Acordei com o som suave dos raios de sol entrando pelas janelas, mas a sensação era diferente. Era como se o peso de alguns dias tivesse se dissipado um pouco. A conversa de ontem ainda estava fresca na minha mente, mas de uma maneira mais leve, quase tranquila. Havia algo em dividir aquela parte do meu passado com Stella, algo que não acontecia há muito tempo. Ela não me julgou, não se afastou. Apenas ouviu, e por mais simples que fosse, isso fez toda a diferença.
Olhei ao redor e percebi que não estava mais no sofá. Levantei-me e caminhei até o corredor, seguindo o som da voz dela. Ela estava falando ao telefone, a conversa tranquila e animada, como se fosse o dia mais normal do mundo. Parei um pouco à distância, observando, sem querer interromper. Algo nela me trazia uma sensação de paz que eu não sabia que precisava até encontrar.
Ela desligou a chamada e me percebeu, virando-se rapidamente com um sorriso que, embora discreto, iluminava o ambiente.
— Como você está? — perguntou ela, ainda com o celular na mão, mas com um brilho diferente nos olhos.
Eu respirei fundo, sentindo uma leveza que não esperava.
— Estou bem. Melhor. E você? — minha voz soou mais suave do que eu pretendia, mas ela parecia não perceber.
— Bem. Olha... obrigada por compartilhar e confiar em mim ontem. Eu juro que não contarei a ninguem, Matteo.
— Eu sei. — me aproximo e sento ao se lado na cama. — Confio em você mais do que imagina.
Timidamente ela entrelaça nossos dedos. Ela colocou o celular de lado e deu um pequeno sorriso antes de responder.
— Consegui agendar a ultrassonografia. Vai ser daqui a algumas horas. A médica conseguiu encaixar.
Eu a observei, sentindo um alívio por ela ter conseguido. Ela estava, finalmente, começando a enfrentar o que vinha pela frente com mais confiança, e isso me fazia sentir que talvez, só talvez, eu pudesse ser de alguma forma útil para ela nesse caminho.
— Que ótimo. Fico feliz por você — respondi, sinceramente. — Como está se sentindo?
Stella deu de ombros, tentando disfarçar, mas havia algo em seu olhar que eu sabia que ela estava segurando.
— Bem, um pouco cansada. Mas nada que eu não possa lidar. E estou ansiosa.
Ela me olhou de volta, hesitante por um momento, antes de perguntar, com aquela voz suave que só ela tem:
— Você... gostaria de ir comigo?
Eu a observei por um segundo. A pergunta estava lá, simples e direta, mas com um significado que eu não podia ignorar. Eu queria ir. Não só porque ela precisava de companhia, mas porque eu queria estar lá, ao lado dela. Algo me dizia que, mais do que uma simples consulta, aquele momento era importante para nós dois.
Sem hesitar, eu disse:
— Sim. Eu gostaria de ir. Com você.
Ela sorriu, um sorriso pequeno, mas que significava muito mais do que as palavras podiam expressar.
— Obrigada, Matteo. Vai ser bom ter você lá.
Eu dei um passo à frente, me aproximando dela, e por um momento, me vi desejando que aquele momento durasse um pouco mais. Ela estava se abrindo para mim de uma maneira que eu não esperava, e isso me fazia sentir uma responsabilidade que não sabia se estava pronto para carregar, mas que não queria deixar ir.
— Vou me arrumar — disse Stella, quebrando o silêncio. E eu acenei com a cabeça, pronto para acompanhá-la, mesmo que fosse apenas para mais um pequeno passo em direção ao futuro que ainda estávamos tentando descobrir juntos.
Saímos para tomar um café antes de seguirmos para a clínica, e, à medida que caminhávamos pelas ruas movimentadas, uma sensação estranha de paz me envolvia. Eu não sabia exatamente o que era, mas havia algo na maneira como Stella se movia ao meu lado, tranquila, mais sorridente do que nos últimos dias. Era como se ela se sentisse mais à vontade, mais confortável comigo. Isso, de alguma forma, me fazia sentir uma felicidade silenciosa, como se eu estivesse fazendo algo certo, algo que, de alguma maneira, a estivesse ajudando.
