O cheiro do hospital era algo que eu nunca me acostumaria. Antisséptico, frio, uma memória que eu insistia em tentar apagar, mas que continuava impregnada em minha mente, obrigando-me a reviver momentos que desejei enterrar por muitos anos. Caminhava pelo corredor com passos lentos, sentindo o leve peso do buquê na minha mão direita.
Flores. Quem compra flores para alguém que m*l conhece?
Passei a mão livre pelos cabelos, soltando um suspiro pesado. A ideia parecia estúpida agora, mas já era tarde para voltar atrás. Minha mãe sempre dizia que era educado levar flores para uma mulher doente, que pequenos gestos importavam. E, bem... foi por isso que comprei. Só por isso. Não tinha nenhum significado maior.
Respirei fundo, tentando afastar a sensação de nervosismo que subia pelo meu peito. Era só um buquê de lírios brancos. Algo simples, delicado, nada que pudesse ser interpretado de forma errada. Stella já era desconfiada o suficiente comigo; a última coisa que eu precisava era que ela pensasse que havia alguma intenção oculta.
Deixei Stella sozinha essa manhã por algumas horas para garantir que o apartamento estaria pronto. Minha governanta temporária me ajudou comprando novas roupas de cama para o quarto de hospedes, e o deixando aconchegante para recebê-la. Esperava que Stella se sentisse em casa. p***a, eu nem a conheço e estou preocupada com a maciez da coberta em que ela irá dormir.
Tudo nela me faz querer protegê-la. Cuidar dela. Ter a chance que me foi tirada.
Quando me aproximei da porta do quarto, o som de vozes veio de dentro. Parei por um momento, observando pela fresta da porta aberta. As enfermeiras estavam ajudando Stella a se acomodar em uma cadeira de rodas.
Ela parecia cansada, mas determinada, o que não me surpreendeu. Desde o momento em que a conheci, ficou claro que Stella não era do tipo que aceitava ajuda com facilidade. Mesmo agora, proíbida de fazer esforço e uma expressão de dor no rosto, ela mantinha a postura firme, como se estivesse lutando para não demonstrar fraqueza.
Então, seus olhos me encontraram.
Por um segundo, Stella congelou. Depois, seus olhos baixaram para o buquê em minha mão, e a surpresa neles era evidente. Eu me mexi desconfortavelmente na porta, ciente de como aquilo provavelmente parecia estranho.
— Bom dia — murmurei, entrando no quarto e me aproximando dela. Ajeitei o buquê na mão antes de entregá-lo a ela, tentando ignorar o calor subindo pelo meu rosto. — Trouxe isso para você.
Ela piscou algumas vezes, claramente sem saber como reagir.
— Flores? — perguntou, como se eu tivesse aparecido com algo absurdamente fora do comum.
Eu me forcei a sorrir, o mais casual possível.
— Achei que ajudaria. Minha mãe sempre dizia que flores fazem as pessoas se sentirem melhor.
Ela hesitou antes de aceitar o buquê, segurando-o com cuidado. Por um momento, vi algo diferente em seu rosto, uma suavidade que não combinava com a Stella que eu conhecia até então. Ela sorriu e aproximou as flores coloridas do nariz, inspirando o perfume do campo que me fazia ter tanta saudade de casa.
— Obrigada — disse ela, a voz um pouco mais baixa.
— Só quero que você se sinta melhor.
Era verdade, mas não era tudo. Não sabia por que me importava tanto. Não sabia por que estava ali, segurando minha respiração como se a opinião dela sobre um buquê de flores pudesse determinar algo maior. As enfermeiras terminaram de ajeitá-la na cadeira, trocando olhares cúmplices antes de saírem do quarto, deixando-nos sozinhos.
— Então — comecei, enfiando as mãos nos bolsos da jaqueta. — Pronta para ir?
Ela me lançou um olhar desconfiado, mas, dessa vez, havia algo mais suave ali. Talvez, pela primeira vez, ela estivesse considerando que eu não era um completo i****a.
E, por algum motivo, isso significava mais para mim do que eu queria admitir.
