POV: Hannah Montenegro
Eu desci do carro ainda com o cheiro de perfume caro dele impregnado em mim.
Um cheiro que não pertencia àquele lugar. Que destoava do pó, do sol forte, do concreto quente do morro.
Já era quase meio-dia.
O estômago revirou antes mesmo de eu dar o primeiro passo.
O morro estava acordado demais. Vivo demais. Pessoas subindo e descendo, sacolas nas mãos, crianças correndo, vozes se cruzando.
Alguns me cumprimentaram no automático, outros me olharam tempo demais.
Tudo normal.
Normal demais pra dar errado.
Foi quando eu ouvi.
A voz grave de Cauã vinha na minha direção, carregada de coisa m*l digerida, rasgando o barulho da rua.
— Que p***a é essa, Hannah?
— Eu aqui igual um o****o, preocupado com você… e você de rolê com esse playboy?
Meu corpo travou.
O sangue subiu quente, a boca secou, o coração disparou fora do ritmo. Eu abri a boca pra responder — pra negar, pra cortar, pra encerrar aquilo —
Mas não deu tempo.
O som seco da porta batendo ecoou pela rua estreita.
Samael já estava fora do carro.
O corpo dele veio duro, tenso, grande demais praquele espaço apertado. Os ombros largos ocupavam a rua como se ela tivesse encolhido de repente. As mãos fechadas, os pulsos cerrados, segurando um impulso que eu reconhecia bem demais.
Ele parou a poucos passos de mim.
— Hannah… tá tudo bem?
A pergunta saiu controlada demais pra ser calma.
A voz baixa. Rígida. Pronta pra quebrar.
Os olhos azuis passaram rápido por mim conferindo se eu estava inteira e então subiram, cravando em Cauã. O maxilar dele travou no mesmo instante.
Todos os olhares se voltaram para nós três.
Eu senti na pele.
No calor subindo pelo pescoço.
No peso de um silêncio que não era silêncio — era gente demais prestando atenção.
Cauã não falou nada por um segundo. Só me encarou.
A mandíbula rígida. O peito subindo e descendo rápido, como se estivesse segurando algo grande demais pra garganta.
Samael continuava parado atrás de mim.
Eu sentia. Não precisava virar.
A presença dele ocupava espaço, pressionava o ar, como se a rua tivesse ficado estreita demais pra três pessoas.
— Hannah… — Samael chamou de novo, mais baixo agora.
Aquilo só piorou.
Porque Cauã ouviu.
E sorriu de lado.
Um sorriso torto. r**m.
Daqueles que vêm antes da merda.
— VOLTA PRA p***a DO TEU CARRO! — Cauã rugiu pra ele, os músculos do pescoço tensos. — AQUI NÃO É TEU LUGAR!
Meu estômago afundou.
— Cauã, não — falei rápido demais. — Não começa.
Ele deu um passo à frente.
Samael respondeu no mesmo instante, avançando meio passo também.
— E você acha que eu tenho medo de você? — Samael respondeu rindo, um riso curto, debochado, com desdém puro escorrendo pela voz.
O espaço entre eles desapareceu.
Meu coração disparou.
— PARA OS DOIS! — gritei, levantando as mãos, tentando me enfiar no meio antes que virasse coisa maior. — PARA AGORA!
Mas ninguém estava me ouvindo direito.
O morro já tinha entendido que não era conversa.
Era confronto.
E eu estava exatamente onde não devia estar:
no meio.
O primeiro empurrão veio seco.
Sem aviso.
Sem palavra.
Cauã bateu o peito contra o de Samael como quem marca território com o próprio corpo. O impacto foi forte o suficiente pra arrancar o ar dos meus pulmões por um segundo. Samael reagiu no mesmo instante, empurrando de volta com força bruta, os músculos do braço tensionando sob a camisa.
— PARA! — eu gritei, me jogando entre os dois.
Minhas mãos foram sozinhas. Desesperadas.
Uma cravou no peito de Samael.
A outra no de Cauã.
Dois corações disparados sob meus dedos.
Dois corpos quentes.
Duas forças que não sabiam recuar.
— Eu só vou falar uma última vez — Cauã rosnou, tentando avançar de novo. — Volta pra p***a do teu carro ou eu vou meter bala no meio da tua fuça engomada!
Samael riu.
Mas não foi riso.
Foi escárnio puro.
— Acha que eu tenho medo de você, seu merdinha? — cuspiu. — Um tranficantezinho de meia tigela como você?
O morro reagiu.
A rua estreita pareceu explodir em som. Janelas se abriram. Portas rangeram. Gente saiu das casas, primeiro curiosa, depois alerta. Vozes começaram a se sobrepor rápido demais.
— Olha isso…
— Ih, deu r**m…
— É polícia?
— Não, não é…
Alguém gritou lá de cima da viela. Outro respondeu de baixo. Em segundos, tinha gente demais onde antes só tinha sombra.
— CHEGA! — eu gritei de novo, a voz falhando. — VOCÊS ENLOUQUECERAM?
Mas eles já não me ouviam.
Cauã tentou passar por mim. Samael fez o mesmo. Meus braços começaram a doer de tanto segurar, empurrar, impedir. O peito apertado, a respiração curta, o corpo inteiro tremendo.
