Capítulo 26: Matteo Bianchi

1170 Words
A luz que atravessava a cortina me acordou antes do despertador. Meu corpo ainda estava mergulhado no calor dos lençóis, mas minha mente disparava, ecoando a lembrança da noite passada. Matteo. Tão próximo. Sua respiração roçando minha pele, sua intenção clara, mas contida. Quase. Ele quase me beijou. E por um momento, eu queria que tivesse feito. Balancei a cabeça, tentando afastar o calor que subia pelo meu corpo. Era só cansaço, eu me convenci. Só exaustão acumulada e... talvez uma pitada de carência. Não era sobre ele. Não podia ser. Levantei-me e segui para o banheiro, lavando o rosto como se a água gelada pudesse dissolver a confusão que girava dentro de mim. Matteo não era uma opção. Ele era um ponto de apoio em um momento em que eu precisava de um, não um capítulo novo para minha bagunçada história. Eu não podia me permitir sonhar com algo que já tinha me ferido antes. Ao chegar à cozinha, o cheiro de café fresco invadiu meus sentidos, trazendo uma memória tão familiar e ao mesmo tempo tão distante. Ele estava lá, sentado em frente à bancada, os olhos fixos no tablet. Matteo parecia tão descontraído quanto aquele cenário não me permitia estar. Ele ergueu os olhos ao ouvir meus passos e sorriu, um sorriso pequeno, mas tão caloroso que meu coração tropeçou no ritmo. — Bom dia, Stella. — Sua voz carregava uma tranquilidade que eu não tinha conseguido alcançar naquela manhã. Eu murmurei algo que devia soar como “bom dia”, sentindo o rubor subir pelo meu rosto. Antes que eu pudesse me sentar, Matteo se levantou, puxando uma cadeira para mim. O gesto, tão simples e natural, fez meu peito apertar. Quando foi a última vez que alguém cuidou de mim assim? Quando foi a última vez que eu deixei? — Sente-se. Fiz seu café. — Ele não esperou pela minha resposta, já pegando minha xícara e enchendo-a com o líquido escuro e fumegante. Eu me sentei, ainda meio anestesiada pela cena que parecia pertencer a outra vida. Observá-lo preparar meu café, tão despreocupado e seguro, quase me fez esquecer por um instante quem eu era. Ele deslizou a xícara para minha frente, sem alarde, e voltou ao lugar dele. — Dormiu bem? — perguntou, os olhos pousando em mim por um momento antes de voltar ao tablet. — Sim. E você? — Minha voz soou mais baixa do que eu pretendia. Ele assentiu, os lábios se curvando em um meio sorriso que parecia guardar um segredo. Eu tomei um gole do café, sentindo o calor se espalhar pelo meu corpo, mas não foi suficiente para me aquecer tanto quanto a presença dele. — Não sabia que você era tão atencioso assim. — As palavras escaparam antes que eu pudesse filtrá-las. Matteo ergueu os olhos novamente, agora com algo mais brilhante e provocador no olhar. — Talvez você ainda tenha muito a descobrir sobre mim. — A frase veio com um tom casual, mas carregava uma intensidade que fez meu coração saltar. Olhei para a xícara em minhas mãos, incapaz de sustentar o olhar dele por mais tempo. O silêncio que se seguiu deveria ser desconfortável, mas não era. Era cheio de algo... algo que eu não sabia nomear, mas que fazia meu peito vibrar e minha mente se questionar. Matteo não era uma opção. Mas, então, por que meu coração não parava de escolher ele? Comecei a comer tentando desviar do se olhar intenso. Ele me observava como se quisesse garantir que eu fosse comer tudo, ou talvez que não fosse fugir daquela cozinha. Matteo quebrou o silêncio primeiro. Sua voz era baixa, mas firme, como se ele escolhesse cada palavra com cuidado. — Stella, sobre ontem à noite... eu sinto muito. Não deveria ter... — Ele hesitou, os olhos fixos nos meus agora, vulneráveis e intensos. — Não deveria ter quase te beijado. Foi um erro da minha parte. Meu coração se apertou. Eu sabia que ele estava tentando fazer a coisa certa, mas aquelas palavras me soavam como uma negação de tudo o que eu senti. Balancei a cabeça, decidida a ser honesta, mesmo que isso significasse me expor mais do que eu gostaria. — Não precisa se desculpar. — Minha voz saiu suave, mas firme. — Eu também queria, Matteo. Só... só estou confusa com tudo isso. Com a gente. — Engoli em seco, sentindo a necessidade de continuar antes que ele dissesse algo. — O último homem com quem eu me envolvi... sabe o que aconteceu. E eu já estava pronta para lidar com isso sozinha. Matteo deixou o tablet de lado e se inclinou para frente, os cotovelos apoiados na bancada, a expressão carregada de algo que parecia dor e determinação ao mesmo tempo. — Eu entendo. Mais do que você imagina. — Sua voz era quase um sussurro. — Eu também tenho medo, Stella. Medo de criar expectativas, de me machucar ou machucar você. Mas a única coisa que eu te peço é... por favor, não me afaste. Não fuja disso. — Ele respirou fundo, como se reunisse coragem. — Vamos descobrir o que é isso juntos, no nosso tempo. Sem pressa, sem promessas que não podemos cumprir agora. Apenas... não me afaste. Senti meu coração pulsar de uma maneira que não sentia há muito tempo. As palavras dele, tão sinceras, me tocaram em um lugar que eu nem sabia que ainda existia. Eu não tinha resposta imediata, mas percebi que, pela primeira vez, a ideia de deixar alguém se aproximar não parecia tão impossível. — Eu não tenho pretenção de te machucar. — Eu sei. Nunca imaginei que teria. — respondo baixando a xícara. Matteo estendeu a mão sobre a mesa, seus dedos roçando os meus com uma suavidade que parecia pedir permissão. Senti um arrepio percorrer meu braço e, sem pensar muito, deixei que ele segurasse minha mão. Seu toque era firme e ao mesmo tempo gentil, como se ele tivesse medo de quebrar algo frágil. — Já que vamos começar devagar... — ele começou, a voz carregada de algo entre expectativa e nervosismo. — Você aceitaria sair comigo? Um encontro de verdade. Não como amigos do trabalho, não como dois cúmplices improvisados... mas como nós. Só nós dois. Olhei para ele, buscando alguma hesitação, alguma insegurança que me desse motivo para recusar. Mas tudo o que encontrei foi sinceridade. Uma vontade genuína de tentar. De descobrir. Meu coração, tão acostumado a construir barreiras, parecia finalmente disposto a ceder. Não me lembrava da última vez em que fui a um encontro de verdade. Do tipo que me deixou suspirando no dia seguinte e Matteo parecia estar disposto a me garantir que teria essa sensação. — Sim, Matteo. Eu aceito. — As palavras saíram antes que eu pudesse duvidar delas. O sorriso que ele me deu em resposta fez meu peito se aquecer de uma forma que eu não sentia há anos. Talvez, só talvez, isso pudesse ser o começo de algo que valesse a pena arriscar.
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