POV: Hannah
O sol já começava a raiar quando eu parei bruscamente no meio do beco.
A gente vinha correndo.
Pulmão queimando.
Pé escorregando em lixo molhado.
O suor frio colado na pele.
Cauã me arrastava pelo braço, forte, rápido, o olhar cravado à frente — mas toda hora ele virava a cabeça.
Pra trás.
Pros lados.
Às vezes até pra cima.
Alerta total. Olhos de águia.
Como se a qualquer segundo alguém fosse pular do nada e acabar com a gente.
— Chega, Cauã! — puxei o braço com força, quase tropeçando. — Eu vou voltar lá!
Minha voz saiu alta demais. Quebrada demais.
Ele travou na hora.
Virou pra mim com o peito subindo rápido, a respiração descompassada.
— Tá maluca, p***a?!
Balancei a cabeça com força.
O coração batia tão descontrolado que doía.
As veias queimavam.
O corpo inteiro vibrava de adrenalina.
— Não. — falei, ofegante. — Aquele menino é meu aluno.
Ele abriu a boca pra retrucar, mas eu não deixei.
— Eu não vou deixar ele caído lá no chão, sujo e sozinho. Não vou!
Engoli seco. O ar faltou por um segundo.
— E eles… — a palavra travou. — Eles não vão atirar em mim. Eu não tô armada!
Cauã me encarou como se eu tivesse enlouquecido de vez.
Os olhos arregalados.
A cara de quem via a morte chegando.
— Até parece que eles ligam pra isso, Hannah! — ele rosnou, a voz cortada de pânico. — Você não vai voltar lá, Esquece isso!
Mas eu já tava me afastando.
O corpo indo antes da cabeça.
— Hannah, p***a, para! — ele gritou atrás de mim. — Não faz isso!
Eu dei as costas e comecei a andar rápido.
Quase correndo de novo.
— p***a… — ouvi ele xingar, longe. — Que merda…
Ele sabia.
Sabia que teria que vir atrás de mim.
Sabia que ia se arriscar.
Sabia que podia morrer.
E mesmo assim veio.
Antes de entrar no enorme galpão, eu parei.
Cauã quase esbarrou em mim.
Levantei o rosto e encarei aqueles olhos castanhos avelã que eu conhecia tão bem. O olhar dele tava em brasa. Medo. Raiva. Instinto.
Coloquei a mão no peito dele.
O coração dele batia rápido.
Rápido demais.
Eu sentia na palma da mão.
— Se você entrar lá… — falei baixo, a voz falhando. — Eles te pegam e te matam…
Cauã prendeu a respiração.
O peito dele parou por um segundo, como se o corpo tivesse entendido antes da cabeça.
— Fica aqui — continuei, quase implorando. — Eu só vou olhar.
Cheguei mais perto antes que ele respondesse.
Segurei o rosto dele com as duas mãos e beijei.
Quente.
Curto.
Desesperado.
O tipo de beijo que pede desculpa sem dizer nada.
— Fica escondido — sussurrei contra a boca dele. — Por favor.
Cauã passou a mão no rosto, nervoso.
Os dedos tremiam.
Ele piscou forte, como se estivesse segurando algo que não podia cair ali. Os dedos tremiam. A mandíbula travada. Ele olhou por cima do meu ombro, depois pros lados, depois pra cima, como se calculasse todas as rotas de tiro possíveis.
O medo tava estampado nele.
Não medo de morrer.
Medo de me perder. Ele me olha a testa franzida e fala :
— Eu fico de olho daqui — ele disse, a voz rouca. — Dá pra ver lá dentro. Se alguém ousar fazer qualquer coisa com você… — ele engoliu seco. — Eu tô aqui.
Assenti com a cabeça.
Não sorri.
Não agradeci.
Virei e entrei.
E o que eu vi… não era o que eu esperava.
O BOPE ainda tava ali.
Mas não tinha mais correria.
Nem gritaria.
Nem caos.
Tinha ordem.
