Quando eu saí da casa da Ana, o sol já estava mais baixo. O portão fechou atrás de mim com um barulho seco, e por alguns segundos eu fiquei parada na calçada, segurando a bolsa com força, como se precisasse me ancorar em alguma coisa. Murilo dormia no meu colo, pesado, quente, alheio a tudo que se passava dentro de mim. O morro estava como sempre. Barulhento. Vivo. Gente indo e vindo. Crianças correndo. Música baixa vindo de alguma casa. Nada tinha parado nesses dois anos. Só eu. Desci devagar, cuidando pra não acordar meu filho. Cada passo parecia mais pesado que o outro. A conversa com a Ana ficava se repetindo na minha cabeça, como se alguém tivesse apertado replay. “Você também existe.” “Não é pra pegar ninguém.” “Só duas amigas dançando.” Cheguei em casa e coloquei Murilo no b