— Esse é o meu morro — Cauã rosnou, cuspindo as palavras na cara de Samael. — Eu mando nessa p***a toda. Você não é bem-vindo aqui.
— Vaza agora, c*****o! — Cauã dizia apontando para a saída do morro.
— E você não manda nela — Samael devolveu, avançando meio passo, me empurrando junto sem perceber.
— SAM! — eu gritei, sentindo o pânico subir quente. — PARA!
Ele nem piscou.
Os olhos claros estavam escuros. Cheios daquela fúria antiga que eu conhecia bem demais. A mesma que tinha explodido na delegacia. A mesma que não escutava razão.
— Tira a mão da minha mulher — Cauã disse, baixo, perigoso. — Agora.
— Ela não é tua — Samael respondeu no mesmo tom. — Nunca foi.
Aquilo foi o estopim.
— VOCÊ ACHA QUE É QUEM, p***a?! — Cauã explodiu. — CHEGA NA MINHA QUEBRADA COM A MINHA MULHER?!
A palavra minha ecoou como tiro.
O morro ferveu.
— EI!
— OLHA ISSO!
— CHAMOU DE MULHER!
Meu estômago virou.
— Eu não vou ficar parado vendo você destratar ela! — Samael berrou, avançando de vez.
Os dois se empurraram com força. Eu quase caí. Só não fui ao chão porque agarrei a camisa dos dois, as unhas cravando no tecido.
— EU NÃO SOU DE NINGUÉM! — gritei, sentindo a voz quebrar. — NÃO SOU TROFÉU! NÃO SOU TERRITÓRIO!
Por um segundo os dois travaram.
O silêncio veio pesado. Curto. Falso.
E eu soube:
aquilo já tinha passado do ponto de controle.
O barulho veio antes de eu entender o que era.
Passos muitos. Pesados. Coordenados demais pra serem curiosidade.
O som metálico denunciou primeiro — armas sendo ajustadas, carregadores batendo, dedos firmes em gatilhos. O ar mudou na hora. O morro sentiu.
Eu senti.
Os homens de Cauã surgiram pelas laterais da rua, descendo e subindo ao mesmo tempo, fechando o espaço como uma armadilha viva. Armados até os dentes. Fuzis, pistolas, olhares frios demais pra aquela confusão que até segundos atrás parecia só grito e orgulho ferido.
O efeito foi imediato.
A multidão de curiosos se desfez como fumaça.
Portas bateram.
Janelas se fecharam.
Gente correndo morro acima, morro abaixo.
O barulho virou medo.
Meu coração quase saiu pela boca.
— Cauã não faz isso… — eu sussurrei, sem saber se era pedido ou aviso.
Samael não recuou.
Nem um centímetro.
Ele não piscou ao ver as armas. Não levantou as mãos. Não deu um passo pra trás. O corpo dele continuava firme, ereto, ocupando espaço como se nada daquilo fosse suficiente pra intimidá-lo.
E eu soube.
Não porque ele disse.
Mas porque eu senti.
Se quisesse, Samael despedaçaria cada humano ali em questão de segundos, não ia restar nada deles e nem as balas o parariam.
O instinto dele estava à flor da pele, eu senti. Contido por mim. Só por mim. O maxilar travado, os músculos tensos, o olhar claro perigoso demais pra ser humano.
Ele não era qualquer um.
Ele era um Blackwolf.
Foi então que Jonah apareceu.
No meio dos homens de Cauã.
Ele desceu o morro devagar, acompanhado, a presença dele cortando o caos como lâmina. Não gritava. Não corria. Não precisava. O silêncio abriu caminho pra ele.
Quando ficou frente a frente com Samael, tudo pareceu… errado.
Antigo.
Pesado.
Mais de dez anos sem se ver.
Eu vi o choque no rosto de Jonah antes que ele conseguisse esconder. O jeito como os olhos dele percorreram Samael de cima a baixo, como se estivesse tentando reconciliar o amigo que conheceu com o homem que estava ali agora.
Era estranho.
Era tenso.
Era perigoso demais.
— Samael Blackwolf… — Jonah disse, a voz baixa, incrédula. — Há quanto tempo…
Meu estômago afundou.
Samael não respondeu de imediato.
O olhar dele passou rápido por mim — rápido demais pra ser descuido — como se estivesse conferindo se eu ainda estava ali. Inteira. Viva. Depois voltou para Jonah, duro, atento, preparado para qualquer coisa.
O silêncio entre os dois era antigo.
Carregado.
Cheio de coisas não resolvidas, de memórias que não pediram pra voltar, de ameaças que não precisavam ser ditas em voz alta.
Os homens armados se moveram um pouco mais.
Um passo,
O som metálico foi quase imperceptível.
Mas eu ouvi.
Meu corpo inteiro entrou em alerta.
Eu estava no meio de algo muito maior do que eu.
Maior do que o morro.
Maior do que aquela briga.
E quando Jonah deu mais um passo à frente, diminuindo ainda mais a distância entre eles, eu entendi — com uma clareza gelada, sufocante:
se alguém errasse uma única palavra…
se alguém respirasse fora do tempo…
aquilo não terminaria em gritos.
Terminaria em sangue.