Capítulo 10: Stella Conti

1602 Words
A dor de cabeça era a primeira coisa que senti. Uma pontada lenta e insistente, como se alguém estivesse batendo levemente contra minha têmpora. O segundo pensamento foi: Onde estou? Abri os olhos, piscando contra a luz suave do quarto. O teto branco e limpo me deu uma resposta parcial. Hospital. Mas não qualquer hospital. O lugar era silencioso, com móveis de madeira polida e cortinas delicadas, muito diferente de qualquer hospital público que já tinha visto. O ar tinha cheiro de desinfetante caro e... lavanda? Lavanda... por quê lavanda? Tentei me mexer, mas o corpo protestou. Uma leve fisgada no braço revelou o acesso de um soro preso à minha pele. Meus dedos se moveram instintivamente, checando a presença do tubo fino. E então veio. Um flash. Faróis brilhantes, vozes misturadas, o som de metal rasgando o ar. A batida. Minha respiração acelerou. Outro fragmento. Matteo segurando meu rosto, gritando algo que eu não conseguia entender. Dor. Depois... escuridão. O bebê. Minha mão voou para o ventre sem pensar, o coração disparando. Lá estava ele, ainda arredondado, ainda cheio de promessas. Um soluço escapou antes que eu pudesse evitar, uma mistura de alívio e medo. — Ele está bem. A voz era grave e rouca, carregada de um peso que não consegui decifrar de imediato. Meu olhar se virou para a origem do som. Matteo estava ali, sentado no sofá ao lado da porta. O terno amassado, a camisa com as mangas dobradas, os cabelos bagunçados como se ele tivesse passado as mãos neles inúmeras vezes. Mas o que me prendeu foi o olhar. Ele parecia cansado, exausto até, mas os olhos dele... estavam firmes. Intensos. Me observando como se o simples ato de eu abrir os olhos tivesse sido um milagre. — Matteo... — Minha voz saiu arranhada, quase um sussurro. Ele levantou, cruzando o quarto em passos rápidos, mas parou antes de chegar perto demais, como se tivesse medo de me tocar. — Como você está se sentindo? — Ele perguntou, os braços cruzados como se tentasse conter a própria preocupação. Eu abri a boca para responder, mas não tinha palavras. Minha mente estava embaralhada, dividida entre as lembranças fragmentadas do acidente e a presença esmagadora dele naquele momento. Finalmente, deixei escapar: — O que aconteceu? Matteo passou a mão pelo rosto, como se estivesse decidindo o que dizer. Quando finalmente respondeu, sua voz era baixa, quase um murmúrio: — O carro perdeu o controle. Foi rápido demais. Eu... — Ele parou, respirou fundo. Minhas mãos ainda estavam sobre o ventre, como se precisassem daquela confirmação física. Ele deu um passo à frente, os olhos fixos nos meus. Ele deu um leve aceno, mas os olhos dele diziam algo mais, algo que eu ainda não tinha forças para decifrar. E, pela primeira vez desde que acordei, me perguntei: Por que Matteo estava aqui? Meu chefe, o último homem com quem eu deveria ser vista, estava dentro do quarto do hospital me olhando como se eu fosse quebrar. Matteo pareceu perceber meu desconforto, ou talvez fosse o próprio nervosismo que transbordava dele. Sem dizer nada, ele caminhou até a mesinha ao lado da cama, pegou um copo de água e voltou, estendendo-o para mim. — Aqui. — Sua voz soou mais suave agora, mas ainda carregada com algo que eu não conseguia identificar. Aceitei o copo, as mãos tremendo ligeiramente. Matteo se sentou na ponta da cama, mas manteve uma certa distância, como se a tensão entre nós fosse palpável demais para suportar proximidade. Ele inclinou-se levemente para frente, os cotovelos apoiados nos joelhos. — De quantos meses você está? — Ele perguntou, direto, a voz mais firme do que eu esperava. Engasguei com a água, a surpresa me atingindo como um soco no estômago. O copo quase escorregou da minha mão, e olhei para ele com os olhos arregalados. — O q-quê? — gaguejei, a voz vacilante. Ele me encarou, inabalável, mas havia algo mais em seu olhar. Preocupação, talvez? — Stella, eu vi como você levou a mão ao ventre assim que acordou. E os médicos mencionaram algo... — Ele respirou fundo. — Por que você não contou a ninguém? Meu coração estava disparado. O ar parecia denso demais para respirar. Minhas palavras saíram em um tom baixo, quase um murmúrio. Tudo o que eu não queria que acontecesse estava desabando agora bem diante dos meus olhos, como um furacão atingindo a costa. Eu perderia tudo, o pouco de estabilidade que havia construido. — Eu... Por favor, Matteo, não me demita. Eu juro que posso continuar trabalhando, não vou deixar isso atrapalhar... Ele me interrompeu, erguendo a mão como se quisesse afastar a ideia. — Demitir você? — Sua testa se franziu, e ele balançou a cabeça com força. — Stella, isso nem passou pela minha