capitulo 4 Luna

1656 Words
A RAINHA DE GELO E SANGUE O ar no quarto era uma mistura asfixiante de luxo e pecado. As cortinas de veludo pesado bloqueavam a luz do sol, transformando o ambiente em uma penumbra dourada que escondia as intenções, mas não os crimes. Eu me afastei do corpo dele com um tédio que beirava o nojo. Dante, o braço direito do Pivô e o homem que deveria ser seu escudo mais leal, estava ali, ofegante e rendido entre meus lençóis de cetim. — Você é um vício maldito, Luna — Dante murmurou, a voz carregada de uma submissão que me dava vontade de rir. Eu não respondi. Apenas me levantei, sentindo o toque frio do chão de mármore contra a sola dos meus pés. Caminhei até a penteadeira, onde as joias que o Pivô me dava brilhavam como troféus de uma guerra que ele nem sabia que estava perdendo. — Você é fraco, Dante — eu disse, a voz cortante como uma navalha, sem me virar. — É por isso que eu gosto de você. Homens fortes tentam mandar. Homens fracos, como você, só tentam me agradar. E enquanto você tenta me agradar, você trai o seu "irmão de sangue" sem pensar duas vezes. Dante se sentou na cama, o rosto obscurecido. Ele sabia que estava com a corda no pescoço, mas o desejo que sentia por mim era mais forte que o medo da morte. — Eu faria qualquer coisa por você. Você sabe que se o Pivô cair, eu sou o próximo na linha. — E você acha que eu quero ser a rainha de um sucessor? — Eu me virei, o olhar gélido fixo nele. — Eu quero o trono para mim. Você é apenas o degrau, Dante. Nunca se esqueça disso. Vesti meu roupão de seda vermelha, ajustando o cinto com uma precisão cirúrgica. Eu era Luna Peçanha. Para os moradores do morro, eu era a "Dama da Caridade", a mulher que distribuía cestas básicas com um sorriso ensaiado e abraçava crianças sujas apenas para garantir que ninguém abrisse a boca para a polícia. Por dentro, porém, eu sentia um desprezo profundo por cada alma que rastejava naquele asfalto. Eles não eram pessoas para mim; eram gado. Peças de um tabuleiro que eu manipulava com a maestria de quem nasceu sem coração. De repente, um calafrio violento, vindo de lugar nenhum, me atingiu. Foi uma pontada no peito, uma sensação de que algo estava sendo arrancado de dentro de mim. Minha mão, que segurava um frasco de perfume de cristal, tremeu por um segundo. Uma imagem borrada de tons pastéis e luz suave cruzou minha mente como um flash de uma vida que não era a minha. — Luna? Tudo bem? — Dante se levantou, tentando tocar meu ombro. — Saia! — Eu bati na mão dele, os olhos brilhando de fúria. — Saia daqui agora. O Pivô volta da negociação em meia hora. Se ele encontrar você aqui, eu mesma faço questão de dar o primeiro tiro na sua testa para provar minha "lealdade" a ele. Dante saiu do quarto como um cão acossado, fechando a porta com um estalo seco que ecoou no vazio daquele santuário de mármore e traição. Eu não sentia medo; o medo era uma emoção para os fracos, e eu havia matado a última gota de fraqueza em mim há muito tempo. Caminhei com lentidão até a mesa de cabeceira e peguei minha cigarreira de prata. O metal estava gelado, exatamente como o meu sangue. Retirei um cigarro fino, acendi-o e deixei a primeira tragada de fumaça invadir meus pulmões, preenchendo o vazio que o calafrio de antes havia deixado. Voltei para a cama e me deitei sobre os lençóis de cetim ainda bagunçados, sentindo o cheiro da luxúria de Dante que ainda pairava ali. Era um cheiro que eu desprezava, mas que era o perfume da minha vitória. Enquanto a fumaça subia em espirais preguiçosas sob a penumbra dourada, minha mente viajou para o passado, para o único crime que eu saboreava com um prazer quase religioso: a morte daquela mulher. A mulher que o mundo chamaria de minha mãe. Ela não era nada. Era um resto de gente, uma viciada imunda que me olhava como se eu fosse um estorvo, uma mercadoria que ela não conseguiu vender a tempo. Eu ainda conseguia sentir o cheiro de mofo e álcool barato daquele barraco infecto onde ela me criou entre tapas e negligência. Ela dizia que eu era o seu azar, o peso que a impedia de brilhar na noite. m*l sabia ela que o brilho que ela tanto queria seria o fogo que eu mesma acenderia. Lembrei-me da noite final com uma nitidez deliciosa. Ela estava caída no chão, dopada, cercada por garrafas vazias, babando sua própria miséria. Eu a observei por um longo tempo, sentada em um banco de madeira, segurando um travesseiro com a calma de quem executa uma tarefa doméstica. Ela não valia o ar que respirava. Ela era uma