ÉRIKA
Olho pela porta e o César passa pelo BR tão transtornado que nem olha pra ele. Fico observando ele até que ele entra numa viela escura e desaparece.
Erika: Vamo! - falo fechando a porta da boca e descendo onde tá o BR
BR: César ta legal?
Erika: Espero que sim
BR: Ele tá estranho!
Erika: É, mais ele vai fica bem - no fundo algo dentro de mim me dizia o contrário
Subimos em direção a minha casa e no caminho tem uns muleque armado
Erika: O seus filho da p**a ja não dei ordem pra menor não anda armado?
Eles olham com medo, estendo minha mão e eles me alcançam a arma. s*******o esses bostinha acham que já são homens.
Chegamos na minha casa e mando o BR entrar, ele entra ofereço uma bebida e conversamos alguns assuntos sobre o Jacareí, espero que não invadam mais aqui muito cedo.
BR: Mais e aí, como tu foi se torna chefe disso tudo
Erika: Na verdade não gosto muito desse assunto
BR: De boa deixa queto então
Erika: Bom acho que vc me entenderia bem, perdeu tua família também né?
BR: É, foi f**a cara, tu nem imagina
Erika: Imagino sim
Conto minha história pra ele que fica ouvindo com atenção, foi bom falar com alguém e por um momento ele conseguiu fazer eu esquecer o César e o DG que só Deus sabe onde tão
O BR vai pra casa e mando mensagem pro DG, não aguento sem saber desse cara porque no fundo o meu medo é que ele fassa alguma loucura
Whatsapp
Erika: Meu... Responde aí viado...
As mensagens nem são entregues e isso me irrita então ligo mas tá desligado.
Tomo um banho e deito, não consigo para de pensar nesses cara e no fim pego no sono.
Acordo dia seguinte vou pra boca e nada do César nem do DG ja tô aflita me fingindo de forte. Vem outra notícia de estupro até mim e fico bolada os vapor não acham o cara e tô com uma raiva do cão já, isso virou bagunça foi!?
Ja é noite e o César nada de aparecer então ligo pra ele mas também tá desligado.
Subo pra casa e sento na lage, lugar alto em que consigo ver quase toda minha favela, me sinto bem ali. Lembro de várias vezes em que eu e o César ficamos ali olhando a favela e fazendo planos de um futuro melhor, nunca planejamos sair do tráfico ou do morro, nosso plano era dar paz pras quebradas e encaixar nossa favela na sociedade.
Pego o celular e mando mensagem pra Paloma
Whatsapp
Érika: E aí, sabe do César? Pergunta aí pro kareca
Paloma: Ué amiga, o que houve?? Liga pro César
Erika: Só pergunta aí p***a bora!
Paloma: Tá bom, vou liga pro kareca e pergunta, não tô com ele agora
Espero um pouco e logo ela manda outra mensagem
Paloma: Amiga ele disse que o César saiu do churras bem bravo com vc, mais ou menos duas horas depois mandou mensagem pra ele dizendo que tava saindo fora da favela e de tudo pra sempre
Erika: Saindo fora???
Paloma: Sim, o kareca ligou e ele não atendeu daí o kareca mandou mil mensagens mas ele só disse que não era pra ninguém ir atraz porque não iam achar
Começo um choro compulsivo, dou socos na parede e grito desesperada, não posso ta perdendo outra pessoa, a única pessoa que ainda fazia sentido na minha vida. Esse homem correu muito atraz de mim e não dei valor agora perdi e sinto que não tem volta, meu mundo acabou, não vou conseguir levar minha vida adiante sem ele. Quando meu pai sumiu eu tinha o Pedro, quando o Pedro se foi eu tinha o César e agora ele acaba de me abandonar. Choro como se fosse mentira, desço da lage e me atiro na minha cama agarrada ao travesseiro que o César dormiu, ainda é possível sentir o cheiro dos cabelos dele assim como todas as manhãs eu sentia quando ainda éramos casados.
Não consigo acreditar que ele partiu e me deixou sozinha, ele disse que nunca me deixaria e agora ele se foi.
(***)
Acordo e percebi que peguei no sono chorando, lembro que o César se foi e vem lágrimas e mais lágrimas.
Não posso me imaginar sem ele aqui, sem ele todos os dias no meu pé me torturando por amor. O que vai ser de mim e da favela sem ele se tudo o que eu fazia era com a ajuda dele.