Viaturas da Polícia Militar cercavam o espaço. Ambulâncias paradas com portas abertas. Paramédicos atendendo feridos sentados no chão. Homens sendo revistados. Outros algemados, encostados na parede.
Tudo funcionando.
Rápido.
Frio.
Controlado.
Procurei Juninho com os olhos.
Não vi.
O estômago afundou.
Olhei em volta. Rosto por rosto. Gente que eu vi crescer. Meninos que jogavam bola na rua. Homens que carregavam caixa no mercadinho. Alguns sendo detidos.
Cada prisão ali era uma perda pro morro.
E eu sabia exatamente quem ia pagar esse preço depois.
Então eu vi ele.
No meio de tudo.
Postura firme. Corpo ereto. Olhar atento.
Sem máscara.
Sem fuzil.
Só dando ordens.
Nathanael Blackwolf.
Ele era alto. Sempre foi.
E atraente de um jeito que incomodava.
Cabelo preto.
Olhos azuis cortantes.
Pele bronzeada.
Músculos e tatuagens marcados e tensos sob a roupa tática.
O rosto parecia esculpido. Perfeito demais pra aquele lugar.
Como se não pertencesse ali.
Como Samael.
A semelhança era absurda. Os dois pareciam deuses jogados no meio de mortais. Tão bonitos que chegavam a ser irreais. Tão perigosos que ninguém em sã consciência deveria se aproximar.
Eu sabia dos boatos.
Mulheres da espécie deles vindo de tudo quanto é lugar do mundo pra tentar qualquer coisa com um Blackwolf.
Nada disso me impressionou.
O perigo, sim.
Quando me aproximei, ele me reconheceu antes mesmo de eu chegar perto.
Os olhos dele vieram direto em mim.
— Ora… o que temos aqui, se não a própria Hannah Montenegro… — disse, devagar. — Há quanto tempo.
Meu estômago virou.
Foi aí que eu comecei a tremer.
Não de medo.
De raiva.
Eu sabia quem ele era.
Sabia do que ele era capaz.
E a beleza dele não escondia isso.
Só deixava o perigo mais silencioso.
Mais letal.
Cara a cara com ele.
Até o cheiro dele era errado de tão… atraente.
Limpo. Forte. Dominante.
Mas eu não tinha tempo pra aquilo.
Não agora.
Sem pensar, gritei e soquei o peito dele.
— ONDE ESTÁ O CORPO DO MENINO?!
Minha mão doeu.
Ele nem se mexeu.
Eu conhecia aquele homem.
Sabia do que ele era capaz.
Mas o juízo tinha me fugido naquele segundo.
Ele ergueu a sobrancelha perfeita.
Quase sorriu.
Quase.
Mas se manteve sério.
— Já está no Hospital Eclipse — disse. — Ele está vivo.
Pausa.
— Você o conhece?
A voz dele era grave. Dominante.
Melhor do que anos atrás.
Isso me deu mais raiva ainda.
O ar me faltou.
Tentei puxar fôlego e não veio direito.
Meu peito subia rápido demais.
— Você… — engoli seco. — Você atirou no menino… eu pensei que ele… eu pensei…
A frase morreu.
Ele me encarou de cima a baixo.
Sem pressa.
O olhar azul me atravessou como gelo.
— O menino está vivo — repetiu. — E eu atirei porque vi uma arma nas mãos deles.
Meu estômago virou.
— A arma que ele provavelmente conseguiu com o seu marido.
Ele deu um passo à frente.
Predador.
— E falando nele… onde está Cauã Delacruz?
Cheguei a dar meio passo pra trás sem perceber.
Ele se aproximou mais.
Chegou perto demais.
Me cheirou.
O brilho nos olhos dele mudou.
Escureceu.
— Sinto o cheiro dele em você… — a voz saiu baixa, perigosa. — É fresco.
Meu corpo inteiro arrepiou.
Ele se afastou de mim de repente e girou o rosto para os homens ao redor.
— O Chacal tá por perto! — bradou. — Verifiquem o perímetro imediatamente.