mancha na minha existência, o único laço que me prendia à lama de onde eu decidi emergir como uma deusa de sangue. Quando pressionei o travesseiro contra aquele rosto inchado, não senti remorso. Senti um alívio avassalador. Ouvi seus pulmões lutando, senti o corpo dela se debater debilmente sob as minhas mãos pequenas, mas firmes. Cada segundo que passava era uma nota de uma sinfonia de libertação. Quando ela finalmente parou de se mexer, eu não chorei. Eu sorri. Lavei minhas mãos com a água suja de uma caneca e saí dali sem olhar para trás, deixando o cadáver da "mãe" apodrecer com a sua própria insignificância. — Você não me deu a vida — sussurrei para o teto, soprando a fumaça com desprezo. — Você só me deu o ódio. E veja só onde ele me colocou. Eu era a rainha do crime porque eu não tinha freios. Eu não tinha o "amor" que tornava as pessoas vulneráveis. Eu fingia amar o povo do morro, fingia ser a salvadora de crianças, mas por dentro, eu só sentia nojo. A cada cesta básica que eu entregava, eu lavava minhas mãos com álcool logo em seguida, rindo da ignorância daqueles que beijavam a mão que, se pudesse, os esmagaria por diversão. O calafrio de antes tentou voltar, aquela imagem borrada de tons pastéis, mas eu a afoguei na lembrança do prazer de ter tirado a vida de quem me gerou. Se houvesse uma irmã, se houvesse um espelho de mim em algum lugar, ela que se preparasse. Eu já tinha matado o sangue do meu sangue uma vez. Matar de novo seria apenas um hábito. Apaguei o cigarro no cinzeiro de cristal, esmagando-o com uma força desnecessária. Ouvi o barulho das botas do Pivô subindo as escadas. O teatro ia começar. Eu estava pronta para ser a mulher dele, a amante dele, a rainha dele... até o momento em que eu decidiria ser a viúva dele. A porta do quarto se abriu com um estrondo, e o som das botas pesadas de Marlon, o Pivô, cortou o silêncio do meu momento de reflexão. Ele entrou exalando aquele cheiro característico de pólvora, suor e poder, com o olhar fixo em mim. Marlon, conhecido no morro como o Rei da Maré e Dono do Beco, tinha 32 anos e carregava no corpo tatuado a história de cada palmo de terra que conquistou. — Qual foi, Luna? — ele disparou na gíria pura do morro, com aquela voz grave que costumava fazer os outros tremerem. — Tu sumiu, pô. O bagulho doido lá na boca, os canas rondando a entrada da Linha Amarela, e minha fiel nem pra dar as caras pra fortalecer o bonde? Eu continuei deitada, observando-o pelo canto do olho. Marlon vulgo pivô era, sem dúvida, um homem atraente uma beleza bruta, esculpida na violência e na sobrevivência. Mas, enquanto ele falava, eu sentia apenas o peso da minha própria estratégia. Ele é lindo, de fato, pensei enquanto tragava o cigarro pela última vez. Mas o que ele tem, além dessa coroa de espinhos e de um alvo pintado nas costas, que eu ainda não tenha tomado para mim? Para ele, eu era a "fiel"; para mim, ele era apenas o escudo que eu usaria até que o metal ficasse gasto demais. Marlon se aproximou da cama, jogando a pistola sobre a poltrona de veludo, e sentou-se ao meu lado, fazendo o colchão afundar. Ele se inclinou, tentando buscar meus lábios com um beijo possessivo, buscando o conforto que só a sua "rainha" parecia lhe dar. Eu virei o rosto no último segundo, sentindo apenas o roçar áspero da barba dele na minha bochecha. O beijo não aconteceu. — Hoje não, Marlon — eu disse, a voz gélida e monótona. Ele travou por um momento, a mão tatuada ainda suspensa no ar. O silêncio no quarto tornou-se tenso, carregado com a dúvida que começava a brotar na mente dele. — Qual é a tua, Luna? — ele perguntou, a voz agora num tom mais baixo, perigoso. — Tu anda muito estranha, papo reto. Faz dias que tu tá nessa marra. Sempre que eu chego pra te dar um carinho, pra te tocar, tu mete o pé ou inventa um caô. Eu me levantei devagar, ajustando o roupão de seda, sem demonstrar um pingo de intimidação diante do Rei do Crime. — É o cansaço, Marlon. Só isso — respondi, caminhando em direção à janela para observar as luzes da comunidade. — Cuidar da imagem que esse morro tem de você dá trabalho. Ser a "Dama da Caridade" enquanto você faz o serviço sujo esgota qualquer uma. A Luna aqui tá precisando de espaço, não de cobrança. Ele ficou me encarando das sombras da cama, a desconfiança brilhando nos olhos. Ele sentia que algo estava mudando, mas ainda estava cego demais pela própria arrogância para perceber que a traição já dormia ao lado dele.
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