Eu aprendi cedo que vergonha também cansa. Cansa mais do que fome, mais do que sapato furado, mais do que ouvir gente falando que você devia “se contentar”. A vergonha foi o que me empurrou pra frente, mesmo quando eu fingia que era ambição. Minha mãe nunca entendeu isso. Faxineira no asfalto, mãos rachadas de produto forte, coluna torta de tanto esfregar chão alheio. Uma mulher honesta, todo mundo dizia. Eu só via o uniforme gasto, o ônibus lotado, o salário contado em moeda no fim do mês. Eu via o cansaço dela chegando antes dela em casa. E eu odiava aquilo. Odiava mais ainda saber que aquele podia ser meu destino. Cresci ouvindo que dignidade era tudo. Mas dignidade não paga aluguel, não compra roupa boa, não muda o jeito que te olham quando sabem de onde você vem. Eu queria ser vi

