Serpente Narrando O bar tava meio cheio, aquele som baixo de fundo e o cheiro forte de whisky misturado com cigarro. Eu tava encostado no balcão, girando o copo na mão, quando o telefone começou a vibrar no bolso. Peguei e vi o nome do meu pai na tela. Atendi na hora. — Fala, pai. Do outro lado só veio a voz dele firme, meio seca, tipo soco no estômago. — Teu filho nasceu e Ariela morreu. Falou isso e desligou. Fiquei parado, olhando pro nada, com o telefone na mão. Mano, que pörra foi essa? Nem consegui pensar direito. O bar inteiro sumiu, o som, as vozes, tudo. Parecia que eu tinha tomado um tiro no peito, mas ao mesmo tempo não doía. Era um vazio estranho, pesado. Levantei e fui direto pro morro. Nem sei como cheguei lá, só lembro do vento batendo na cara e da cabeça girando. As

