POV DE HANNAH
Ouvi a voz de Babi e saí apressada da sala.
O que vi me fez parar no meio do corredor, o corpo travado, a respiração presa na garganta.
Samael socava Nathanael em fúria.
— SEU FILHO DA p**a! – eu o ouvi gritar para Nathanael.
Não era uma briga comum. Não era impulso momentâneo. Era raiva concentrada, antiga, transbordando de um jeito que eu nunca tinha visto antes. Cada golpe vinha pesado, decidido, como se ele estivesse tentando quebrar algo que vinha sendo contido há tempo demais.
Meu coração disparou.
O som dos socos ecoava pela delegacia, seco, violento. Coisas caíam ao redor, mesa virava, gente gritava ordens que ninguém parecia ouvir. O sangue no rosto deles me fez dar um passo involuntário para trás.
“Meu Deus… o que ele está fazendo?”
Samael não parava. Isso foi o que mais me assustou. O rosto fechado, o maxilar travado, o corpo inteiro entregue à fúria. Não havia hesitação. Não havia cálculo. Só ele e Nathanael, como se o resto do mundo tivesse desaparecido.
“Depois de todo esse tempo… ele ainda faz isso por mim.”
O pensamento veio sem pedir permissão — e junto dele, um aperto estranho no peito. Não era alívio. Não era orgulho. Era medo. Um medo pesado, adulto.
Medo do limite que ele estava cruzando.
Medo de ser o motivo.
Meus dedos se entrelaçaram sozinhos, as unhas cravando na pele enquanto eu assistia, incapaz de interromper. Cada provocação de Nathanael parecia empurrar Samael mais fundo naquele lugar escuro que eu não conhecia.
E eu entendi, com um nó na garganta, que aquela explosão tinha meu nome.
Percebo que Samael ia continuar a briga e então eu o corto.
— JÁ CHEGA!
Minha voz cortou o corredor.
Não foi grito histérico. Foi firme. Alta o suficiente pra atravessar o caos.
Tudo pareceu desacelerar.
Dei dois passos à frente sem pensar, o coração batendo tão forte que eu sentia no ouvido. Samael ainda estava tenso, o punho fechado, o peito subindo e descendo rápido demais.
Quando me aproximei, ele virou o rosto.
Nossos olhares se cruzaram.
E foi como se eu tivesse arrancado ele daquele lugar escuro à força.
Os olhos dele ainda estavam duros, quentes de raiva — mas havia algo ali também. Surpresa. Confusão. Como se ele não tivesse percebido que eu estava ali até aquele segundo.
— Chega dessa briga, Samael… — falei, mais baixo agora. — Por favor. Eu tô bem.
A palavra por favor saiu antes que eu pudesse segurar.
— Se acalma — completei, a voz falhando só um pouco.
Ele piscou.
Uma vez.
Depois outra.
O maxilar ainda travado, o sangue escorrendo da sobrancelha, mas o corpo… o corpo já não avançava. O punho fechou e abriu devagar, como se ele tivesse sido pego no meio de algo que não queria que eu visse.
Por um segundo, Samael pareceu perdido.
Como uma criança flagrada fazendo algo errado.
Ele passou a mão pelo rosto, sujando ainda mais de sangue, respirou fundo — uma, duas vezes — tentando se reorganizar. O olhar dele desceu, fugiu do meu por um instante.
— Eu… — começou, mas não terminou.
Engoliu em seco.
Quando voltou a me encarar, a fúria tinha cedido lugar a outra coisa. Culpa. Vergonha contida. Medo de ter ido longe demais.
— Desculpa… — murmurou, quase inaudível.
E naquele segundo eu soube.
Não era só raiva.
Nunca foi.
Era amor m*l contido, explodindo do jeito errado.
— Tudo bem… — falei, puxando o ar com cuidado. — Acho que já estou liberada pra ir embora.
Me virei na direção de Nathanael.
Ele abriu a boca, o olhar afiado, claramente prestes a dizer alguma coisa. Eu vi a intenção se formar. Vi o deboche quase subir.
— Claro que está.
A voz de Samael entrou no meio, firme demais pra ser contestada.
Nathanael fechou a boca devagar. O sorriso torto morreu pela metade. Ele lançou um olhar rápido pra Samael, medindo força, orgulho, limite.
Samael não desviou.
Estava mais calmo agora, mas não menos perigoso. O corpo ainda entre mim e qualquer coisa que Nathanael pudesse tentar.
Eu engoli em seco.
