Capítulo 28: Matteo Bianchi

1631 Words
Eu estava sentado na sala, mas era como se o couro do sofá queimasse minha pele. Meu nervosismo era palpável, quase tão denso quanto o ar ao meu redor. As gêmeas estavam subindo, e o som das risadas delas ecoava pelo corredor como uma contagem regressiva. Contei a Stella sobre a visita, deixando claro que eram apenas duas crianças animadas e barulhentas, mas mesmo assim, a tensão permaneceu. Ouvi passos leves vindo do corredor, e virei a cabeça para o som. Stella apareceu, hesitante, vestindo um vestido florido azul que compramos juntos dias atrás. O tecido leve moldava seu corpo pequeno, destacando a pequena curva de sua barriga. Minha respiração parou por um momento. Eu deveria desviar o olhar, mas não consegui. Meu peito se apertou, não apenas pelo desejo, mas pela vontade instintiva de me aproximar e acariciar aquela pequena curva, como se fosse uma promessa de cuidado. — Eu… eu acho que isso foi um erro. — Stella falou, olhando para baixo, puxando uma das alças do vestido como se quisesse escondê-lo. — Eu não deveria ter escolhido esse vestido. Eu sabia que sua insegurança por não conseguir esconder o bebê estava aumentando. Mas também sabia que dentro do meu peito, jamais deixaria que algo a machucasse. — Não. — Minha voz saiu mais firme do que eu pretendia. Dei um passo à frente. — Você está… linda, Stella. Sério. Ela ergueu os olhos para mim, a expressão dela ainda carregada de nervosismo. Cruzei os braços, tentando evitar a tentação de fazer qualquer coisa que pudesse ultrapassar o limite que ela mesma estabelecera. — Está nervosa? — perguntei. Ela soltou uma risada curta, sem humor. — Um pouco. Um sorriso escapou dos meus lábios, e eu me aproximei um pouco mais. — Elas vão adorar você. Já adoram qualquer coisa que eu gosto, então… Stella arqueou a sobrancelha, mas não disse nada. Antes que ela pudesse pensar muito na minha resposta, ouvi os passos apressados e as vozes das meninas entrando pela porta. Elas correram para a sala como pequenos furacões, os cabelos loiros idênticos balançando enquanto os olhos brilhantes se fixavam em mim. — Tio Matteo! — Uma delas gritou, jogando-se nos meus braços. — Olha o que a gente trouxe! — a outra apontou para um pote de biscoitos, completamente esquecida de qualquer outra coisa ao redor. As duas usando vestidos em tons de rosa com tules armados e os cabelos loiros presos em trança. Elas estavam na fase adorar qualquer coisa de princesa. Desviei o olhar das gêmeas apenas por um instante, o suficiente para ver Stella se encolher um pouco ao fundo. Mas, então, algo aconteceu. Uma das meninas — Ana — a viu e parou abruptamente. — Quem é você? — perguntou, inclinando a cabeça para o lado como se estivesse avaliando Stella de cima a baixo. Pude ver o medo no rosto dela, mas antes que pudesse intervir, Stella sorriu — um sorriso tímido, mas caloroso. — Eu sou Stella. Vocês devem ser as sobrinhas do Matteo, não é? As meninas se entreolharam, confusas, mas não hostis. Finalmente, Ana deu um passo à frente. — Você gosta de biscoitos? Porque a gente trouxe. Olhei para Stella, que parecia relaxar um pouco mais. — Gosto sim, obrigada. Mas não consigo comer muitos. Vocês podem me ajudar? — ela disse. O rosto das meninas se iluminou, e eu soube que aquele seria o momento em que Stella perceberia que não precisava carregar o mundo sozinha. Antes que qualquer outra palavra fosse dita, Júlia — sempre a mais curiosa e apressada — adiantou-se, segurando o pequeno pote de biscoitos. Com dedos ágeis, ela abriu a tampa, revelando uma fileira de biscoitos decorados com confeitos coloridos, predominando o rosa em um padrão encantadoramente irregular. — Olha! — Júlia exclamou, segurando um dos biscoitos em direção a Stella. — A gente pintou! Eu e a Ana! Com confeitos de rosa! Não ficou bonito? Ela olhou para Stella com expectativa, os olhos brilhando com um orgulho tão puro e genuíno que era impossível não sorrir. Stella deu um passo à frente, se abaixando um pouco para ficar mais próxima do nível da menina. Ela pegou o biscoito cuidadosamente, como se fosse um tesouro raro, e sorriu. — Ficou lindo, Júlia. Vocês têm um talento incrível! Rosa é minha cor favorita, sabia? O elogio fez os olhos da pequena brilharem ainda mais. Ana, que até então observava, aproximou-se apressada, segurando outro biscoito. — Esse aqui eu fiz sozinha! — ela disse, estendendo a mão com o biscoito em forma de coração, decorado de maneira quase abstrata. Stella riu, genuinamente agora, e olhou para ambas. — Acho que esses são os biscoitos mais bonitos que já vi. As meninas trocaram olhares cúmplices antes de se voltarem para Stella, agora completamente à vontade. Quanto a mim, eu apenas observava, com o coração apertado de