NARRAÇÃO: (ESTELA) Passei o resto da madrugada acordada, sentada no chão frio, abraçada aos meus joelhos e olhando para o céu que clareava através das grades. O morro começava a despertar. O som do funk distante dava lugar ao barulho de portas de aço se abrindo e ao ronco das motos subindo as ladeiras. Aquele lugar era vivo, pulsante, mas para mim, parecia um organismo que estava me digerindo. Cada vez que eu fechava os olhos, sentia o peso do Marlon sobre mim e a dor do seu beijo bruto. Eu me sentia suja, não por culpa minha, mas porque ele havia usado meu corpo como um campo de batalha para descarregar o ódio dele pela minha irmã. Ouvi o som da chave girando. O pânico subiu pela minha garganta, mas não era o Marlon. Uma mulher de meia-idade, com o rosto cansado e marcas de quem já vi