“Ele não vai deixar ninguém me tocar.”
E, pela primeira vez desde que saí daquela sala, senti o chão um pouco mais firme sob meus pés.
Babi parou na minha frente antes que eu desse mais um passo.
Ela me olhou devagar, da cabeça aos pés, como se estivesse conferindo se eu ainda estava inteira. Os olhos dela — um verde intenso, o outro mais claro, quase mel — se moviam atentos demais, preocupados demais.
— Como você tá, amiga? — perguntou, a voz mais baixa e carregada de preocupação.
Eu forcei um sorriso.
Um daqueles que a gente aprende a dar quando não quer preocupar ninguém.
“Mesmo depois de tudo… ela ainda é uma amiga preocupada.”
Toquei de leve no ombro dela, num gesto automático, e íntimo.
— Eu tô bem, amiga. Sério. Não se preocupa — falei, tentando soar convincente. — E obrigada por ter vindo.
Ela me encarou por mais um segundo, como se estivesse avaliando se acreditava ou não. Então ela sorri e fala:
— Imagina… — respondeu. — Sempre que precisar é só me ligar. Eu tô sempre aqui pra você… pros meus so—
Ela engasgou.
A palavra ficou presa na garganta. A voz falhou no meio da frase.
Eu senti na hora.
Nossos olhares se cruzaram no mesmo instante. Um segundo só. Rápido demais pra quem vê de fora, longo demais pra quem sabe o que quase foi dito. Ela soltou uma risadinha nervosa. Eu acompanhei, automática.
“Meu Deus, você quase falou.”
“Eu sei… me desculpa…”
— Nossa… — ela disse, tentando disfarçar, ainda rindo sem graça. — Tô meio aérea hoje.
— Nem me fala… — respondi, entrando na encenação. — Acho que ninguém dormiu direito.
Mas o nervosismo continuava ali. No sorriso dela. No meu.
E Samael estava bem perto.
Vendo tudo. Ele olhava intrigado pra nós duas sem entender nada mais com certeza ele pescou algo.
Ela percebeu na hora.
O corpo dela enrijeceu. O rosto perdeu um pouco da cor. Os olhos piscaram rápido, nervosos. Um sorriso sem graça surgiu nos lábios, apressado demais.
“Ela quase falou.”
Sobrinhos.
Os sobrinhos dela.
Meus filhos e filhos de Samael.
O segredo que eu e ela guardávamos a sete chaves.
E Samael permaneceu parado. Observando. O olhar atento demais, sério demais, claramente percebendo que alguma coisa tinha escapado do controle por um segundo.
Meu coração disparou.
— Bom… — falei rápido, tentando puxar o ar de volta pros pulmões. — Acho que vou indo. Tô exausta… nem dormi direito.
Fingi normalidade como quem veste uma roupa apertada demais.
Babi assentiu, ainda meio tensa, mantendo o sorriso no rosto como se nada tivesse acontecido.
Mas eu sabia.
Ela sabia.
E, pelo jeito que Samael nos encarava, ele também tinha sentido.
O perigo não tinha passado.
Só tinha mudado de forma.
— Vem… — Babi disse baixo. — Vamos sair daqui.
Assenti sem dizer nada. A garganta estava apertada demais pra qualquer palavra sair.
Saí na frente.
Eu precisava andar. Precisava de espaço. Precisava que aquele lugar ficasse pra trás antes que minhas pernas resolvessem falhar. Samael veio logo atrás, a presença dele pesada, ocupando tudo, como se ainda estivesse me protegendo mesmo depois do pior já ter passado.
O corredor parecia longo demais. Cada passo ecoava. Eu sentia os olhares grudarem na minha pele — curiosos, julgadores, atentos demais ao espetáculo que tinha acabado de acontecer.
Na porta, Babi me puxou para um abraço apertado.
Não foi rápido.
Nem educado.
Foi daquele tipo que segura a gente em pé quando o corpo ameaça ceder.
— Tchau, amiga… — ela murmurou no meu ouvido. — A gente se fala.
— Tchau… — respondi, a voz abafada no ombro dela.
Quando me afastei, vi Babi lançar um olhar direto pra Samael. Não era reprovação. Era aviso. Silencioso. Feminino. Sério.
Ele percebeu.
Assentiu com a cabeça.
Do lado de fora, o sol me atingiu em cheio.
Forte. c***l. Quase ofensivo depois do ar gelado da delegacia. Pisquei algumas vezes, o corpo ainda atrasado em relação ao que tinha acabado de acontecer. O coração continuava acelerado.