Pausa curta.
— Quero ele preso. E vivo.
Seis homens se moveram na hora.
Armas erguidas.
Passos rápidos.
O pânico subiu seco pela minha garganta.
Minhas mãos fecharam e abriram sozinhas.
As unhas cravaram na palma.
Eu forcei os ombros a ficarem no lugar.
Forcei a voz a sair firme.
— Ele não está aqui.
Tentei passar por ele.
Nathanael ergueu o braço e bloqueou minha passagem.
— É mesmo, abelhinha? — ele zombou. — Vamos ver…
O sangue ferveu.
Arranquei a mão dele do meu braço e empurrei com força.
Não foi o suficiente.
Então eu dei um tapa.
Forte.
Estalado.
O rosto dele virou um centímetro.
Só isso.
Ele voltou devagar.
E sorriu.
Um sorriso lindo demais.
Branco. Largo.
A mesma mistura de perigo e sensualidade que ele sempre exalou.
— Você é um monstro, Nathanael — falei.
Meu corpo tremia.
Raiva.
E um pouco de medo.
— Você quase matou meu irmão. — a voz falhou, mas eu continuei. — Seu melhor amigo. Mesmo sabendo que ele só tava me protegendo… protegendo a mamãe.
Ele não me interrompeu.
— Como você dorme à noite? — disparei. — Depois de tudo que você fez… do que fez com a Babi… de como destruiu tudo?
Algo passou pelos olhos frios dele.
Rápido demais pra eu ter certeza.
Dor?
Ele engoliu seco.
A barreira caiu por um segundo.
E voltou.
— Seu irmão escolheu fugir — disse, frio. — Ao invés de confiar em mim.
Deu meio passo pra trás.
A voz virou cálculo.
— Eu só fiz o meu trabalho.
Pausa.
— Mas o caminho que ele escolheu agora…
Os olhos dele se fixaram nos meus.
— Se continuar seguindo esse caminho, não vai viver tempo suficiente pra se redimir.
Não era ameaça vazia.
Era aviso.
Sentença.
Eu tentei sair de novo.
Dei meia-volta pra ir embora.
Ele me impediu outra vez.
A mão dele fechou no meu braço.
Forte.
Dura.
— Me solta, Nathanael! — exigi.
Ele me puxou bruscamente.
Meu corpo chocou com o dele.
Ficamos a centímetros.
Perto demais.
Eu me debati, tentando soltar o braço.
Inútil.
Os olhos dele alinharam nos meus.
Azuis. Duros.
A respiração dele batia no mesmo ritmo da minha.
Por um segundo, vi o canto da boca dele subir.
Um sorriso.
De divertimento.
Rápido demais.
E aquilo trouxe a imagem que eu não queria.
A pressão aumentou. Ele me puxou mais pra perto os braços dele me envolviam.
Parecia ferro.
Por um segundo, ele pareceu… se divertir.
Foi rápido. Um lampejo.
Algo antigo.
O garoto que ele tinha sido um dia.
O mais brincalhão.
O que fazia piada de tudo.
O que sorria fácil. É que fazia todos nós sorrir junto.
Eu respirei fundo.
“Como ele se tornou esse monstro sem coração? — pensei. Com pesar.”
O sorriso dele morreu.
— Você vai pra delegacia comigo. Ele ergue uma mão e afasta uma mecha loira do meu cabelo do rosto como se fosse algo natural.
A frase caiu pesada.
— Vai dar seu depoimento. — ele continuou, frio. — Quero saber tudo sobre o seu irmão traficante.
Pausa curta.
— E sobre o seu marido o dono desse morro aqui.
O chão sumiu.
Delegacia?
Depoimento?
Não não não isso era péssimo!
Meus olhos se arregalaram.
O coração disparou tão forte que doeu.
Eu tava ali.
Sozinha.
Nas garras do predador mais temido de Costa da Lua.
E ele não ia me deixar sair dali tão facilmente.
O aperto no braço não afrouxou.
Pelo contrário.