alívio e... algo mais. Ver Stella ali, interagindo com as meninas, sorrindo de verdade, era como assistir ao primeiro raio de sol depois de dias de tempestade. Senti que estava certo. As meninas iriam adorá-la. As portas do cinema se abriram, e fomos recebidos pela mistura de luzes do shopping e o barulho das pessoas indo e vindo. Ana e Júlia andavam à nossa frente, tagarelando sem parar sobre o filme que acabáramos de assistir. Seus risos ecoavam no corredor, e Stella caminhava ao meu lado, tranquila, com um leve sorriso nos lábios. Eu não conseguia tirar os olhos dela. A forma como o vestido azul movia-se com cada passo, o jeito como ela parecia mais relaxada... Stella estava começando a se abrir, e isso fazia meu peito se encher de algo que eu ainda não sabia nomear. Sem pensar muito, instintivamente, segurei sua mão. O toque foi leve, hesitante, quase esperando que ela recuasse. Mas, para minha surpresa, ela não apenas aceitou, como virou a cabeça na minha direção e sorriu. Não disse nada, mas aquele sorriso, calmo e confortável, foi tudo o que eu precisava. — Que tal um sorvete? — sugeri, aproveitando que as meninas ainda estavam imersas na discussão sobre seus personagens favoritos do filme. — Sim! Sorvete! — gritou Júlia, dando um pequeno pulo no ar, e Ana a seguiu, agora olhando para mim com expectativa. — Acho que a resposta é sim, Matteo, — Stella disse, ainda segurando minha mão. Caminhamos até a sorveteria próxima, e as meninas praticamente correram para os assentos em uma das mesas. Enquanto eu fazia o pedido no balcão, Stella sentou-se no banco ao lado delas. Quando voltei, com uma bandeja cheia de copos coloridos, as meninas já estavam grudadas nela — Júlia de um lado e Ana do outro, como dois pequenos guarda-costas. — Aqui está. Um de chocolate e baunilha para Ana, morango com chantilly para Júlia e... Stella, eu não sabia qual escolher, então peguei um de cada sabor pra você. — Sorri, colocando o copo cheio de bolas coloridas à frente dela. — Todos os sabores? — Stella arqueou a sobrancelha, tentando conter o riso. — Você está tentando me mimar? — Talvez. — Dei de ombros, sentando-me ao lado dela, observando enquanto ela escolhia cuidadosamente sua primeira colherada. As meninas começaram a falar sem parar, entre risadas e bocas lambuzadas de sorvete. Júlia, sempre mais expansiva, mostrava seu copo quase vazio como se fosse um troféu, enquanto Ana observava Stella atentamente, algo em seus olhos pequenos e curiosos. De repente, Ana perguntou, a voz doce e inocente: — Tia Stella, quando vai nascer o bebê? A colher de Stella parou no ar. O sorriso desapareceu do seu rosto por um segundo enquanto ela olhava para Ana. Senti meu corpo inteiro enrijecer. Olhei para Stella, depois para Ana, tentando processar o que acabara de ouvir. — Bebê? — perguntei, finalmente quebrando o silêncio. Ana apenas deu de ombros, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — É que você tem uma barriga pequenininha... igual à mamãe tinha quando a gente tava lá dentro. — Ela apontou para o próprio abdômen, balançando as perninhas. Stella piscou algumas vezes, parecendo perdida. Então, lentamente, ela relaxou e olhou para mim, como se perguntasse o que deveríamos dizer. — Ana... — comecei, me inclinando um pouco para ficar no mesmo nível dela. — Não é educado fazer esse tipo de pergunta. — Mas é verdade! — Júlia se apressou em intervir, como se estivesse defendendo a irmã. — E a tia Stella parece legal. Se ela tiver um bebê, ele vai ser legal também. Stella riu, a tensão se dissipando. Ela olhou para as meninas e depois para mim, seus olhos transmitindo algo que parecia... aceitação. — Bom, — ela começou, ainda sorrindo. — Eu espero que ele ou ela seja tão lindo como vocês. Mas ainda vai demorar um pouco pra ele chegar. — Um pouco quanto? — Julia perguntou limpando a boca com a mão. Stella fingiu contar com os dedos, lidando de maneira calma e gentil com a situação. — Seis meses, quando chegar o verão ele nascerá. — Humm! — ambas responderam. — A gente vai poder ver ele? —Ana questionou com os olhos cheios de esperanças. Stella sorriu e eu conseguia ver um pouco de tristeza em seus olhos. Ambos tinhamos prometido apenas dois meses, apenas tempo suficiente até que ela pudesse lidar com tudo sozinha e sem correr riscos. — Claro que vão, vou esperar que me visitem, está bem? Ana e Júlia se entreolharam, animas e prometeram que iriam, mas logo voltaram ao sorvete, satisfeitas com a resposta misteriosa. Eu, no entanto, não pude deixar de olhar para Stella novamente, a sensação de algo muito maior entre nós crescendo com cada momento, de que eu não conseguiria deixá-la ao final desse pequeno tempo. Nem mesmo se quisesse.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD