CAPÍTULO 1: O MUNDO EM TONS DE DOCE E O CUIDADO DE UM PAI
Eu sempre soube que era adotada.
Nunca houve aquele momento de suspense de novela, nem segredos sussurrados pelos cantos. Meus pais, Lídia e Renato, trataram a verdade como se fosse a luz do dia: natural, clara e necessária. Eles me ensinaram cedo que eu não vim de uma barriga, mas de um desejo profundo. Diziam que, enquanto outros pais recebiam o que o destino mandava, eles foram buscar exatamente o que o coração pedia. E o coração deles pediu a mim.
Tenho 22 anos, sou filha única e, se o amor fosse uma moeda, eu seria a mulher mais rica do mundo.
Estou no meu ateliê agora. É o meu santuário. Fica nos fundos da nossa casa, com uma porta de vidro imensa que parece trazer o jardim para dentro. Eu adoro o cheiro daqui uma mistura de café fresco, lavanda e o aroma marcante das tintas a óleo. O chão é um mapa de todas as telas que já pintei; há respingos de azul-turquesa de quando eu tinha quinze anos e manchas de dourado da semana passada. Eu nunca deixo ninguém limpar demais esse chão. Para mim, cada mancha é uma lembrança de um sentimento que eu consegui tirar de dentro de mim e colocar no mundo.
Estou pintando um jardim abstrato. Meus pincéis deslizam com uma leveza que às vezes me assusta. Eu não gosto de linhas retas ou cores agressivas. O mundo já é duro demais, por isso eu escolho o bege, o rosa-chá, o azul-sereno. Pintar é o meu jeito de dizer ao universo: "Calma, está tudo bem".
— Estela? — A voz da minha mãe vem da cozinha, doce e familiar.
— Oi, mãe! — respondo, dando um toque final de luz numa pétala imaginária.
Lídia aparece na porta. Ela é a elegância em forma de gente, mas de um jeito simples. Ela me observa trabalhar com aquele sorriso que parece um abraço.
— Vim ver se você lembrou que humanos precisam de glicose e não só de inspiração — ela diz, rindo.
— Eu já ia, juro! Só precisava terminar esse céu... veja como ele parece estar amanhecendo?
Ela entra, se aproxima e beija minha testa. Esse toque é o meu carregador de bateria.
— Está lindo, filha. Transmite uma paz que só você tem.
Nesse momento, escuto passos pesados no corredor. É o meu pai. O Renato não é de falar muito, mas a presença dele preenche todo o espaço. Ele para no batente da porta, cruza os braços e faz aquela cara de "crítico de arte" que eu amo.
— O que você acha, pai? — pergunto, fazendo uma pose brincalhona com o pincel atrás da orelha.
— Acho que você tem um dom que não é desse mundo — ele diz, com a voz grave, mas cheia de orgulho. — Mas também acho que esse azul ficaria ótimo em uma tela que ficasse guardada aqui dentro de casa, bem longe de qualquer galeria cheia de rapazes querendo "apreciar a arte".
Eu solto uma risada alta e jogo o pano de limpeza nele, que ele segura no ar com facilidade.
— Ah, não! Já vai começar o ciúme? Pai, é só uma pintura!
— Começar? Eu nunca parei — ele rebate, com um sorrisinho de lado. — Por mim, a gente colocava uma redoma de vidro nessa casa. Você pintando, sua mãe cozinhando e eu garantindo que ninguém chegue a menos de cem metros do portão. Principalmente se tiverem menos de quarenta anos e usarem perfume caro.
— Ele está impossível hoje, Estela — minha mãe diz, revirando os olhos com carinho. — Vamos comer, antes que ele decida instalar câmeras de segurança no seu pincel.
Saio do ateliê rindo, caminhando descalça pelo corredor. Eu adoro sentir o chão da nossa casa. Cada porta-retrato na parede conta uma viagem, um aniversário, um momento em que fomos felizes. Na cozinha, o cheiro de manjericão e molho de tomate fresco me faz perceber que eu estava faminta.
Sento-me à mesa e fico observando minha mãe servir os pratos. A cozinha é o coração da casa, cheia de potes de vidro que eu ajudei a rotular e flores que eu colhi no jardim.
— Estela — minha mãe começa, sentando-se à minha frente com um olhar mais sério, mas ainda doce. — Você já reparou que tem vinte e dois anos?
— Todo dia quando olho no espelho e vejo que não cresci nem mais um centímetro — brinco, tentando fugir do assunto.
— Estou falando sério, mocinha. Você vive para nós, para sua arte, para seus estudos de arquitetura... mas e você? Nunca quer sair, conhecer alguém?
Eu dou de ombros, pegando um pedaço de pão.
— Eu sou feliz aqui, mãe. Gosto da nossa bolha. O mundo lá fora parece... barulhento demais. Aqui eu tenho tudo.
— Ela tem bom gosto, Lídia! — meu pai interrompe, servindo o suco. — Pra que sair e encontrar um sujeito que não sabe a diferença entre um pincel e uma escova de dentes? Ela está muito bem aqui. Se algum engraçadinho aparecer, eu trato de dar o currículo dele para o nosso cachorro avaliar.
— Pai! A gente nem tem um cachorro bravo! — eu rio, apontando para o nosso labrador dorminhoco no canto.
— Ele pode aprender a ser bravo se for para proteger você — ele resmunga, mas logo abre um sorriso e pisca para mim.
— Viu só, mãe? Eu sou protegida pelo exército de um homem só — brinco, segurando a mão do meu pai sobre a mesa e depois a da minha mãe. — Eu amo vocês. Não sinto que falta nada. Nem namorado, nem balada, nem nada. Minha vida é inteira.
Minha mãe suspira, rendida à minha teimosia.
— Eu só quero que você viva todas as cores, Estela. Não só as suaves. Que experimente a intensidade de sentir algo por alguém.
— Se um dia essa intensidade bater na minha porta e o papai não a espantar com uma vassoura... eu prometo que deixo entrar — digo, fazendo-os rir.
Ficamos ali, os três, imersos em risadas e planos para o fim de semana. Eu sou a Estela. Sou a menina que pede desculpas ao móvel quando esbarra nele, que chora com filmes antigos e que sente uma gratidão tão profunda por esses dois seres humanos que o meu peito parece pequeno demais para guardar.
Minha vida é um quadro perfeito, sem manchas, sem sombras. Eu estou em paz. E, para mim, ser Estela e ter esse amor é mais do que suficiente. É o meu paraíso particular.
...
— O almoço estava perfeito, mãe, mas eu acabei de olhar o relógio e... Meu Deus! — Dei um pulo da cadeira, quase derrubando o copo de suco. — Eu tô muito atrasada pro trabalho!
— Calma, Estela! Onde é o incêndio? — meu pai perguntou, rindo da minha agitação súbita enquanto eu já começava a catar minhas coisas pela cozinha.
— No escritório, pai! Tenho uma reunião com o cliente do novo projeto de paisagismo e as plantas ainda estão no meu tablet, que está... onde está meu tablet? — Comecei a girar em torno de mim mesma, fazendo minha mãe soltar uma gargalhada gostosa.
— Está na sala, querida. E respira, você não vai chegar a lugar nenhum se sair atropelando os próprios pés — Lídia disse, vindo em minha direção para me dar um último beijo de "boa sorte".
— Eu voo! Prometo que voo! — Gritei, já correndo pelo corredor em direção à escada.
Subi os degraus de dois em dois, sentindo meu coração acelerar não só pela pressa, mas pela energia de um dia cheio. Entrei no meu quarto que era uma extensão do meu ateliê, cheio de quadros e cores claras e fui direto para o banheiro.
Arranquei o avental sujo de tinta e as roupas leves que usava para pintar. Liguei o chuveiro no máximo e deixei a água morna cair, lavando não só o suor da manhã, mas os vestígios de tinta azul e bege que insistiam em grudar nos meus dedos e atrás das orelhas.
— Banho de cinco minutos, Estela. Cinco minutos! — Repeti para mim mesma, fechando os olhos por um segundo e sentindo o vapor perfumado do sabonete de baunilha.
Enquanto a água escorria, eu já planejava mentalmente o que dizer na reunião. Eu amo meu trabalho como arquiteta. Ver um espaço vazio e imaginar onde a luz vai bater, onde as pessoas vão sorrir e onde as flores vão crescer é a minha paixão.
Saí do banho em tempo recorde. Enrolei o cabelo na toalha e corri para o closet. Escolhi uma calça de alfaiataria bege e uma blusa de seda branca nada de cores fortes, apenas o básico que me fazia sentir eu mesma. Calcei um scarpin baixo, passei um perfume suave e fiz uma maquiagem rápida, só para esconder a cara de quem passou a manhã inteira brigando com telas e pincéis.
Peguei minha bolsa, conferi se o tablet estava na mão e desci as escadas novamente, quase deslizando pelo corrimão.
Meu pai estava parado no pé da escada, com as chaves do carro na mão e aquele olhar de "eu sabia".
— Quer que eu te leve, Estelinha? Assim você ganha dez minutos revisando seus papéis no banco de trás.
— Você é o melhor pai do mundo, sabia? — Dei um beijo estalado na bochecha dele, pegando minha bolsa. — Mas não precisa, eu vou dirigindo. Preciso passar em uma floricultura antes para pegar umas amostras de orquídeas pro cliente. Se você me levar, vai acabar querendo fiscalizar até o vendedor das flores!
Ele cruzou os braços e fingiu uma cara de ofendido.
— Eu? Fiscalizar? Só ia garantir que ele não te desse flores murchas. Ou que não fosse simpático demais.
— Tchau, pai! Tchau, mãe! Amo vocês! — Gritei, já abrindo a porta da frente e correndo para o carro, ignorando o riso deles que vinha de dentro de casa.
Enquanto eu dava a partida e saía pelo portão, sentindo o vento no rosto e o sol do Rio de Janeiro brilhando lá fora, eu sorria. Minha vida era uma correria gostosa, um equilíbrio perfeito entre o silêncio do meu ateliê e o barulho dos meus projetos.