Dois anos.
Foi o tempo que eu precisei pra matar o que ainda restava de humano em mim.
Ninguém aqui no morro me chama de Murilo. Esse nome morreu naquela noite. Morreu junto com a última lágrima que eu derramei escondido, quando ninguém estava olhando. O que sobrou foi Lúcifer. O dono da boca. O chefe. O homem que manda, decide e executa.
O homem que não sente.
Ou pelo menos finge bem.
Estou sentado na cadeira de madeira velha, encostada na parede do barraco principal. Sempre do mesmo jeito. Pernas abertas, cotovelos apoiados nos joelhos, postura firme. Quem passa sabe. É aqui que eu resolvo quem continua respirando tranquilo e quem não dorme mais.
Na minha mão direita, um baseado aceso.
Trago devagar. Sem pressa. A fumaça sobe lenta, se espalha pelo teto baixo. Tudo em mim funciona assim agora: devagar, calculado, frio. Pressa leva ao erro. Erro mata. E aqui, erro não se repete.
— Movimento tá tranquilo hoje — a voz surge ao meu lado.
Não viro o rosto.
— Tranquilo demais sempre dá problema — respondo, baixo.
A voz é do Rafael. O Sombra. Meu melhor amigo. Meu braço direito. O único homem nesse morro que fala comigo sem baixar demais a cabeça. Ele cresceu comigo nessas vielas. Dividiu fome, medo e arma. Quando eu afundei, ele não perguntou nada. Não tentou me salvar. Só ficou. Às vezes, ficar é mais leal do que qualquer discurso.
— Já mandei reforçar a contenção da entrada de baixo — ele diz. — Tão falando que a polícia tá rondando.
Dou outra tragada.
— Se subirem, a gente vê.
Aqui ninguém se desespera. A boca funciona como um relógio. Cada um no seu lugar. Vapores atentos. Olheiros ligados. Dinheiro entrando. Droga saindo. Quem erra, paga. Quem obedece, vive.
— O cara da viela sete tá devendo — Rafael comenta, olhando um papel. — Três semanas já.
Solto a fumaça devagar.
— Quanto?
— Passou do combinado.
— Então resolve hoje — digo. — Aqui ninguém brinca com prazo.
— Do jeito antigo? — ele pergunta.
Viro o rosto devagar. Meu olhar não carrega raiva. Nem prazer. Só vazio.
— Aqui não tem misericórdia — respondo. — Não há dois anos.
Rafael não insiste. Ele sabe. Todo mundo sabe. O respeito aqui vem do medo. Eu não grito. Não faço cena. Eu cumpro. E é por isso que ninguém testa.
Levanto da cadeira e vou até a beirada do barraco. Olho o morro inteiro lá de cima. As casas amontoadas. As luzes fracas. As vielas que eu conheço como a palma da minha mão.
Tudo isso é meu.
Mas não preenche nada.
O rádio chia baixo atrás de mim. Acendo outro baseado. Trago fundo. Antigamente, a maconha ajudava a silenciar a cabeça. Hoje, só deixa as lembranças mais lentas. Nunca some com elas.
— Lúcifer — um soldado chama, meio sem jeito. — Tem umas minas te esperando lá atrás.
Assinto com a cabeça.
— Já vou.
Rafael me observa.
— Tu ainda faz isso — ele comenta.
Dou de ombros.
— Corpo não vira santo só porque o coração morreu.
Vou até o barraco dos fundos. Uma das mulheres me espera. Bonita. Jovem. Olhos cheios de expectativa que eu nunca correspondo.
É sempre igual.
Sem conversa.
Sem nome.
Sem beijo.
Nunca beijo.
Beijo é i********e. Beijo lembra sentimento. E sentimento é coisa que eu enterrei.
Quando acaba, eu saio sem olhar pra trás. Não deixo dinheiro. Não prometo nada. Elas sabem. É só corpo. Nada mais.
Rafael tá encostado na parede quando eu saio, fumando.
— Tu vai se acabar desse jeito, irmão. — ele diz.
Passo por ele, ajeitando a camisa.
— Ja me acabei faz tempo.
Voltamos pro barraco principal. O dia segue. Ordem aqui. Correção ali. Um castigo aplicado. Um problema resolvido. Tudo sem emoção. Sem culpa.
À noite, sento de novo na cadeira velha. Outro baseado. A fumaça sobe e desenha sombras no teto.
— Às vezes eu acho que tu virou pedra — Rafael diz, baixo.
Não respondo.
— Mas eu sei que não virou — ele continua. — Pedra não lembra.
Fecho os olhos por um segundo.
Só um.
— Não fala dela — murmuro.
Ele respeita o silêncio.
Não precisa dizer o nome.
Helena.
O passado.
O tapa.
A expulsão.
Abro os olhos e encaro o movimento lá fora.
— Ela morreu pra mim — digo, firme. — Do mesmo jeito que eu morri pra ela.
Mas é mentira.
Eu sei que é.
Quando a boca finalmente silencia, quando fico sozinho, a verdade aparece. Apago o baseado. O escuro toma conta. O barulho diminui.
E as lembranças voltam.
O choro dela.
O olhar machucado.
A voz tremendo pedindo pra explicar.
Minha mão levantada.
Fecho os punhos.
— Não sente — sussurro pra mim mesmo. — Lúcifer não sente.
Mas sente.
Sente pra c*****o.
E é por isso que eu nunca mais beijei ninguém.
Porque beijo lembra amor.
E amor foi a única coisa que quase me destruiu.