A noite terminou com um hiato. Andrea e Laura se esquivam da mesa com a desculpa de que tiveram um dia longo e estavam cansadas, saíram para deixar que Alice e Mayra conversassem. De volta ao hotel decidiram se dormiriam juntas ali ou na casa da montanha. Optaram por ficar pois de fato estavam cansadas, tomaram cuidado para não comentar a particularidade das outras duas que estavam em um dos quartos do hotel.
O dia amanheceu agitado na cidade as tendas estavam lotadas, a cidade seguia colorida transbordando de turistas, elas se dirigiram para a tenda central que estava aberta para discussões, na mediação pessoas famosas conhecidas no Brasil e mundo, elas se detiveram por momentos na parte jornalística para se envolverem de fato no evento
Tudo o que se falava, ações sociais e inclusivas as disparidades culturais do Brasil estavam ali sendo discutidas à luz do dia, mostrando a pluralidade do país, e de fato merecia nota a ser destaque nos pacotes turísticos.
A voz era dada ao público, onde as pessoas podiam expor o que pensava sobre o que estava sendo debatido, ou trazer um novo assunto para a roda, Andréa estava hipnotizada com a mulher que tinha o microfone em suas mãos, já de idade, se apresentou como neta de escravos, mas em nenhum momento se colocou como a vítima, apesar de falar das agruras de viver em sua pele n***a no sul do país, isso porque a sua história de vida ali relatada não tinha sido fácil, em suas próprias palavras precisou se tornar adulta aos seis anos de idade. Andrea tinha lágrimas nos olhos, Laura segurou em suas mãos mais para dar apoio a ela.
Como pode histórias assim acontecer neste país? Meu coração está partido.
Acontece com mais frequência do que você pode imaginar, o racismo no Brasil é estrutural,
Mas ela tem a história de uma vida e a resumiu em tão poucas palavras.
Sim, poucas e belas palavras. Diva Guimarães, é uma pessoa maravilhosa e se torna maior por contar uma história assim, ela fala a verdade dela, mas pode ser de muitos brasileiros.
Estoy encantada.
O relato de Diva Guimarães, mexeu bastante com Andrea, que não conseguia entender como um país tão bonito e plural tinha uma mancha tão tão grande em racismo e diferença de classes, não que o seu país não tivesse a sua cota também, mas a imagem de que o Brasil era um país receptivo e abraçava a todos de forma igual estava se quebrando.
Elas andaram por mais tendas, selecionaram mais livros, e se permitiram buscar refeição em um restaurante mais afastado.
Ainda tem muito desta cidade para te apresentar, você está em um paraíso único, vamos aguardar a chegada da minha irmã e Mayra e planejaremos uma trilha.
Falando nelas, estão entrando ali agora.
Acenaram para a porta por onde as duas haviam terminado de passar e pediram mais duas cadeiras para a mesa delas. , felizes em ver que as duas aparentemente se entenderam na noite anterior.
Olá meninas, não sei dizer se é bom dia ou boa tarde. Mas vejo que tiveram uma noite agradável.
Ah sim, conseguimos esclarecer algumas pontas que ficaram soltas desde o nosso último encontro.
Eu e Andrea estamos planejando um tour pelas trilhas da região e queremos convidá-las a vir com a gente.
Irmã, eu conheço a região, lembra?
Seja uma boa anfitriã e vamos apresentar a cidade, tirar boas fotos e aproveitar os dias ao sol que nós temos por aqui.
Convite aceito.
As quatro formavam então um novo grupo, almoçaram ao som de música ambiente e muitas risadas, Andrea traçava textos mentais que deveria redigir em seu guia. Alice teve a ideia de visitar a Pedra da Macela que ficava em uma cidade próxima, nas montanhas. Todas gostaram da proposta, mas antes a jornalista do grupo, quis saber mais sobre o lugar e enquanto elas debatiam sobre o assunto, Andrea se pôs a pesquisar.
“A Pedra da Macela, situada no município de Cunha-SP, situada na serra do mar na divisa entre os estados do Rio de Janeiro e São Paulo”
A informação a animou, teve a impressão de que estariam na fronteira limite entre dois mundos, a meta era ver o pôr do sol e como já estavam saindo após o almoço, tinham pressa de chegar.
