Meu nome é Helena.
Tenho vinte anos agora.
Às vezes eu paro e penso que essa idade não combina comigo. Eu me sinto mais velha. Cansada. Como se a vida tivesse passado rápido demais, arrancando coisas que eu nem tive tempo de entender.
Dois anos atrás, eu saí de um morro chorando, com o rosto ardendo e o coração em pedaços. Hoje, eu acordo todos os dias com um menino chamando “mamãe” e segurando meu dedo com força, como se tivesse medo de me perder.
O nome dele é Murilo.
Sim, Murilo.
Ele tem um ano e três meses. Os olhos escuros. O cabelo fino. O jeito sério quando observa tudo em volta, como se já entendesse mais do que devia. Às vezes, quando ele franze a testa do jeitinho dele, meu peito aperta de um jeito estranho. Porque parece… parece demais com o pai. Ele é a cara do pai, uma dor que me atinge todos os dias.
Eu terminei o curso de enfermagem.
Não foi fácil. Teve dias que eu estudei com ele dormindo no meu colo. Teve noites em claro, com febre, choro, medo, prova no dia seguinte. Mas eu terminei. Não por mim. Por ele.
Hoje eu trabalho no postinho de saúde do morro da Babilônia.
Ironia da vida, eu sei.
Nunca pensei que pisaria de novo em um morro, muito menos todos os dias. Mas ali eu encontrei trabalho. E ali eu consegui criar meu filho sem depender de ninguém.
Eu acordo cedo. Sempre cedo.
Murilo acorda junto comigo, como se tivesse um relógio interno. Preparo o café simples. Pão, leite, às vezes um ovo. Dou banho nele, visto a roupinha limpa, ajeito a mochila pequena da creche comunitária.
— Mamãe volta — eu sempre digo, beijando a testa dele.
Ele não responde com palavras, mas segura meu rosto com as duas mãos e encosta a testa na minha. É o jeito dele dizer que confia em mim.
E isso dói. Dói porque eu prometi tanta coisa pra ele em silêncio. Prometi que ninguém nunca mais machucaria a gente. Prometi que ele nunca pisaria onde eu pisei sangrando.
Minha melhor amiga, Ana, terminou o curso comigo. Ela tem vinte e um anos agora. A vida foi estranha com a gente. Enquanto eu aprendi a ser mãe sozinha, Ana se apaixonou.
E não foi por qualquer homem. Ela se envolveu com um traficante de um morro aliado ao de Lúcifer, o dono aqui da Babilônia, o Cobra.
Quando me contou, eu senti medo. Medo de perder ela. Medo de reviver tudo. Mas Ana sempre foi diferente. Forte. Decidida. Ela se mudou pro morro dele e, por ironia do destino, virou a patroa do lugar.
Mesmo assim, nunca deixou de ser minha amiga.
— Tu não precisa provar nada pra ninguém, Helena — ela sempre dizia. — Mas se precisar de mim, eu tô aqui.
Ana me ajudou muito com Murilo. Segurou ele quando eu precisava estudar. Ficou com ele quando eu precisava trabalhar dobrado. Nunca reclamou. Nunca jogou na cara.
Mas eu não queria depender dela pra sempre.
Por isso aluguei uma casinha simples.
Um quarto. Uma sala pequena. Cozinha apertada. Banheiro que pinga às vezes. Mas é nossa.
Minha.
Paguei com meu salário. Com meu esforço. Com noites m*l dormidas. Ali ninguém manda. Ninguém entra sem ser convidado. Ali eu crio meu filho do meu jeito.
À noite, quando Murilo dorme, eu sento na cama e observo ele respirar. Pequeno. Frágil. Meu mundo inteiro cabe ali. E é nessas horas que a solidão pesa mais. Eu nunca mais consegui me envolver com nenhum homem. Não foi falta de oportunidade. Teve olhares. Convites. Tentativas. Mas meu corpo não reage. Meu coração não deixa.
Só teve um homem na minha vida.
Murilo… o pai. O homem que me expulsou. Que me acusou. Que me machucou mais do que qualquer tapa físico poderia fazer.
Às vezes eu me pergunto se ele sabe.
Se ele imagina que existe um menino correndo por aí com o nome dele. Um menino que nunca pediu pra nascer no meio de ódio e silêncio.
Mas eu jurei. Jurei naquela noite, com o rosto ardendo e o coração quebrado, que Murilo nunca chegaria perto do meu filho.
Nunca.
Meu filho não precisa de um pai que destrói antes de ouvir.
No postinho, eu atendo gestantes, crianças, idosos. Vejo histórias se repetindo. Mulheres sozinhas. Homens ausentes. Promessas quebradas. E cada vez que vejo uma barriga crescendo, lembro da minha. Do medo. Do desespero. Da certeza de que eu estava sozinha no mundo.
— Tu é forte, Helena — Ana me disse uma vez, enquanto balançava Murilo no colo.
Eu sorri.
Mas força, eu aprendi, não é não sentir dor.
É sentir… e continuar.
Às vezes, quando o dia está pesado demais, eu subo no terraço da casinha à noite. Olho o céu. Respiro fundo. E converso comigo mesma.
— Sobreviveu — eu digo. — Sobreviveu por ele.
Murilo se mexe no berço. Murmura alguma coisa. Eu desço correndo e deito ao lado dele, só pra sentir o calorzinho do corpo pequeno.
Ele é meu único amor.
Meu único homem.
Meu maior medo e minha maior força.
E mesmo sem saber, ele carrega um nome que me lembra todos os dias do inferno que eu sobrevivi.
E do inferno que, um dia, talvez volte a nos encontrar.