cabeça. Minhas mãos apertaram o lençol enquanto tentava processar suas palavras. Ele continuou, sua voz mais baixa, quase um pedido: — Só quero que você me conte. Sobre o bebê. Sobre o pai. Os olhos dele eram sinceros, e eu não consegui sustentar seu olhar por muito tempo. Meu instinto era me fechar, me proteger. Mas havia algo na maneira como ele falou que me fez ceder, mesmo que contra minha vontade. — Não há pai. — Minhas palavras saíram rápidas, como se quisesse me livrar delas o mais rápido possível. Ele arqueou uma sobrancelha, mas ficou em silêncio, me dando espaço para continuar. — Foi... uma noite. Alguém que eu m*l conhecia. Quando contei, ele nem ao menos demonstrou interesse. — Meu tom era amargo agora, carregado com uma dor que eu achava que já tinha enterrado. — Vou manter assim para não repetir as palavras que ele me disse. Matteo respirou fundo, mas não disse nada por um momento. Seus olhos escureceram, mas não com julgamento. Era algo mais. Raiva? Proteção? Eu não sabia ao certo. — Então você está fazendo isso sozinha. — Ele afirmou, mais para si mesmo do que para mim. Apenas assenti, apertando os lábios. — Stella... — Ele se inclinou um pouco mais para perto, a tensão no ar aumentando. Matteo parecia prestes a dizer algo, mas a porta se abriu antes que ele pudesse continuar. Uma médica entrou, empurrando uma máquina de ultrassom, seguida por uma enfermeira que carregava um tablet e alguns instrumentos. — Bom dia, Stella. Como está se sentindo? — perguntou a médica, com um sorriso gentil. — Um pouco confusa... e com dor de cabeça — respondi, tentando ignorar a presença de Matteo, que se levantou imediatamente para dar espaço à equipe médica. A médica assentiu, colocando luvas e se posicionando ao meu lado. — Isso é esperado, considerando o acidente. Vamos verificar como o bebê está, tudo bem? — Ela começou a preparar o equipamento enquanto a enfermeira ajustava minha cama. Olhei de relance para Matteo, esperando que ele saísse da sala, mas ele não parecia ter essa intenção. Em vez disso, ele contoru a cama e se sentou puxando a poltrona para o meu lado, desta vez mais próximo, ao lado da cama. Seu olhar estava fixo em mim, depois na máquina. Sob seu olhar a enfermeira me preparou e aproximou o aparalho da cama. Quando o gel frio tocou minha barriga, estremeci. A médica moveu o transdutor lentamente, e o som do monitor preencheu o silêncio. Então, a imagem apareceu na tela. Eu me virei para olhar, mas não era apenas eu quem parecia hipnotizada. Matteo inclinou-se levemente para frente, os olhos presos na tela como se tivesse esquecido de tudo ao nosso redor. As mãos apoiadas no queixo, observando como se aquilo fosse algo pelo qual ele tivesse passado todos os dias. Ali estava ele. O bebê. Matteo respirou fundo, um som quase imperceptível, mas eu notei. Ele passou a mão pelo rosto, como se tentasse esconder algo. Uma emoção que não esperava dele — talvez nem ele mesmo esperasse. — Parece... forte — ele disse, a voz mais baixa, rouca, como se as palavras estivessem pesando em sua garganta. A médica deu um leve sorriso, mas sua expressão se tornou mais séria enquanto analisava o exame. Ela ajustou o ângulo do transdutor, o silêncio agora preenchido apenas pelo som do monitor. Finalmente, ela falou: — Stella, o bebê está bem neste momento, mas houve um descolamento parcial da placenta devido ao impacto do acidente. Isso significa que você precisará de repouso absoluto pelos próximos 2 meses. Nada de esforço físico, e definitivamente nada de subir escadas. Meu coração disparou. — Escadas? — perguntei, o nervosismo evidente na minha voz. — Eu moro em um prédio sem elevador... no quarto andar. A médica franziu a testa e balançou a cabeça. — Isso não será possível. Sua prioridade agora precisa ser manter essa gravidez segura. Qualquer esforço desnecessário pode agravar a situação. Senti o pânico subir à garganta. Onde eu iria? Como lidaria com isso? Mas antes que eu pudesse dizer algo, Matteo, ainda sentado ao meu lado, falou com uma firmeza que me surpreendeu: — Então ela ficará comigo. Meus olhos se voltaram para ele, arregalados. — O quê? — minha voz saiu fraca, quase um sussurro. Ele me encarou, os olhos determinados, como se não houvesse espaço para discussão. — Você não pode voltar para um lugar que coloque o bebê em risco. Minha casa tem espaço suficiente, sem escadas, e você poderá descansar como precisa. Eu abri a boca para protestar, mas as palavras não vieram. Matteo não parecia apenas decidido — parecia inabalável. Como se, por algum motivo, ele tivesse decidido que essa era uma responsabilidade dele também. Não isso não iria acontecer.
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