capitulo 3 continuação

2426 Words
O trajeto de volta para casa pareceu mais curto do que o normal. Talvez fosse a adrenalina da reunião bem-sucedida ou apenas a vontade urgente de transformar aquela euforia em cor. Assim que estacionei o carro, nem esperei a garagem fechar completamente; peguei minha bolsa e saí quase saltando, com a mente fervilhando de ideias. Pisei no hall de entrada e minhas pernas já me guiavam sozinhas para o corredor dos fundos. Eu precisava do meu refúgio. Precisava do cheiro de madeira e óleo. — Estela! É você, filha? — O grito da minha mãe, Lídia, veio da cozinha, acompanhado pelo som de louça sendo guardada. Eu já estava com a mão na maçaneta do ateliê, mas parei bruscamente. Sorri sozinha. Eu não podia simplesmente passar por ela como um furacão. Voltei correndo, meus sapatos fazendo um barulho ritmado no piso de madeira, e entrei na cozinha como um raio. — Sou eu, mãe! — Praticamente voei até ela, segurando seu rosto e dando um beijo estalado em sua bochecha. — A reunião foi incrível, o projeto foi aprovado e eu estou com o peito explodindo de ideias! Amo você, já volto! — Mas já vai se trancar de novo, meu raio de sol? — ela perguntou, rindo da minha agitação e limpando o rosto com o avental. — O café está quase pronto! — Depois! Prometo! — gritei já de longe, correndo de volta para o meu santuário. Tranquei a porta e o silêncio do ateliê me abraçou. Respirei fundo, sentindo o ar pesado de pigmentos. Joguei a bolsa em qualquer canto, chutei os sapatos e fiquei descalça, sentindo a conexão com o chão manchado. Eu não queria pintar o jardim hoje. Queria algo novo. Algo que eu não conseguia explicar. Coloquei uma tela branca no cavalete. Uma tela grande, imaculada. Comecei a preparar as tintas com uma velocidade quase febril. Diferente do meu habitual azul e pêssego, minhas mãos buscaram tons mais profundos: um sépia envelhecido, um branco osso e um cinza azulado que parecia neblina. Comecei a pintar. No início, eram apenas manchas. Eu descrevia para mim mesma o que sentia: "É como se houvesse uma batida de coração escondida sob a pele do mundo". O pincel não pedia licença, ele riscava a tela com uma vontade própria. Eu mergulhei num transe. As horas lá fora poderiam estar passando, o sol poderia estar se pondo, mas ali dentro, o tempo era líquido. Minha mão começou a detalhar formas orgânicas. Curvas pequenas, delicadas. Eu estava desenhando sombras, luzes que se moldavam em algo humano. Usei a ponta dos dedos para esfumar o contorno de um rosto... não, dois. Fiquei tão imersa que não percebi o que estava surgindo. Na tela, em meio a uma névoa de tinta translúcida, surgiram dois bebês. Eles estavam enroscados um no outro, como se estivessem ainda em um útero de tinta e sonhos. Eram idênticos. Cada detalhe que eu pintava em um, eu repetia no outro de forma quase mecânica. A curva do nariz, o formato arqueado da sobrancelha, o pequeno vinco acima do lábio superior. Um espelho perfeito. Um reflexo de carne e osso. Eu usava um pincel fino de marta para dar brilho aos olhos fechados deles. Eram duas criaturas puras, envoltas em uma aura de mistério que eu não sabia de onde vinha. De repente, parei. Afastei-me dois passos da tela, com o pincel ainda pingando tinta cinza no chão. Meus olhos percorreram a imagem. Eu nunca tinha pintado bebês antes. Eu nunca tinha pensado em gêmeos. E, no entanto, ali estavam eles: dois seres iguais, dividindo o mesmo espaço, a mesma essência. Nesse exato momento, um calafrio violento percorreu minha espinha. Não foi apenas frio; foi uma sensação elétrica, como se alguém tivesse encostado uma pedra de gelo na base do meu pescoço. Meu coração deu um solavanco, uma batida descompassada que doeu no centro do peito. Senti um vazio súbito, um eco de uma voz que eu não conhecia, um grito silencioso que parecia vir de muito longe. Minha respiração ficou curta. — O que é isso? — sussurrei para o vazio do ateliê, minha voz tremendo. Olhei para as minhas mãos. Elas estavam sujas de tinta, trêmulas. Olhei para o quadro novamente. Os dois bebês idênticos pareciam olhar de volta para mim, mesmo com os olhos fechados. Havia algo de sagrado e algo de terrivelmente triste naquela imagem. Uma conexão que eu não conseguia nomear, mas que me puxava para baixo, para uma escuridão que eu nunca soube que existia dentro de mim. Abracei meus próprios braços, tentando espantar o frio que vinha de dentro dos ossos. O meu mundo doce , feito de orquídeas e tons pastéis, acabava de ganhar uma sombra que não tinha explicação. — Estela? Tudo bem aí? — A voz do meu pai, Renato, bateu na porta, me trazendo de volta à realidade. A porta se abriu com aquele rangido suave que eu conhecia tão bem. Renato entrou devagar, com os ombros largos preenchendo o batente, mas parou no instante em que seus olhos encontraram a tela. O silêncio que se seguiu foi pesado, carregado de algo que eu não conseguia decifrar. O calafrio ainda subia pela minha nuca, e minhas mãos, manchadas de cinza e sépia, tremiam de um jeito que eu não conseguia controlar. Eu apontei para o quadro, para aqueles dois seres idênticos que eu tinha acabado de criar sem entender o porquê. — Pai... — Minha voz saiu pequena, quase um sopro. — O senhor sabe quem era a minha mãe? A de verdade... a que me teve? Renato desviou o olhar da tela para mim. Vi uma sombra de dor atravessar o rosto dele, algo que ele raramente deixava transparecer. Ele se aproximou com calma, cada passo ecoando no chão de madeira, e parou ao meu lado. Ele não olhou para o quadro com julgamento, mas com uma ternura profunda, como se estivesse diante de um segredo sagrado. — Estela, minha pequena... — Ele suspirou, colocando as mãos pesadas e quentes nos meus ombros. O calor dele tentava espantar o gelo que tinha tomado conta de mim. — Por que essa pergunta agora? De onde veio essa imagem? — Eu não sei — respondi, sentindo uma lágrima solitária escorrer e manchar a tinta no meu rosto. — Eu comecei a pintar e, quando vi, eles estavam lá. Dois, pai. Iguais. E eu senti um aperto aqui dentro... um vazio que eu nunca tinha sentido antes. Por que será que ela não me quis? O que eu tinha de errado para ela me deixar? Meu pai soltou os meus ombros e me puxou para um abraço apertado. Eu enterrei meu rosto no peito dele, sentindo o cheiro familiar de tabaco suave e sabão, o cheiro que sempre significou "segurança" para mim. Ele me apertou contra si, como se quisesse me proteger de todos os fantasmas do mundo, inclusive dos meus próprios pensamentos. — Escuta aqui — ele disse, com a voz vibrando no peito contra o meu ouvido. — Nunca, em nenhum dia da sua vida, pense que o problema era você. Você é a criatura mais pura e luminosa que eu já conheci. Ele se afastou um pouco, segurando meu rosto com as duas mãos, os polegares limpando minhas lágrimas. Seus olhos estavam úmidos, o que era raro para um homem tão duro como o Renato. — Sobre a mulher que te deu a luz... nós sabemos pouco, Estela. A verdade é que fomos informados de que era uma situação de extrema necessidade. Às vezes, o mundo é c***l com as pessoas, minha filha. Às vezes, amar também significa entregar quem a gente ama para que essa pessoa tenha uma chance que a gente não pode dar. Eu nunca vi o rosto dela, mas eu sinto que, no fundo, ela sabia que você merecia o universo. E o universo trouxe você para nós. — Mas e se eu tiver alguém, pai? — olhei para a tela, para os bebês gêmeos. — E se eu não for única como eu sempre pensei? Esse calafrio... parecia uma saudade de algo que eu nunca tive. Renato olhou para o quadro novamente. Vi o maxilar dele travar por um segundo, o instinto protetor gritando em cada músculo. Ele me conhecia melhor do que ninguém; ele sabia que minha sensibilidade não era apenas imaginação, era algo que vinha do fundo da alma. — A sua mãe, a Lídia, e eu... nós te escolhemos. E essa escolha é mais forte que qualquer laço de sangue — ele disse, desviando da pergunta sobre a irmã, mas me puxando para perto de novo. — Talvez sua alma de artista esteja apenas captando as tristezas do mundo hoje. Não deixe que essa sombra apague quem você é. Para nós, você sempre foi, e sempre será, o nosso começo, meio e fim. Você é o nosso milagre, Estela. Ele beijou o topo da minha cabeça com uma carinho imenso, mas eu percebi que as mãos dele também estavam levemente frias agora. Havia algo que ele não estava dizendo, algo que o ciúme e a proteção dele tentavam esconder debaixo de sete chaves. — Agora, limpa esse rosto e deixa esse quadro aí — ele ordenou, tentando retomar o tom brincalhão, embora a voz ainda estivesse embargada. — Sua mãe está lá dentro quase tendo um ataque porque a pizza vai virar gelo. E se você não aparecer, eu vou ter que comer a sua parte, e você sabe que meu médico não vai gostar disso. Eu dei um sorriso fraco, tentando deixar a sensação passar. — Tá bom, pai. Vou só me lavar. — Vou te esperar