Eu estava sentado no escritório, o computador à minha frente exibindo a janela de vídeo chamada com Fiorella. Minha irmã não demorou a aparecer na tela, com aquele olhar atento e preocupado, como sempre.
— Matteo, o que está acontecendo? Você nunca falta ao trabalho. — Ela disse, cruzando os braços e me observando com desconfiança. — O que significa que tempestade está prestes a cair na nossa empresa?
Eu tentei disfarçar a inquietação no meu olhar. Não queria preocupar a minha irmã mais do que o necessário. Era complicado, mas era o que eu tinha que fazer. Não podia dizer que ficaria em casa pois estava cuidando da sua assistente que por irônia também havia sido afastada pelo RH por motivos médicos.
Mas Stella continuaria trabalhando de casa, essa foi uma condição que a garota não me deixou negociar.
— Eu… não estou me sentindo muito bem. — Respondi, buscando a melhor desculpa que consegui pensar na hora. — O médico me pediu para descansar. Estresse, sabe? Estou realmente precisando de um tempo para me recuperar.
Fiorella levantou uma sobrancelha, não comprando por completo o que eu estava dizendo, mas preocupada o suficiente para não questionar muito.
— Isso não me parece bom, Matteo. Você precisa descansar, claro, mas está tudo bem? Se você precisar de ajuda com alguma coisa, posso desmarcar os compromissos, cuidar da sua agenda... — Ela disse, a preocupação claramente estampada no rosto.
Eu sorri, tentando fazer minha voz soar mais tranquila do que realmente me sentia. Queria que ela acreditasse que estava tudo sob controle.
— Não, não precisa. — Respondi rapidamente. — Já organizei tudo. O pessoal no Brasil está com a agenda apertada, e a nossa parte aqui está resolvida. Eu só preciso de um pouco de descanso e alguns dias fora da rotina. Isso é só um pequeno ajuste.
Ela me olhou com desconfiança, claramente não convencida, mas talvez por saber que eu não abriria mão da minha decisão, desistiu de insistir. No entanto, ela foi direta:
— Então, vou até aí para ver como você está. Eu posso ir amanhã mesmo.
Eu quase engasguei com a resposta, tentando pensar rápido.
— Fiorella, não seria uma boa ideia. — Eu falei, com um sorriso forçado. — Sabe, o médico disse que é contagioso. Melhor você não se arriscar. — Eu menti, sentindo uma pontada de culpa no peito, mas sabia que ela não iria gostar de me ver tão vulnerável, e muito menos em uma situação que envolvia Stella.
— Desde quando estresse é contagioso, Matteo Bianchi? — ela estreitou os olhos desconfiada.
— É uma gripe... Uma gripe muito forte por estresse.
— Gripe por estresse? Eu nunca ouvi falar disso.
— Pois é. É bem rara, mas eu ficarei bem, prometo.
Ela não parecia totalmente convencida, mas pela forma como me olhava, ela sabia que eu não estava contando toda a história. Mesmo assim, concordou com a ideia de não vir, embora sua voz carregasse um tom suave de preocupação.
— Certo, mas me avise se mudar de ideia. — Ela disse, suavizando a expressão. — E se precisar de algo, Matteo, não hesite em me pedir.
Eu assenti, sentindo o peso das palavras dela. Como sempre, Fiorella tinha uma maneira de me fazer perceber que, por mais que eu tentasse esconder, minha família estava ali para me apoiar.
— Obrigado, Fiorella. Eu vou ficar bem. — Eu menti, mas com uma leveza na voz que esperava transmitir uma sensação de que tudo estava sob controle.
Despedimo-nos e eu encostei a cadeira para trás, exalando um longo suspiro. Minha mente estava a mil, sabendo que nada estava sob controle realmente. Mas agora, pelo menos, a irmã estava tranquila, acreditando nas mentiras que eu inventei.
Saio do escritório com a cabeça ainda fervendo de pensamentos, tentando processar a conversa com Fiorella. Ao atravessar a sala de estar, minha atenção foi capturada pela figura de Stella, sentada à mesa de jantar com seus óculos de grau, concentrada no notebook à sua frente. Ela estava anotando algo na agenda, mas, ao perceber minha presença, ela rapidamente deu uma risadinha abafada, como se estivesse tentando disfarçar.
Cruzo os braços, um sorriso sutil aparecendo em meu rosto.
— O que você está achando tão engraçado, Stella? — pergunto, o tom de curiosidade e uma leve provocação.
Stella levantou os olhos, tentando esconder a risada, mas seu sorriso era evidente.
— Ah, nada… — ela disse, forçando um tom casual, mas não conseguiu evitar um sorriso travesso. — Só acho engraçado você mentir para a sua irmã.
Aqueei uma sobrancelha, surpreso pela observação dela.
— Você acha engraçado? — eu ri, mas com um tom suave. — Eu e a Fiorella somos muito unidos. Ela se preocuparia tanto que poderia invadir o apartamento para garantir que eu estou bem.
Stella não resistiu, soltando uma risada sincera dessa vez, ao perceber a verdade . Ela fechou o notebook e deixou a caneta na mesa.
— Sério, Matteo, você acha que a sua irmã iria aparecer aqui só para garantir que você está bem? — ela perguntou, o tom de diversão agora evidente em sua voz.
Dei de ombros, um sorriso brincalhão tomando conta de seu rosto.
— Bem, ela já fez isso antes. A preocupação dela é… incontrolável às vezes. E eu nunca consigo escapar de uma análise detalhada.