Samael parou ao meu lado.
— Eu te levo pra casa.
Não soou como pergunta.
Soou como decisão.
Meu estômago revirou.
“Ele não pode me levar se ele ver as crianças.”
— Não precisa… — falei rápido demais. — Eu chamei um Uber.
Ele franziu a testa, claramente incomodado.
— Não. Meu carro tá bem ali. Eu faço questão.
O peito apertou.
“Ele não sobe o morro.”
Mordi o lábio inferior, tentando controlar a ansiedade que subia quente, desorganizada.
“Peço pra ele me deixar no pé do morro.”
Respirei fundo antes de falar.
— Tudo bem… — comecei, escolhendo cada palavra. — Mas você não vai subir o morro.
Ele ergueu uma sobrancelha, cruzou os braços, aquele gesto antigo que eu conhecia bem demais.
— Por quê? Já cansei de ir lá atrás de você e do Jonah.
Suspirei.
— Sam… isso foi no passado. Agora tá diferente. Tá perigoso pra você.
Ele me observou em silêncio. Aqueles olhos azuis claros presos em mim, atentos demais, quase desconfortáveis, como se tentassem puxar algo que eu não queria entregar.
Pigorreou antes de falar:
— Tá com medo de fazer ciúmes pro seu marido?
— O quê? Não… — balancei a cabeça, um sorriso nervoso escapando. — Não é isso. Ele não é mais meu marido. A gente tá separado… É que lá tá diferente mesmo. Eu não quero te colocar em risco à toa.
Ele ficou alguns segundos em silêncio.
Depois deu o primeiro passo e seguiu em direção ao carro, a decisão clara no jeito de andar. Antes que eu pensasse em recuar, Samael estendeu a mão e segurou a minha.
Meu coração quase saiu pela boca.
O toque firme, quente, seguro. Eu deixei. Não puxei a mão de volta. Apenas fui com ele, sendo guiada, conduzida, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
“Meu Deus…”
O carro dele estava ali, grande, imponente, luxuoso demais para aquele cenário. Samael parou ao lado do carona e abriu a porta pra mim com cuidado, atento a cada movimento meu.
“Como um perfeito cavaleiro.”
Ele apoiou a mão na minha cintura e me ajudou a subir no banco. O gesto foi simples, educado, e ainda assim íntimo demais. O couro branco do banco contrastava com a sujeira da rua, com tudo o que eu tinha acabado de deixar para trás.
— Cuidado — ele disse baixo, perto demais.
Meu corpo reagiu antes da cabeça.
Ele fechou a porta do carona com cuidado e deu a volta no carro.
Quando Samael entrou e se acomodou no banco do motorista, o interior ficou silencioso demais. Próximo demais. O carro luxuoso parecia pequeno agora, como se tivesse encolhido com a presença dele ali.
Eu tentei colocar o cinto.
Uma vez.
Duas.
Os dedos não obedeciam. Tremiam. A ansiedade ainda correndo solta no meu corpo. Respirei fundo, irritada comigo mesma, puxei de novo — nada.
Samael percebeu.
Virou o rosto devagar, o olhar atento descendo até minhas mãos nervosas, depois subindo para o meu rosto.
— Você tá nervosa… — murmurou, mais pra si do que pra mim.
Antes que eu respondesse, ele se inclinou.
O corpo musculoso dele se aproximou do meu, grande, firme, ocupando todo o espaço entre o banco e a porta. O braço passou à frente do meu corpo para alcançar o cinto, e o cheiro dele me envolveu inteira.
Meu coração disparou.
A respiração dele encontrou a minha.
Perto demais.
Levantei o olhar no mesmo instante em que ele levantou o dele.
Nariz quase tocando nariz.
Olho no olho.
Os olhos azuis dele estavam presos nos meus, intensos, carregados de algo que eu conhecia bem demais. Meu corpo ficou em alerta total, cada centímetro consciente da proximidade dele.
Então o olhar dele desceu.
Devagar.
Parou na minha boca.
Minha respiração falhou.
— Honey…? — ele sussurrou.
Do jeito que só ele falava. Baixo. Carregado. Como se pedisse permissão sem usar nenhuma palavra direta.
O tempo pareceu suspenso.
Meu corpo respondeu antes da razão. O coração batia tão forte que eu tinha certeza de que ele podia sentir.
O cinto encaixou com um clique quase imperceptível.
Mas nenhum de nós se mexeu.