Observava-a enquanto ela tomava o café, com a colher batendo na xícara em um ritmo calmo. A forma como ela se concentrava nas pequenas coisas me lembrava que, embora tivéssemos que enfrentar algo imenso, ainda havia espaço para esses momentos simples e pequenos. Eu estava ali, ao lado dela, e isso já parecia ser o suficiente para que ela se sentisse bem. E, para ser sincero, era o suficiente para mim também.
Algum tempo depois, chegamos à clínica. Preenchemos a ficha, e eu percebi como o ambiente lá tinha um ar de tranquilidade, quase como se estivéssemos em um lugar onde não precisávamos de mais explicações, só de tempo. Mas logo notei o nervosismo de Stella. Ela estava tentando esconder, mas seus dedos tremiam ligeiramente enquanto segurava a caneta.
Eu a observei por um momento, meu coração apertando-se com a preocupação. Quando nossos olhares se cruzaram, ela forçou um sorriso. Eu podia ver o medo nos olhos dela, a incerteza que sempre parecia acompanhá-la desde que a gravidez começou a se tornar real. Não sabia se era por causa do futuro, ou do que ela estava prestes a ver naquele exame.
Me aproximei dela, sem pensar muito, e segurei sua mão com firmeza.
— Vai ficar tudo bem — disse, minha voz tranquila, mas com a certeza que eu não sabia de onde vinha. Era como se, de alguma forma, eu já soubesse que tudo ficaria bem. Eu queria acreditar nisso.
Ela olhou para mim, ainda um pouco nervosa, mas deu um suspiro e assentiu, apertando a minha mão de volta.
A recepcionista nos chamou, e logo estávamos na sala do ultrassom. Stella se deitou na cama, com um sorriso tímido, e eu me sentei ao lado dela, tentando manter minha presença o mais reconfortante possível. Ela olhou para mim, e, com um gesto tão instintivo quanto o meu ato de segurar sua mão, ela estendeu os dedos, buscando meu toque. Eu entrelacei nossos dedos, sentindo a necessidade de estar ali, de acompanhá-la nesse momento.
A médica entrou e começou a explicar o procedimento. Quando o ultrassom começou, eu me vi ainda mais apreensivo. A tela do monitor mostrou algo que eu sabia que estava acontecendo, mas que de alguma forma não era real até aquele momento. A médica, com voz suave, começou a falar sobre o estado de Stella.
— Você está se recuperando bem. Vou pedir que faça um repouso leve e que comece a tomar algumas vitaminas, mas, por enquanto, está tudo bem. — Ela sorriu levemente, transmitindo confiança.
Stella estava quieta, focada no que estava acontecendo, mas seus olhos buscavam o meu constantemente, procurando algum tipo de garantia que eu pudesse dar. Eu apertava sua mão com mais firmeza, desejando poder tirar todas as dúvidas dela, todas as preocupações que a atormentavam.
Finalmente, a médica sorriu para nós, e a tensão na sala parecia diminuir.
— Esse momento é para os pais — ela disse, e em seguida o som suave e inconfundível do coração do bebê preencheu a sala. — O som que vocês esperavam.
Stella não negou que eu era o pai, ela apenas me manteve ali ao seu lado, como se precisasse de mim.
Eu não pude evitar. Meu peito se apertou de uma forma indescritível, e por um instante, a sala se tornou um lugar privado só para nós três. O som do coraçãozinho pulsando com força, era o único som que importava ali. O que eu sentia era algo que eu nunca imaginei que experimentaria. O choro contido e a emoção de saber que aquela vida, aquele bebê, estava ali, acontecendo, naquele momento.
Stella olhou para mim com os olhos cheios de lágrimas, e sem dizer nada, pressionou seus dedos contra os meus, um gesto silencioso de agradecimento. Eu poderia sentir o peso de tudo o que ela estava sentindo, e mesmo que não soubesse como aliviar tudo, estar ali, ao seu lado, parecia ser a única coisa que realmente fazia sentido.
Eu segurei a sua mão ainda mais forte, como se isso fosse o suficiente para garantir que nada de r**m aconteceria. Que, enquanto eu estivesse ao seu lado, nada poderia quebrar aquele momento de felicidade.