. Eu não sabia o que dizer. Meu peito apertou, e de repente, percebi que estava segurando a respiração. — Você não precisa fazer isso — eu disse, a voz quase falhando. — Fazer o quê? — Se envolver. Se… se apaixonar. Ele olhou para mim como se eu tivesse dito algo absurdo. — Stella, eu já estou envolvido. E então, sem aviso, ele esticou o braço e pegou uma toalha limpa do rack, molhando-a com água morna. Antes que eu pudesse reagir, ele estava passando-a gentilmente no meu rosto, limpando o suor e as lágrimas secas. Eu deixei. Deixei ele cuidar de mim. Deixei suas mãos, tão grandes e tão cuidadosas, tirarem um pouco do meu cansaço. — Melhor? — ele perguntou, baixinho. Eu acenei com a cabeça, sem confiar na minha voz. — Vamos? O chão tá gelado. Ele se levantou e estendeu a mão para mim. Eu a peguei. E naquela madrugada silenciosa, com o mundo ainda dormindo lá fora, Matteo me levou de volta para a cama. E, mesmo sabendo que não devia, eu deixei.
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