Capítulo 34: Stella Conti

1309 Words
O clique da porta se fechando atrás de Matteo soou como uma sentença. Um som pequeno, quase delicado, mas que reverberou por todo o apartamento — e dentro de mim. Ficou um silêncio denso no ar. Desses que parecem preencher todos os espaços vazios e nos obrigam a encarar aquilo que mais tentamos evitar: nossos próprios pensamentos. Continuei sentada à mesa por alguns minutos, com a xícara de café entre as mãos. O calor já tinha se dissipado, mas eu não conseguia soltá-la. Era como se ainda estivesse presa à presença dele, ao cuidado que colocou em cada detalhe daquela mesa. Frutas cortadas com perfeição. Pão fresco, passado na torradeira. Café do jeito que eu gosto, com açúcar — não adoçante. Até o copo de água do lado da xícara estava ali, como se ele soubesse que, às vezes, eu alternava entre o café e a água para afastar a tontura. Suspirei. Aquilo não era apenas um café da manhã. Era um gesto. Um cuidado. Um recado silencioso: “Você não está sozinha.” E isso, para alguém como eu, era o tipo de coisa que podia desmoronar as defesas. Me levantei e comecei a tirar a mesa, como quem tenta varrer emoções junto com as migalhas. Lavei a louça devagar, como se cada prato carregasse o peso da proposta que ele me fizera. A água morna escorria pelas mãos, mas não levava embora a dúvida que se espalhava dentro de mim. A proposta de Matteo ainda ecoava em minha mente. “Seja minha noiva.” Três palavras. Um acordo. Um futuro inteiro disfarçado de solução temporária. Parte de mim queria gritar que era loucura, que não fazia o menor sentido. Que era arriscado demais, fantasioso demais, que eu já tinha sofrido demais. Mas outra parte... outra parte ainda se lembrava do tom da voz dele. Da firmeza. Da ternura escondida na segurança com que prometeu cuidar de mim e do meu filho. Até o fim dos dias dele. Encostei na pia, braços cruzados, e deixei o olhar se perder pela janela da cozinha. Do outro lado, o mundo seguia. Pessoas indo e vindo. Gente que não tinha ideia do tipo de dilema que me paralisava naquele instante. Talvez o mais difícil nem fosse decidir o que fazer. Talvez o mais difícil fosse admitir que eu queria acreditar. Que, depois de tanto tempo lutando sozinha, existia uma parte em mim que desejava que Matteo estivesse dizendo a verdade. Fechei os olhos. A lembrança do rosto de Henrique invadiu minha mente sem aviso, como uma sombra. A ameaça dele. O modo como pronunciou aquelas palavras, como se meu filho fosse dele por direito, mesmo depois de tudo o que nos fez passar. “Você não é nada. Essa criança vai ter o que merece — com ou sem você.” Minhas mãos apertaram a bancada com força. Aquilo doeu mais do que qualquer dor física. E o pior: uma parte de mim temia que ele conseguisse. Não era só sobre medo. Era sobre vergonha. Eu permiti que Henrique se aproximasse de mim no passado. Acreditei em suas promessas, confiei em seu carinho envenenado. E, quando percebi o que ele realmente era, já era tarde demais. Meu filho — ou filha — nasceu dessa história. E agora, por mais que eu lutasse, Henrique queria usar a existência dessa criança como arma contra mim. Voltei para a sala e me joguei no sofá. O cobertor ainda estava ali, com o perfume de Matteo impregnado no tecido. Levei o tecido ao rosto por um instante, fechando os olhos. A imagem dele me ocorreu, parado na porta, dizendo com a voz baixa e determinada: “Só... me liga quando souber o horário.” Ele não pediu uma resposta. Ele me ofereceu tempo. Isso me fez gostar ainda mais dele. E isso era assustador. Sentei-me novamente e peguei o celular. Passei pelos aplicativos com a distração de quem não quer pensar, mas a verdade é que já sabia o que