Capítulo 36: Matteo Bianchi

1165 Words
O ar frio da manhã me atingiu assim que saí do carro, um choque gelado que me lembrou que o mundo seguia, indiferente aos turbilhões dentro de mim. A clínica era moderna, com uma fachada discreta, afastada das ruas movimentadas da cidade, e eu senti uma mistura de ansiedade e esperança se misturar no peito enquanto caminhava para a entrada. Entrei cedo, antes do horário marcado, e a recepção estava vazia. O ambiente era limpo, iluminado por uma luz branca que fazia cada canto parecer impessoal demais para um momento tão íntimo. Sentei-me na sala de espera, minhas mãos inquietas passando pela borda da cadeira, os olhos fixos no relógio que parecia andar mais devagar a cada segundo. O pensamento rodava sem descanso: “Será que ela vai aceitar o que estou propondo? Será que confia em mim o suficiente para que a gente comece esse caminho juntos? E o que isso realmente significa para nós?” Mal tinha tempo para analisar essas questões quando a porta se abriu e ela apareceu. Stella estava ali, de novo, à minha frente, e mesmo cansada, ainda carregava aquela força silenciosa que me fascinava desde o começo. Seus olhos encontraram os meus por um instante, e um leve sorriso surgiu nos seus lábios, pequeno, quase tímido. Levantei-me para acompanhá-la até a recepção. — Bom dia, Matteo. — Bom dia, Stella — respondi, tentando soar calmo, mas sentindo a ansiedade pulsar em cada sílaba. Fomos chamados logo depois, e uma enfermeira nos guiou até a sala de exame. A médica, uma mulher de meia-idade com um sorriso acolhedor, cumprimentou-nos com uma gentileza que suavizou a tensão que eu via nos olhos de Stella. — Por favor, deite-se aqui — ela disse, enquanto preparava o aparelho de ultrassom —. Vamos ver como está seu bebê. Stella obedeceu, puxando o cobertor até a cintura, o rosto ainda fechado numa expressão de preocupação que eu desejava desesperadamente poder aliviar. A médica passou o gel frio sobre a barriga dela, e eu vi as mãos dela tremerem levemente. Sem pensar, estendi minha mão e a segurei, passando a mensagem silenciosa de que ela não estava sozinha. — Pode ficar tranquila — disse a médica, com voz calma —, estamos no início da gestação, e tudo indica que o bebê está se desenvolvendo bem. Na tela, uma imagem em preto e branco foi ganhando forma, mostrando o contorno tênue daquela nova vida. — Vejam aqui — apontou a médica —, o batimento cardíaco. Ouçam só... — um som ritmado preencheu a sala, firme e constante. Stella sorriu, os olhos marejados, e eu senti um nó apertar meu peito. — Ele está forte — continuei ela —, com frequência adequada para essa fase. É um ótimo sinal. Soltei a mão de Stella por um momento para ajustar o aparelho e continuar a observação. — Agora, vou medir o comprimento do feto para confirmar a idade gestacional. Isso ajuda a garantir que o desenvolvimento está conforme esperado. A médica anotava os números em seu computador, explicando com paciência. — É importante que a senhora cuide bem de si mesma — disse, olhando para Stella —, repouso é fundamental, mas não precisa ficar completamente parada. Caminhadas curtas, principalmente para tomar um pouco de sol, ajudam na absorção de vitamina D, essencial para o bebê e para a sua saúde. Ela então entregou uma prescrição com vitaminas pré-natais e reforçou a importância da alimentação equilibrada. — Evite esforços e estresse excessivo. Lembre-se, cada passo cuidadoso é um passo para uma gestação saudável. Stella assentiu, absorvendo tudo com um misto de gratidão e preocupação. — Matteo, é importante que você também participe desse processo — falou a médica, dirigindo-se a mim. — O apoio emocional faz muita diferença para a gestante. Eu olhei para Stella, que encontrou meu olhar, e senti que aquele momento solidificava algo mais do que qualquer palavra poderia dizer. Quando a consulta terminou, ajudamos Stella a se levantar, e caminhamos de volta para a recepção. O silêncio entre nós era confortável, cheio de significado. — Que tal um almoço? — arrisquei, tentando quebrar a tensão que ainda pairava. Ela hesitou, mas aceitou com um sorriso tímido. No restaurante próximo, num canto discreto, pedimos pratos leves e começamos a conversar. As palavras fluíam devagar, mas aos poucos foram revelando o que cada um sentia, o que cada um temia. Sentamos num restaurante discreto próximo dali, longe do barulho e dos olhares que não queríamos. O lugar tinha luz suave, mesas afastadas, e um clima que convidava à conversa sincera. Pedi pratos leves, pensando em algo que fosse delicado para a gravidez dela, enquanto tentava controlar a ansiedade que me queimava por dentro. Por um momento, ficamos em silêncio, apenas observando o movimento ao redor, como se estivéssemos preparando o terreno para o que precisava ser dito. Foi Stella quem quebrou o silêncio primeiro, com uma voz baixa, quase um sussurro. — Matteo... — começou, olhando para as mãos entrelaçadas no colo —, eu não vou mentir... tenho medo. Medo do que pode acontecer com meu filho, medo do que Henrique pode fazer, medo de não ser forte o suficiente para enfrentar tudo isso sozinha. Eu senti o peso das palavras, a sinceridade que atravessava o medo e a coragem dela. — Eu entendo — respondi, apertando suavemente sua mão —, não é uma situação fácil. Mas saiba que não vai ser sozinha. Eu vou estar aqui, com você e com o bebê, não importa o que aconteça. Ela ergueu os olhos para mim, procurando alguma garantia, alguma certeza. — E depois do acordo? — perguntou, com uma ponta de insegurança — Quando esse casamento “de mentira” acabar... o que vai ser de nós? De mim? Do bebê? Respirei fundo, olhando diretamente em seus olhos, querendo que ela sentisse a sinceridade que eu estava tentando transmitir. — Eu não faço isso só pelo acordo. — disse com firmeza —. Eu quero estar presente. Quero ser um apoio, um amigo, uma família para vocês. Mesmo que as coisas não saiam como planejamos, não vou desaparecer da vida do seu filho. Ele terá alguém que se importa de verdade. Ela apertou minha mão com mais força, como se estivesse se segurando para não se deixar levar completamente pelo sentimento que começava a nascer. — Eu quero acreditar nisso, Matteo — disse, a voz embargada —, mas ainda tenho medo. Medo de perder tudo o que tenho, medo de me decepcionar. — É normal ter medo — respondi, com um sorriso terno —. Mas vamos enfrentar tudo juntos. Você não está sozinha. Por um momento, ficamos assim, na quietude do restaurante, cada um sentindo o peso e a esperança que aquele momento trazia. E naquele instante, eu soube que aquele almoço não era só uma pausa no caos. Era o começo de algo novo — para ambos, para o bebê, para uma família que ainda estava se formando.
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