Stella me olhou, a expressão um pouco mais suave agora,. Ela suspirou, se ajeitando na cadeira enquanto me aproximava da mesa, parecendo um pouco mais à vontade do que antes.
— Eu entendo. Família sempre faz isso, né? — ela disse, mais pensativa agora.
— Sim, família faz. Eles se preocupam, mesmo quando você tenta esconder isso deles.
Stella assentiu em compreensão, deixando o assunto da irmã de lado por enquanto.
Eu me acomodei em uma das cadeiras próximas à mesa, observando Stella, que agora estava mais tranquila e com um sorriso divertido ainda nos lábios. A conversa havia ficado mais leve, mas eu sentia que ela tentava disfarçar algo, talvez o cansaço. Fiquei ali por um momento, ponderando sobre o que poderia fazer para aliviar um pouco a pressão que ela estava vivendo.
— E quanto à minha irmã? — perguntei, tentando parecer descontraído. — Ela não está te dando muito trabalho, está? Posso conversar com ela se precisar de ajuda para aliviar o clima.
Stella virou-se para mim, levantando uma sobrancelha como se a ideia fosse absurda, mas seu sorriso era suave.
— Não, está tudo bem, Matteo. Realmente não se preocupe. A Fiorella tem sido… bem, ela só está tentando ser legal. Acho que é melhor assim, ter algo para me distrair, sabe?
Ela parecia estar se convencendo disso também, como se realmente não quisesse me preocupar mais do que o necessário. Eu não consegui evitar um suspiro. Ela estava tentando ser forte, mas eu sabia que, no fundo, estava tudo muito difícil para ela. Aquietei meus pensamentos por um momento antes de dar o próximo passo. Ela não precisava se preocupar com mais nada, eu ia ajudar no que fosse possível.
— Olha… — comecei, em um tom mais sério, tentando mostrar a ela que eu não estava brincando. — Eu vou incluir você em um seguro saúde, ok? Você pode escolher o médico que preferir e marcar os exames que achar necessário.
Ela me olhou por um segundo, os olhos um pouco surpresos, como se não esperasse essa oferta da minha parte. Eu não queria que ela sentisse que estava sobrecarregada ou sozinha para tomar decisões em meio a tudo isso.
— Matteo… — ela começou, mas eu a interrompi suavemente.
— Eu sei que você não quer que eu faça nada por você, mas me deixa cuidar disso. Você vai precisar de acompanhamento e, se isso puder ajudar a aliviar um pouco sua cabeça, vou ficar feliz em ajudar.
Ela permaneceu quieta por um momento, e eu sabia que a proposta pegou ela de surpresa. Mas, por um instante, pude ver uma faísca de alívio nos seus olhos. Ela não precisava mais se preocupar com mais um detalhe que poderia desmoronar. Ela olhou para mim, e eu podia ver a gratidão, mas também a resistência.
— Você não precisa fazer isso, Matteo — ela disse, a voz baixa. Mas, em seguida, sorriu de forma genuína, como se estivesse começando a perceber que poderia confiar em mim mais do que achava.
— Eu sei — respondi, tentando suavizar ainda mais as palavras. — Mas eu quero. Isso não é sobre te ajudar porque sou “obrigado”. É porque quero que você tenha a melhor assistência possível. Apenas… me deixe ajudar.
Ela permaneceu em silêncio por um instante, como se ponderasse a oferta, até que finalmente assentiu com um leve suspiro.
— Tá bom — ela disse, com uma leveza que fez meu peito relaxar um pouco.
Acho que, naquele momento, ela soube que, mesmo em um cenário difícil, eu estava disposto a fazer o que fosse possível para ajudar, e eu queria que ela soubesse disso.
— Provavelmente, essa tarde minha assistente vai entregar a documentação para você. Você pode marcar as consultas amanhã, se quiser. Eu vou garantir que tudo esteja organizado para você, não se preocupe com nada disso — disse, tentando passar a sensação de que, pelo menos nesse aspecto, ela não precisaria se preocupar.
Ela me olhou, um sorriso tímido curvando os lábios.
— Obrigada, Matteo — ela respondeu, e dessa vez a gratidão parecia mais natural, mais fácil.
Fiquei ali por um momento, sem saber o que mais dizer. Algo dentro de mim queria continuar conversando, perguntar mais sobre como ela estava se sentindo, mas sabia que ela precisava de um tempo para processar tudo, assim como eu também estava tentando fazer. Então, hesitante, eu respirei fundo e comecei a me afastar.
— Bom… Eu vou te deixar trabalhar — falei, com a voz um pouco mais baixa, como se não quisesse interromper seu ritmo. — Não quero atrapalhar mais do que já atrapalhei hoje.
Mas, enquanto me afastava, uma sensação estranha se apossou de mim. Algo misturado entre o alívio de poder ajudá-la e a necessidade de ter mais espaço, mais tempo para entender o que eu estava sentindo a cada dia que passava. Eu sabia que as coisas estavam começando a mudar, e ainda não sabia como lidar com isso. Uma parte de mim queria voltar, perguntar mais, mas me contive. Não podia forçar nada.
Olhei para ela uma última vez antes de sair da cozinha, vendo-a de volta ao seu notebook, mas com uma energia diferente. Algo que eu não sabia definir ainda, mas que era mais leve, como se ela já estivesse um pouco mais tranquila. E, por mais que estivesse em silêncio, eu podia perceber que a distância me deixava com uma sensação no peito que, apesar de incômoda, também era algo que eu não queria afastar.