Marlon se levantou da cama, o corpo tenso transbordando uma energia agressiva que faria qualquer um no morro recuar. Ele deu um passo em minha direção, a mão tatuada estendida para segurar meu braço, tentando impor a vontade dele como sempre fazia nas bocas de fumo.
— Vem cá, Luna. Para de marra comigo, pô. Eu sou o dono dessa p***a toda e tu é minha mulher — ele rosnou, a voz saindo como um trovão baixo, tentando me puxar para perto.
Eu nem sequer pisquei. Apenas desviei o braço com um movimento fluido e o encarei com olhos que mais pareciam duas pedras de gelo.
— Eu já disse que não, Marlon. Não me toca.
Ele parou, a respiração pesada batendo no meu rosto. O ódio e o desejo lutavam dentro dele, uma mistura perigosa que geralmente terminava em violência para quem ousasse desafiá-lo.
— Tu tá abusando da sorte — ele disse, a voz ficando rouca de raiva. — Tu sabe que tem uma fila de mulher querendo estar nesse luxo aqui. Cuidado, Luna... quando eu cansar de você, tu volta pra lama de onde eu te tirei rapidinho.
Eu soltei uma risada curta, seca, e caminhei até a penteadeira para pegar um batom, agindo como se ele fosse apenas um incômodo passageiro. Virei-me devagar, encostando as costas no móvel e encarando o "Rei do Crime" com um desprezo que ele nunca tinha visto em ninguém.
— Você não vai cansar de mim, Marlon. Sabe por quê? — Dei um passo à frente, invadindo o espaço dele, a voz baixa e carregada de uma crueldade silenciosa. — Porque eu sou a única. A única que sabe como você pensa, a única que mantém esse morro em ordem enquanto você brinca de soldado, e a única que você realmente deseja porque sabe que nunca vai me ter por inteiro.
Enquanto ele ficava ali, parado, processando minhas palavras, eu sentia um prazer doentio em vê-lo tão vulnerável diante de mim. Ele poderia ser o dono do beco, mas eu era a dona da mente dele.
— Agora sai — ordenei, voltando minha atenção para o espelho. — Eu tenho coisas mais importantes para planejar do que lidar com a sua carência.
Ele bufou, pegou a pistola na poltrona e saiu batendo a porta com tanta força que os frascos de perfume de cristal chegaram a vibrar. Eu sorri para o meu reflexo. Ele era o Rei, mas eu era a mão que movia a coroa, e ninguém, nem mesmo o passado que tentava me assombrar com calafrios, ia tirar isso de mim.
Termino de passar o batom vermelho sangue, encarando meu reflexo com um prazer quase doento. Marlon acha que manda aqui porque grita e atira, mas ele não entende nada sobre o verdadeiro poder. O poder não está no gatilho; está em ser o objeto de desejo de quem aperta o gatilho.
Saio da mansão sentindo o sol queimar meus ombros, mas o calor que me move é outro. Eu não caminho por esses becos, eu desfilo sobre os cadáveres de quem tentou me parar. Uso uma calça de couro que desenha cada curva das minhas pernas e um top que não deixa nada para a imaginação. Gosto de ver o estrago que eu faço.
Assim que coloco os pés na rua principal do morro, o ar muda. Eu sinto o peso dos olhares. Os vapores, esses moleques que Marlon treina para morrerem por ele, param tudo. Os fuzis, que deveriam estar apontados para o acesso, baixam conforme eu passo.
— Caralho... a patroa tá impossível hoje — sussurra um deles, um garoto que m*l começou a fazer a barba, achando que eu não ouvi.
Eu paro. Devagar. Giro o corpo com uma lentidão provocante e caminho até ele. O moleque gela. Ele está armado até os dentes, mas treme diante do meu sorriso. Aproximo meu rosto do dele, sentindo o cheiro de suor e medo.
— O que foi, gracinha? — minha voz sai rouca, um sussurro perigoso no ouvido dele. — Perdeu o foco do plantão olhando pra minha b***a? Se o Pivô te pega assim, ele te apaga. Mas se você continuar olhando... talvez eu mesma resolva o que fazer com você.
