FLASHBACK — DOIS ANOS ANTES

1018 Words
A noite estava abafada, pesada demais para quem já carregava um peso no peito. Helena sentia isso desde cedo, como se algo estivesse prestes a desabar sobre ela. O celular vibrou na mão suada, e quando viu o nome dele na tela, o coração acelerou — não de alegria, mas de medo. Murilo. A mensagem era curta, fria, diferente de tudo que ele costumava mandar. “Sobe agora. Quero você aqui.” Sem apelido. Sem coração. Sem carinho. Helena engoliu em seco. As mãos começaram a tremer antes mesmo de responder que estava indo. Algo estava errado, e ela sabia. Sentia no fundo do estômago, naquele aperto que não vinha à toa. Desceu o morro quase correndo, tropeçando nas próprias pernas. A rua estava molhada da chuva fina que caíra mais cedo, e o vento frio batia no rosto dela, misturando-se às lágrimas que insistiam em cair antes da hora. Quando chegou perto da boca, percebeu que algo estava diferente. Homens armados parados, sérios demais. Ninguém sorria. Ninguém brincava. Alguns desviavam o olhar quando ela passava, outros a encaravam com pena. Isso fez o coração dela afundar ainda mais. — O que tá acontecendo? — perguntou a um deles, mas não obteve resposta. A porta estava aberta. Helena entrou. Murilo estava no meio da sala, parado, como uma sombra. Braços cruzados, maxilar travado, olhos escuros como se já não restasse nada de bom ali dentro. Ele não se virou quando ela entrou. — Murilo… — ela chamou baixo, quase um sussurro. Nada. Ela deu alguns passos à frente e então viu. O celular dele jogado sobre a mesa. Aberto. Várias fotos na tela. Conversas. Imagens que fizeram o sangue dela gelar. Helena se aproximou devagar, sentindo as pernas fraquejarem. — Que… que é isso? — perguntou, a voz falhando. Murilo riu. Um riso curto, sem humor, cheio de desprezo. — Você ainda tem coragem de perguntar? Ela pegou o celular com cuidado, como se aquilo pudesse queimá-la. Olhou as fotos. O quarto. A cama. Um corpo feminino parecido com o dela. Ângulos calculados. Tudo muito bem feito. — Isso não sou eu… — disse, sentindo o mundo girar. — Murilo, isso não sou eu. Eu juro. Ele finalmente se virou para ela. O olhar dele doeu mais do que qualquer tapa poderia doer. — Para de mentir. A voz saiu baixa, carregada de ódio contido. — Eu nunca faria isso com você — Helena chorava agora, sem conseguir segurar. — Nunca. Você sabe quem eu sou. — Sei mesmo? — ele respondeu, dando um passo à frente. — Ou eu só enxergava o que queria? Helena tentou se aproximar, mas ele levantou a mão, mandando parar. — Não chega perto de mim. Ela parou, o corpo inteiro tremendo. — Murilo, me escuta… — implorou. — Essas fotos são armação. Eu tô sendo ameaçada. Eu tentei te contar, mas— — Cala a boca! — ele gritou, batendo a mão na mesa. Helena se encolheu, assustada. — Eu vi tudo. — ele continuou, respirando pesado. — Vi as mensagens. Vi os horários. Vi as fotos. Você dormiu com o inimigo Helena! — NÃO! — ela gritou, desesperada. — Eu nunca dormi com ninguém! Nunca! Eles estão me chantageando, Murilo! Eles têm a minha avó, eu— — Não usa sua avó pra tentar me enganar. — ele cortou, c***l. — Não comigo. As pernas de Helena cederam. Ela caiu de joelhos no chão, sem nem perceber quando isso aconteceu. — Por favor… — chorou, agarrando a barra da camisa dele. — Me deixa explicar. Cinco minutos. Só cinco minutos. Murilo olhou para a mão dela como se fosse algo nojento. Com um movimento brusco, afastou-se e empurrou o braço dela. Helena caiu sentada, o impacto arrancando um soluço forte do peito. — Você teve chance de falar quando escolheu me trair. — ele disse, frio. — Agora acabou. — Eu te amo… — ela disse, com a voz quebrada. — Eu te amo de verdade. Você sabe disso. Ele ficou em silêncio por alguns segundos. Um silêncio pesado, sufocante. Então riu. — Amor? — repetiu, com amargura. — Amor não se deita com o inimigo. — EU NÃO ME DEITEI COM NINGUÉM! — Helena gritou, chorando descontroladamente. — Por que você não confia em mim? Por que você não me escuta? Murilo avançou de repente. O tapa veio rápido, forte, c***l. O estalo ecoou pela sala. A cabeça de Helena virou com o impacto. O rosto queimava, a boca se encheu de sangue, e ela caiu de lado no chão, atordoada, chorando em silêncio, o mundo pareceu parar. Murilo respirava pesado, o peito subindo e descendo rápido. Os olhos estavam vermelhos, cheios de ódio… e de algo que ele não queria admitir. — Some da minha frente. — ele disse, com a voz baixa e perigosa. — Antes que eu faça pior. Helena levou a mão ao rosto, o corpo inteiro tremendo. — Você vai se arrepender… — sussurrou entre lágrimas. — Um dia você vai descobrir a verdade. Ele se aproximou novamente, ficando de pé diante dela. — A única verdade é que você morreu pra mim hoje. Ela tentou se levantar, mas as pernas não obedeciam. Ele não ajudou. — Sai do meu morro. — continuou. — Sai da minha vida. Se eu te ver aqui de novo, não vai ter conversa. Helena o encarou, os olhos inchados, o rosto marcado. — Eu nunca te traí… — repetiu, como um último pedido de socorro. — Nunca. Murilo virou o rosto. — Levem ela embora. Dois homens se aproximaram, constrangidos. Helena não resistiu. Enquanto era levada, olhou para trás, esperando — no fundo do coração — que ele a chamasse, que a impedisse de ir. Ele não chamou. Quando Helena cruzou a barreira do morro, com o coração despedaçado, levou a mão à barriga sem perceber. Ali, naquela noite, ela já não estava sozinha. E Murilo, sozinho na boca, sentiu algo se quebrar dentro dele… mas escolheu chamar aquilo de ódio. Sem saber que aquele erro se tornaria o inferno que o perseguiria pelo resto da vida.
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