O trecho de caminhada era de mais ou menos dois quilômetros, e a meta era alcançar o cume que ficava a pelo menos 6050 pés de altura, a caminhada montanha acima, na entrada do parque se juntaram a outros trilheiros que tinha tido a mesma idéia, um grupo de doze pessoas no total se formou e a caminhada deu-se início. Andrea e Laura seguiam o grupo mais a frente, estavam animadas em fazer algo juntas e tinham as outras duas mais sedentárias com quem podiam brincar ou incentivar na caminhada.
O combinado não era esse Andrea, você explora os locais e faz o guia, eu pago por isso.
Já que você saiu do escritório, é importante ver como a vida funciona.
Mayra riu um pouco da piada da colaboradora, Alice observando de perto o entrosamento entre elas, a forma como conversavam, lhes conferiam a i********e de um mundo à parte.
Vocês se conhecem há muito tempo, não é?
Sim e não, eu a contratei a dois anos atrás, jornalista recém formada cheia de criatividade, me apresentou o projeto e eu gostei. Desde então ela vem viajando o mundo preparando material impresso e vídeos para o blog.
E se tornaram amigas imediatamente?
Ela é uma pessoa legal, e se enturma fácil, olha para ela ali, nunca viu aquelas pessoas e está conversando animadamente com eles, antes do final do dia, dois deles já vão acreditar que são melhores amigos dela. Ela é uma abelha sedutora.
Alice via, o que e Amara falava, e com um pouco mais de sagacidade via um pouco mais. Mayra falava com paixão da garota que ia a frente, e ela nem percebia o peso dos sentimentos que estava colocando em suas palavras. Automáticamente puxou o freio sentimental. Lembrou da noite de reencontro e analisando bem o sexo de reencontro foi bom, mas Mayra estava distante, e mágicamente ela estava entendendo o porque.
Alice olhou mais uma vez, para a irmã que seguia encantada com a jornalista como os outros membros do grupo, eles seguiam a caminhada fazendo fotos e amizades. Andrea, não tirava os olhos de Laura, sempre com a mão estendida para ajudá-la nos trechos difíceis, as duas buscavam se tocar o tempo todo, sinal claro de que buscavam a atenção uma da outra. De repente se tornou a irmã protetora e por instinto gostava menos da espanhola. Também observava Mayra, e o olhar que ela tinha para a cena à sua frente não era tão amigável.
Estavam subindo a montanha pelo lado de Paraty, ainda faltava mais ou menos uma hora, para chegarem ao mirante, de onde teriam uma vista, a animação e a conversa fez com que o trajeto para o topo fosse mais rápido ou assim parecesse, e quando chegaram ao topo, todos perderam o fôlego.
A vista do mirante permite ver toda a baía de Paraty e o cortar da linha do horizonte onde a água está calma formando uma linha reta limitando o céu e o mar, Laura sacou de sua câmera e começou a fotografar, enquanto automaticamente Andrea descrevia a maravilha que tinha diante dos olhos.
O grupo se dispersou buscando cada um ponto onde pudessem admirar a natureza com calma e detalhes. Mayra e Alice também fazia parte dos que admiravam a vista e somente este espetáculo.
Dali de onde estavam podiam ver as duas trabalhando cada uma com o seu objeto de trabalho, estavam em sintonia, Andrea escrevia copiosamente sem tirar os olhos do que via, a descrição do mar, a coloração dos últimos raios solares ao tocar a água a forma como as cores do fim do dia se mesclavam, Laura posicionava para tirar closes perfeitos da paisagem e dela. O fim de tarde estava perfeito. Ao final todos ali saudaram o fim do dia com aplausos.
A descida da montanha foi mais rápida, todos descontraídos, como o previsto Andrea fez novos amigos e foram convidados para uma festa na casa de um deles. Eram jovens em férias na região que buscavam diversão e elas aceitaram. Mayra não estava muito contente, mas se dispôs a seguir com o grupo, endereços foram trocados e todas voltaram para a pousada, Laura as deixou na porta e seguiu com Alice para a casa delas.