Levanto da cama e tomo um banho, desço pra sala e deito no sofá, não tenho vontade de comer nada e nem ir pra boca. Um vapor me chama no radinho e me avisa sobre mais um estupro e como sempre ninguém sabe e ninguém viu nada. Nem me preocupo em ir atrás só sei ficar deitada ali no sofá olhando pro teto e chorando em meio as lembranças.
Os vapores ficam toda hora me chamando no radinho então pego o celular e coloco os fones de ouvido
"Não me aceitaria olhar mais no espelho sabendo que um dia te deixei partir.
Eu não imagino como seja o mundo sem você por perto eu não posso seguir.
Me desculpa por tudo o que fiz, se te fiz infeliz e nunca admiti.
Te amo."
Só sei chorar e assim desse jeito passo o dia chorando trancada em casa e mais nada.
Ja é tarde da noite e vou aproveitar que não tem quase ninguém na rua pra eu ter que olhar pra cara e vou da uma volta, ver se consigo alguma pista sobre o César, talvez na boca.
Caminho meio que sem direção, sem sentido e quando chego na boca entro e reviro o escritório. Não tem nada.
Abro a gaveta da mesinha pra pegar um brew, preciso me chapar e tentar esquecer pelo menos enquanto tiver efeito. Fumo e não sai da minha cabeça, estou sozinha e não tenho mais ninguém. Todos que eu amava se foram, meu pai meu irmão o César, eu estou com minha vida destruída.
Choro como criança e não vejo mais sentido nesse mundo então decido me matar. Pego uma arma e miro na minha cabeça, fecho os olhos e fico tentando tomar coragem. Engatilho e quando vou atirar uma mão da um tapa na arma fazendo voar da minha mão. Abro os olhos num susto e é o BR. Ele nao diz nada nem eu, apenas choro então ele me abraça e fica assim um bom tempo. Nos afastamos e ele coloca meu cabelo atrás da minha orelha. Meu rosto tá repleto de lágrimas.
BR: O que houve?
Não digo nada apenas choro e ele me abraça novamente. Em seguida me convence a ir pra casa então ele me leva, entramos e eu já vou reto ao whisky.
BR: Cara olha aqui pra mim, não bebe tá tu não ta bem! E tá tomando remédio mulher!
Erika: Que se f**a! - falo chorando
BR: Que se f**a não, tu tem que te dá valor. Independente do que aconteceu tu tem que se dá valor!
Erika: Valor?! - pergunto chorando enquanto tomo whisky direto da garrafa - Desde quando tenho algum valor?!
BR: Tu tem muito valor cara, só vc não vê!
Trocamos algumas palavras, poucas, no mais eu ficava bebendo chorando e ele me olhando parado em pé do meu lado como se eu fosse uma criança e ele estivesse cuidando pra eu não cair.
Bebi três garrafas de whisky e tava podre, já nem sentia mais nada. Fui levantar e tropecei, ele me pegou antes que eu chegasse no chão. Meu estômago tava embrulhado querendo por pra fora o que nem havia comido. E tontura era gigante.
O BR me pega no colo e me leva pro quarto, me coloca em baixo do chuveiro liga a água gelada com roupa e tudo.
Erika: Sai p***a! Para com isso c*****o!
BR: É pro teu bem patroa!
Erika: Eu vou te queima vivo! - falo sem saber o que estou dizendo
BR: Tudo bem, depois que tu tiver melhor pode queimar - o desgraçado ainda zomba
Ele me tira do box depois de me dá banho me alcança uma toalha
BR: Se ajeita aí que vou catar umas roupas pra vc
Não digo nada apenas tiro as roupas molhadas e me enxugo, ele bate na porta e abro uma fresta pegando as roupas, tem uma calcinha, uma blusa e uma bermudinha de moletom. Visto e me atiro na cama com o BR sentado na poltrona me olhando eu apago.
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Acordo e o BR tá sentado na poltrona com a cabeça pra trás dormindo. Nem acredito que esse cara dormiu aqui só pra me cuidar.
Vou pro banheiro e faço minhas higiene em seguida chamo o BR
BR: Bom, se tu tá bem então tô indo tá
Erika: Obrigada muleque - é raro esse momento de agradecimento na minha vida - De coração, obrigada mesmo
BR: Patroa, foi um prazer te ajudar, é triste ver vc tão linda chorando
Erika: Vamos troca de assunto que é pra eu não começar de novo tá
BR: Ok,
já tô de saída, se cuida tá
Erika: Tudo bem, valeu mesmo
Ele desce do quarto e ouço a porta da casa se abrir e fechar. Sozinha mais uma vez.