Stella ajeitou o buquê sobre o colo e respondeu, com um pequeno suspiro:
— Sim, pronta.
Eu assenti e dei a volta para me posicionar atrás dela, segurando as alças da cadeira de rodas. Ela não disse nada, mas pude sentir a tensão no ar, como se ela ainda estivesse decidindo se havia cometido um erro ao aceitar minha ajuda.
Enquanto a empurrava pelo corredor, fiquei atento ao movimento da cadeira, tentando não parecer desajeitado. Ao passarmos pela recepção, Stella olhou ao redor e comentou, com o tom prático que parecia tão característico dela:
— Esse hospital parece bem caro.
— É bom o suficiente — respondi, dando de ombros.
— Bom o suficiente para me afundar em dívidas, talvez. — Ela me lançou um olhar por cima do ombro. — Olha, eu sei que você disse que cuidaria disso, mas eu posso pagar em parcelas. Tire do meu salário, sei lá.
Parei por um momento, encarando a porta automática que dava para o estacionamento. Inspirei fundo antes de responder, mantendo o tom firme:
— Stella, não se preocupe com isso agora.
Ela abriu a boca para protestar, mas eu já estava empurrando a cadeira de rodas novamente. Não tinha intenção de deixar essa discussão ir longe. Se era culpa o que me fazia insistir, então que fosse. Mas isso era minha responsabilidade, e eu não iria recuar.
Quando chegamos ao carro, abri a porta do passageiro e me abaixei para ajudá-la.
— Eu consigo — disse ela, franzindo a testa.
— Não duvido disso — respondi, com um meio sorriso.
Ela bufou, mas não protestou enquanto eu a segurava com cuidado, levantando-a da cadeira de rodas e a colocando no banco do passageiro. Stella era mais leve do que eu esperava, e a proximidade me fez perceber como ela parecia ainda mais frágil do que deixava transparecer.
Depois de ajeitá-la no assento e fechar a porta, guardei a cadeira de rodas no porta-malas e entrei no carro.
Stella estava com o buquê nos braços, olhando para ele com um misto de curiosidade e desconforto. Liguei o motor e saí do estacionamento, a cidade começando a passar pelos vidros.
— Para onde estamos indo? — ela perguntou, a voz hesitante.
— Para meu apartamento. Está tudo pronto para você.
Ela não respondeu de imediato, apenas desviou o olhar para a janela, como se estivesse tentando se preparar para o que estava por vir. Enquanto dirigia pela avenida, a ideia de tê-la no meu espaço parecia tanto um desafio quanto uma responsabilidade que eu tinha aceitado sem hesitar.
cada segundo que passava, eu a via de uma maneira diferente.
Quando o trânsito desacelerou, não pude evitar desviar os olhos dela por um momento. Seus cabelos castanhos-pretos estavam amarrados em um r**o de cavalo simples, alguns fios soltos caindo ao longo de sua nuca, como se ela não se importasse em estar impecável o tempo todo. Eu quase sorrir com essa imagem. Era como se ela não tentasse ser bonita, mas, sem querer, fosse exatamente isso.
O vestido que ela usava era longo, um pouco gasto nas bordas, com flores azuis que pareciam desbotadas. Não era um modelo que você veria nas vitrines da moda, mas, para Stella, parecia ser a escolha perfeita. Algo que ela usava para se sentir confortável, sem se preocupar com o que os outros pensavam. Era estranho, mas eu percebia que isso a tornava ainda mais bonita.
Ela tinha uma beleza simples, o tipo de beleza que não exige esforço, que cativa sem pedir permissão. Eu olhei para ela por mais alguns segundos, tentando entender o que estava acontecendo comigo.
Quando ela olhou para mim, percebi que minha respiração ficou mais pesada, e a culpa pela minha distração me fez voltar rapidamente o olhar para a estrada.
Mas, mesmo assim, algo dentro de mim ficou ali, com ela. Algo que eu não conseguia desviar. Não era só o jeito que ela olhava para o mundo, como se estivesse esperando algo diferente do que as pessoas ofereciam. Era também a maneira como ela se mostrava, sem adornos, sem máscaras.