ia fazer. Abri o contato da clínica que a enfermeira me indicou na última consulta pública. Já havia salvado o número dias atrás, mas protelava ligar. Talvez por medo de oficializar o momento. Talvez por estar esperando que algo — ou alguém — me acompanhasse. Respirei fundo. Disquei. — Clínica Almeida, bom dia. — Bom dia — minha voz saiu mais fraca do que eu esperava. — Eu gostaria de agendar uma consulta pré-natal. — Claro, senhora. É paciente nova? — Sim. — Nome completo, por favor? — Stella Ribeiro Conti. Enquanto a atendente anotava meus dados, eu olhava pela janela, com o telefone entre o ombro e o ouvido. Do lado de fora, o mundo seguia. As pessoas seguiam. E eu... eu começava a tentar. — Temos horários disponíveis na próxima terça ou quinta. Qual prefere? — Terça — respondi, sem pensar muito. — Perfeito. Consulta marcada para às 9h30. Levar documento com foto e, se tiver, o exame de confirmação da gestação. — Tá certo. Obrigada. Desliguei devagar. O celular ficou na minha mão, como se ainda pesasse mais do que deveria. Eu não sabia se aquilo era uma resposta. Mas, de alguma forma, parecia um passo em direção a algo. Levantei e fui até o quarto. Apoiei a mão na barriga, que ainda era só um leve volume. Era estranho pensar que ali dentro havia uma vida. Uma história em formação. Uma pessoa que dependeria de mim para absolutamente tudo. Mas, agora, talvez... não apenas de mim. Peguei o celular de novo. Meus dedos pairaram sobre o nome de Matteo. Não precisava dizer nada. Só encaminhar a mensagem com o horário. Uma linha curta, fria, talvez. Mas também um gesto. Digitei: Consulta terça às 9h30. Apaguei. Reescrevi. A consulta está marcada para terça às 9h30. Se ainda quiser ir comigo... Apaguei de novo. E, por fim, enviei só: Terça, 9h30. Bloqueei a tela, larguei o celular na cama e soltei um suspiro pesado. Eu ainda não tinha dado uma resposta. Não sabia o que dizer sobre a proposta, sobre o “nós” que ele imaginava. Mas naquele instante, com o apartamento silencioso e a luz da manhã se infiltrando pela janela, eu sabia de uma coisa: Eu não queria enfrentar tudo sozinha. Claro! Aqui está a continuação e finalização do capítulo na visão da Stella, encerrando com a leitura da resposta de Matteo. A cena mantém o tom sensível e emocional, e fecha o capítulo com um toque sutil de esperança e conexão entre os dois. (...continuação) A manhã seguiu com lentidão. Tentei ocupar o tempo dobrando roupas, organizando os armários do quarto e até lavando o banheiro, mas nada fazia o pensamento parar. O celular permanecia silencioso, virado para baixo na mesa de cabeceira, como um lembrete mudo da escolha que eu ainda não tinha feito. Não sei quanto tempo passou. Talvez meia hora. Talvez uma eternidade. Quando voltei ao quarto, finalmente peguei o aparelho. Havia uma notificação. O nome dele na tela. Matteo. Meu coração acelerou antes mesmo de eu abrir a mensagem. Respirei fundo e deslizei o dedo. “Estarei lá. Obrigado por me deixar fazer parte disso.” Só isso. Nenhuma pressão. Nenhuma cobrança. Apenas presença. Fechei os olhos por um instante, com o celular entre os dedos e um nó apertado na garganta. Era só uma mensagem. Uma frase simples. Mas me atravessou como se ele tivesse me dito tudo o que eu precisava ouvir. “Obrigado por me deixar fazer parte disso.” Era isso. Ele não estava tentando me salvar. Estava me oferecendo companhia. E, pela primeira vez em muito tempo, eu deixei que alguém entrasse. Talvez o “sim” ainda não tivesse sido dito em voz alta. Mas, dentro de mim, alguma porta já tinha começado a se abrir. E eu estava pronta para escutar o que aconteceria... depois dela.
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