Capítulo 24: Matteo Bianchi

1171 Words
A pilha de papéis à minha frente parecia crescer cada vez que eu piscava. Contratos, relatórios, números... Tudo isso deveria ser fácil para mim. Sempre foi. Mas hoje, minha concentração estava em outra parte da sala. Ou melhor, em outra pessoa. Stella estava no sofá, com as pernas cruzadas debaixo do corpo, um livro aberto nas mãos, imaginando que não estou vendo o tablet sobre ele e seus dedos rolando pela caixa de email. Pela primeira vez em dias, ela estava quieta. Finalmente. Depois de tanta insistência da médica — e minha —, ela aceitou descansar. Era quase um milagre. Quase. Porque, mesmo assim, ela conseguia fazer o ambiente parecer menos calmo. Talvez fosse a forma como mordia o lábio inferior enquanto lia, ou como mexia no cabelo a cada duas páginas. Eu não sabia como algo tão pequeno podia roubar tanto a minha atenção. Devolvi os olhos aos papéis, forçando-me a focar. Mas minha mente já estava longe. Antes dela, minha vida era perfeitamente organizada. Cada coisa no seu lugar. Nada fora do controle. Mas desde que Stella entrou naquele elevador, contando moedas para pagar o café da manhã, foi como se o destino tivesse decidido que minha paz precisava de um abalo sísmico. Ela era o furacão que eu nunca pedi. E, ao mesmo tempo, tudo o que eu nunca soube que precisava. Meu olhar voltou a ela. O cabelo caía em cascata sobre o ombro, os olhos fixos no livro, a testa levemente franzida. O jeito como ela mergulhava nas palavras era quase infantil, como se o mundo inteiro estivesse dentro daquelas páginas. Eu deveria estar irritado. Deveria estar incomodado pelo fato de que minha rotina meticulosamente planejada não existia mais. Mas tudo o que eu sentia era... Calor. Suspirei, esfregando o rosto com as mãos. — Você deveria estar descansando de verdade, não fingindo que ler um livro gigante, enquanto responde email. — eu disse, incapaz de evitar. Ela ergueu os olhos, um sorriso travesso nos lábios. — E você deveria estar trabalhando, não me observando. Toque de mestre. Ela sempre tinha uma resposta. E, droga, como era impossível não sorrir de volta. Ela voltou ao livro, mas meu olhar continuou preso nela por mais tempo do que deveria. Havia algo diferente nos últimos dias. Stella estava mais... quieta. Não do jeito que ela deveria estar por causa do repouso, mas de uma forma que parecia mais profunda, mais pesada. No começo, ela era impossível de ignorar. Cada conversa com ela era uma tempestade de ideias, sentimentos e perguntas que me desarmavam. Eu nunca sabia o que esperar. Stella tinha um jeito único de puxar assuntos que ninguém mais ousaria, como se enxergasse diretamente o que eu tentava esconder. Eu odiava isso. E adorava, na mesma medida. Mas agora, essa chama parecia mais fraca. Ela ainda sorria, ainda fazia comentários afiados e engraçados, mas havia uma distância entre nós que antes não existia. Como se ela estivesse erguendo muros que não estavam ali quando nos conhecemos. Eu sentia falta dela. Não da presença física — isso era óbvio, já que ela praticamente tomava conta do meu apartamento e fazia questão de deixar sua marca em cada canto. Não. O que eu sentia falta era da Stella que falava sobre tudo e nada ao mesmo tempo, da garota que me desafiava com suas perguntas, que fazia com que o silêncio nunca fosse desconfortável. Agora, o silêncio parecia pesado. Fechei os papéis à minha frente, frustrado com minha total incapacidade de fazer qualquer coisa que não fosse pensar nela. — Stella. — chamei. Minha voz saiu mais suave do que eu esperava. Ela ergueu os olhos novamente, surpresa. — O que foi? Eu hesitei, o que não era típico de mim. Mas não sabia como colocar em palavras o que estava na minha mente. — Você tem estado... quieta. — eu disse finalmente. — Mais do que o normal. Por um momento, vi algo passar pelo rosto dela. Algo que parecia vulnerável. Mas foi rápido demais, substituído por aquele sorriso ensaiado que ela usava quando queria desviar de algo. — Talvez eu esteja só cansada de brigar com você. — ela brincou, com um meio sorriso. Eu não sorri de volta. — Você sabe que pode falar comigo, certo? Sobre qualquer coisa. Ela desviou o olhar, os dedos girando a página do livro sem realmente lê-la. — Eu sei, Matteo. Mas não parecia que sabia. Aquela resposta, tão simples e vazia, doeu mais do que eu esperava. Eu não podia ignorar aquilo. A forma como ela evitava meu olhar, como o sorriso que ela usava para esconder o que sentia parecia ainda mais frágil. Sem pensar muito, empurrei os papéis para longe, me levantei e fui até o sofá. Ela ergueu os olhos, surpresa, quando me sentei ao lado dela. — Matteo, o que você está fazendo? Sem dizer nada, tirei o livro e o tablet do colo dela, colocando-os de lado. Stella tentou protestar, mas eu apenas a encarei, firme. — Fala comigo. — insisti. — O que está acontecendo? Ela cruzou os braços, como se quisesse se proteger. — Não tem nada de errado. — Não minta para mim, Stella. — Minha voz saiu mais dura do que eu pretendia, mas eu não conseguia evitar. — Você está diferente, mais distante. Eu sei que tem alguma coisa te incomodando. Ela mordeu o lábio, desviando o olhar. O silêncio entre nós parecia sufocante até que, finalmente, ela suspirou. — Por que você se importa, Matteo?— A voz dela saiu baixa, quase um sussurro. — Você vai embora daqui um mês. Vai voltar para sua vida, para seu mundo, e nem vai lembrar que eu existo. Aquelas palavras atingiram meu peito como um soco. — Stella... — É verdade. — ela continuou, sem me dar tempo para responder. — Eu não sou nada além de uma funcionária para você. Uma garota que você achou no elevador e que provavelmente está atrapalhando sua vida agora. Sou diferente das mulheres do seu nível, Matteo. Não tenho um sobrenome importante, não uso roupas de grife, e... — Ela riu sem humor, jogando a cabeça para trás. — Eu nem sequer pertenço ao mesmo mundo que você. Meu coração apertou. Era isso que estava passando pela cabeça dela? Ela realmente acreditava que eu poderia esquecê-la assim tão facilmente? Inclinei-me para frente, ficando mais perto dela. — Você acha mesmo que eu poderia te esquecer? Ela finalmente olhou para mim, seus olhos cheios de algo que eu não conseguia decifrar. Tristeza? Insegurança? — Claro que sim. — ela disse, sua voz vacilando. — Mulheres como eu são esquecíveis, Matteo. Eu sei disso. Peguei a mão dela, segurando firme antes que ela pudesse se afastar. — Stella, você não tem ideia do quanto está errada. — eu me aproximei retirando uma mexa do seu cabelo que lhe caía sobre a testa, vendo sua respiração falhar nos lábios. — E se eu não quiser te esquecer? Se eu não quiser deixar você para trás.
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