na porta — ele disse, fincando o pé no chão, deixando claro que não me deixaria sozinha com aquela tela nem mais um segundo. Eu olhei para o meu pai e, por um segundo, o peso daquela conversa pareceu esmagar o ar ao nosso redor. Mas eu não podia deixar aquele clima cinza dominar a nossa casa. Eu sou a Estela, a menina que busca o sol, e se meu pai estava ali, me segurando com tanta força, era porque eu tinha tudo o que precisava. Respirei fundo, sentindo o ar entrar rasgando e limpando o aperto no meu peito. Forcei um sorriso, aquele que eu sabia que desarmava qualquer preocupação dele. — Sabe de uma coisa, pai? O senhor tem razão. O que importa é quem ficou, não quem foi embora — eu disse, secando a última lágrima com as costas da mão suja de tinta, deixando um borrão engraçado na bochecha. Renato relaxou os ombros, visivelmente aliviado por me ver voltar ao normal. Ele abriu a boca para dizer algo carinhoso, mas eu não dei tempo. A Estela brincalhona tinha acabado de assumir o comando. — E quer saber mais? — Eu dei um passo para trás, já sentindo a energia voltando para as minhas pernas. — Se o senhor comer a minha parte da pizza, eu vou pintar um bigode rosa em cada foto sua que tiver nessa casa! Ele arregalou os olhos, surpreso com a mudança repentina de tom. — Estela, você não ousaria... — Quem chega por último na cozinha é mulher do padre! — gritei, já disparando em direção à porta. Passei por ele como um raio, rindo alto enquanto meus pés descalços batiam no chão de madeira, fazendo um barulho oco e festivo. Ouvi o baque surpreso dele contra a parede do ateliê e o som das chaves dele balançando no bolso enquanto ele tentava reagir. — Ei! Isso é golpe baixo, mocinha! Eu tenho quase sessenta anos e um joelho que reclama da umidade! — ele berrou atrás de mim, mas eu já estava no meio do corredor. — O joelho só reclama se for devagar, pai! Corre! — eu provoquei, olhando por cima do ombro e vendo a figura enorme dele começando a correr, com aquele jeito desajeitado de quem não fazia exercício há anos, mas que morreria antes de perder um desafio para a filha. Atravessei a sala de jantar, quase deslizando no tapete persa que minha mãe tanto cuidava, e entrei na cozinha derrapando. Lídia estava de costas, colocando os pratos na mesa, e levou um susto tão grande que quase deixou cair a espátula. — Cheguei! — anunciei, batendo as mãos na bancada, ofegante e com o coração batendo forte de um jeito bom dessa vez. — Mas o que é isso? Estela, você parece que saiu de um vendaval! — minha mãe exclamou, olhando para o meu rosto manchado de tinta e meu cabelo todo bagunçado. — Eu ganhei! — proclamei, vitoriosa. Dois segundos depois, meu pai entrou na cozinha, parando bruscamente e tentando recuperar o fôlego, com as mãos nos joelhos e o rosto vermelho. Ele apontou o dedo para mim, mas não conseguia falar nada antes de puxar o ar. — Ela... ela trapaceou, Lídia... começou a correr... antes do sinal — ele balbuciou, finalmente conseguindo rir. — Eu não trapaceei, eu usei o elemento surpresa! — rebati, mostrando a língua para ele e depois correndo para abraçar a cintura da minha mãe. — Diz pra ele, mãe, que na guerra e na fome por pizza, vale tudo. Lídia balançou a cabeça, mas o sorriso dela entregava o quanto ela amava aquela confusão. — Eu digo que vocês dois são duas crianças. Renato, sente-se antes que você tenha um treco. Estela, vá lavar esse rosto agora! Você está parecendo um quadro abstrato de si mesma. — Sim, senhora! — bati uma continência brincalhona e dei um beijo rápido no ombro dela antes de ir para a pia. Enquanto a água morna lavava os restos de tinta cinza e sépia da minha pele, eu olhei pelo reflexo da janela da cozinha. Lá fora, a noite estava calma, mas dentro de mim, a sensação do calafrio tinha sido enterrada sob as risadas. Eu queria acreditar que era apenas isso: uma tarde estranha que terminou em pizza e amor. Sentei-me à mesa entre os dois, sentindo o calor da comida e o conforto da proteção deles. Meu pai ainda me lançava olhares de "eu ainda te pego", e minha mãe contava sobre os vizinhos, e por um momento, a tela com os dois bebês lá no fundo do corredor parecia pertencer a outra vida. Eu era Estela. A filha única. A luz daquela casa. E nada, nem mesmo um desenho feito no escuro da alma, mudaria isso. Pelo menos, era o que eu dizia para mim mesma enquanto pegava a primeira fatia de pizza.
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