O trânsito seguiu, e precisei focar minha atenção de volta. Quando chegamos ao apartamento, o elevador subiu suavemente até a cobertura, e eu não pude deixar de observar o rosto de Stella, que parecia deslumbrada pela vista e pela decoração minimalista do lugar. As grandes janelas abertas deixavam a luz natural entrar, e a cidade se estendia sob nós, como um tapete de luzes e movimento.
Ela parou por um momento, a mão segurando o buquê de flores, os olhos percorrendo o ambiente. As paredes claras, os móveis de tons escuros, e a decoração moderna faziam o apartamento parecer ainda mais impessoal, como um cenário de um filme de luxo. Não havia muitos detalhes, quase nenhuma cor além dos tons sóbrios. Era o suficiente para o tempo que eu ficaria aqui, embora não se parecesse com a minha casa na Itália.
Quando fechei a porta atrás de nós, ouvi Stella soltar um suspiro de espanto.
— Uau... isso é... grandioso. — Ela olhou ao redor, claramente impressionada.
Eu dei um sorriso discreto.
— Não é para tanto. — Respondi, indo em direção à cozinha para deixar as flores em um vaso.
Ela deu um passo para frente, olhando para o piso perfeitamente limpo, e, com um sorriso travesso, comentou:
— Estou com medo de colocar meus pés aqui e manchar tudo. Parece que vou deixar alguma marca nesse lugar perfeitamente brilhando.
Não pude evitar uma risada curta.
— Talvez seja bom ter um pouco de bagunça pela primeira vez. — Respondi, tentando disfarçar o quanto aquilo soava como uma confissão não dita sobre o quanto aquele apartamento me deixava, de certa forma, desconfortável.
Ela olhou para mim com um sorriso cético e revirou os olhos.
— Vamos com calma, ok? Não quero fazer uma bagunça... mas não posso garantir que você não vai acabar se arrependendo por ter me trazido aqui.
Eu me aproximei dela, e, sem pensar muito, estendi meu braço, permitindo que ela se apoiasse em mim enquanto caminhávamos pelo corredor.
— Você vai caminhar devagar — eu disse, firme, mas com um sorriso. — Nada de pressa.
Ela olhou para mim como se eu estivesse dando uma ordem ridícula.
— Eu sei andar, Matteo. — Ela resmungou, mas, mesmo assim, não recusou.
Seguimos até o quarto, e eu abri a porta para ela entrar primeiro. Ela fez uma expressão curiosa ao ver a cama arrumada com a coberta branca e florida, os móveis claros e delicados, e a luz suave que iluminava o ambiente. No criado-mudo, algo chamou sua atenção: uma sacola pequena, com o logo de uma loja de artigos infantis de uma marca cara.
Ela pegou a sacola, abrindo-a com uma expressão que mostrava mais curiosidade do que qualquer outra coisa.
— O que é isso? — ela perguntou, levantando as sobrancelhas.
Eu me aproximei, tentando manter a calma.
— É para você — falei, tentando dar um tom casual à minha voz, mesmo que sentisse a tensão da situação. — Comprei para que você se sinta um pouco mais... feliz. Queria dar um presente para o bebê da minha amiga.
Stella me olhou com uma expressão surpresa e tocou a embalagem com delicadeza. Quando abriu a sacola, seu olhar se suavizou ao encontrar o macacão simples dentro, com pequenos ursos marrons bordados. Era algo pequeno, sem ser exagerado. Só um gesto.
— Eu... — Ela começou, mas parou, parecendo um pouco tocada, o que me fez me sentir estranhamente vulnerável.
— Eu achei que você poderia gostar — disse, mais baixo agora. — Um presente para o bebê.
Stella olhou para o macacão com um sorriso, mas seus olhos estavam um pouco marejados. Ela respirou fundo e colocou a peça de volta na sacola antes de me olhar.
— Obrigada, Matteo. — Ela parecia genuína, e isso foi tudo o que eu precisava ouvir.
Dois meses, eu me lembrei. Apenas dois meses.
O que poderia dar errado?