Desço a mão pelo peito dele, sentindo o coração disparado sob a camiseta, e dou um tapinha leve no rosto dele antes de continuar meu caminho. Eu adoro isso. Adoro ser a fantasia proibida de cada soldado desse morro. Sou safada, sou perigosa, e sei exatamente como usar o desejo deles para que, se um dia eu precisar que eles se voltem contra o Marlon, eles o façam sem pensar duas vezes.
Enquanto subo a ladeira, o teatro continua. Vejo as senhoras nas portas e mudo minha máscara. O olhar de predadora se transforma em uma doçura calculada, nojenta de tão falsa.
— Bom dia, Dona Maria! Como vai a pressão? — pergunto, parando para tocar a mão calejada da velha.
— Deus te abençoe, Luna. Você é um anjo na nossa vida — ela responde, com os olhos brilhando de gratidão.
Um anjo, eu penso, sentindo vontade de cuspir no chão. Se ela soubesse que eu sinto náuseas só de respirar o mesmo ar que essa gente pobre, ela morreria de susto. Mas eu sorrio. Beijo a testa dela. É o meu investimento. Enquanto eles acharem que sou a "Dama da Caridade", ninguém abre o bico para a polícia, e o Pivô continua se sentindo o rei de um povo que, na verdade, me pertence.
Passo pela boca de fumo e vejo o movimento. O dinheiro entrando, a miséria sendo vendida em pequenos pacotes. Eu olho para tudo aquilo e só vejo lucro. Só vejo o meu trono ficando mais alto.
Dante está parado na porta do QJ, vigiando o acesso. Nossos olhos se cruzam por um segundo. Ele ainda tem aquele olhar de fome, de quem quer me devorar ali mesmo, no meio de todo mundo. Eu dou um sorriso de canto, sabendo que ele está nas minhas mãos, assim como o Marlon, assim como cada o****o desse lugar.
Eu sou Luna Peçanha. Eu matei a mulher que me pariu, eu traio o homem que me protege e eu governo o morro com o que tenho entre as pernas e o que tenho dentro da cabeça.
Sigo meu caminho em direção ao QG, sentindo o asfalto quente e a adrenalina de ser o centro das atenções. Eu sei exatamente o jogo que estou jogando. Quando entro naquela sala de reuniões, o ar parece ficar mais pesado. Marlon está lá, sentado com aquela postura de quem é o dono do mundo, cercado pelos seus soldados e por Dante, que me devora com os olhos no canto da sala.
Dessa vez, não recuo. Vou direto até o Pivô. Eu me inclino sobre ele, deixando o cheiro do meu perfume caro e o toque da minha pele fazerem o trabalho de distrair o animal. Enfio meus dedos no cabelo dele e lasco um beijo profundo, daqueles que marcam território na frente de todo mundo. Quero que cada um daqueles vapores saiba quem é que manda no coração e na mente do chefe deles.
Marlon responde com a brutalidade que lhe é peculiar. Ele agarra minha mão com tanta força que os nós dos seus dedos ficam brancos, prendendo-me contra ele.
— Qual foi, Luna? — ele rousna, a voz rouca, bem perto do meu ouvido, mas alto o suficiente para os outros sentirem a tensão. — Tava de cu doce lá no quarto por quê, hein? Agora chega aqui cheia de gracinha na frente do bonde?
Eu dou um sorriso lento, sem me abalar com o aperto. Pelo contrário, eu gosto do controle que tenho sobre a fúria dele.
— O quarto é pra eu descansar, Marlon. Aqui é onde a gente manda — respondo, mantendo o olhar fixo no dele, desafiadora. — E eu vim porque quero saber do movimento.
Ele solta uma risada curta, mas não solta minha mão. O clima na sala é puro fogo.
— Tem carga chegando amanhã. Negócio grande, vindo direto da fronteira — ele diz, agora focando no trabalho. — O Dante vai puxar a escolta com dez homens.
Eu me afasto um pouco, mas ainda sinto o calor dele. Olho para o Dante por um segundo — um relance de segundo que só ele entende — e depois volto para o meu homem.
— O Dante não — afirmo, cruzando os braços, fazendo o top vermelho subir e os olhos de todos na sala baixarem. — Eu vou. Eu mesma vou escoltar essa carga. Quero garantir que ninguém coloque a mão no que é meu.
Marlon me encara, surpreso e e******o com a minha audácia. Ele adora essa versão de mim, a bandida perigosa que não tem medo de nada. Ele não sabe que o meu plano é muito maior do que uma simples entrega.