CAPÍTULO 24 — ENTRE O QUEBRAR E O RECOMEÇAR

869 Words
Hana não lembrava direito do caminho de volta para casa. As luzes da rua passavam borradas pelas lágrimas, e o vento frio parecia zombar dela por ter acreditado que, finalmente, a vida estava em paz. “Ex-noiva.” As palavras ecoavam, insistentes. Não importava o quanto tentasse racionalizar — doía. Ela se trancou no apartamento, jogou a bolsa no sofá e ficou parada, olhando o nada. O coração pulsava rápido, misturando medo, raiva e saudade. Ele devia ter me contado. Não porque fosse errado ter um passado, mas porque esconder era o mesmo que deixar uma sombra entre eles. O som de uma batida suave na porta a fez sobressaltar. Ela hesitou, limpou o rosto com as mãos e foi atender. Ji-Won. Molhado da chuva, o olhar desesperado, como se tivesse atravessado a cidade inteira correndo. — Hana, por favor… eu preciso falar com você. Ela cruzou os braços, tentando parecer firme. — Não sei se é uma boa hora. — Então me deixa tentar fazê-la ser. — A voz dele falhou no fim, e algo dentro dela se partiu um pouco mais. Hana abriu a porta. Ji-Won entrou, mas ficou de pé, sem se aproximar. O silêncio entre eles parecia o mesmo que existia antes de tudo começar — só que agora cheio de história. — Eu devia ter te contado sobre Yoon-Hee — começou. — Não porque ela ainda significasse algo, mas porque eu devia ter sido honesto desde o começo. — Por que não foi? — Hana perguntou, com o olhar ferido. — Eu não sou uma criança, Ji-Won. Ele passou a mão pelos cabelos, frustrado. — Eu estava tentando proteger o que a gente tem. O relacionamento que tive com ela terminou de um jeito r**m. Ela… manipulava tudo. Eu achei que se nunca falasse sobre isso, o passado não teria poder sobre o presente. Hana deu um riso curto, amargo. — Mas o passado sempre encontra um jeito de voltar, não é? — Sim — ele admitiu. — E agora está tentando destruir o que ainda nem começamos direito. Hana desviou o olhar, o coração dividido. — Você confia em mim agora, Ji-Won? Ele deu um passo à frente. — Com tudo que eu sou. — Então me deixa confiar em você também — ela disse, firme. — E pra isso… eu preciso de verdade, não de silêncio. Ji-Won assentiu, o olhar marejado. — Eu prometo. Sem mais segredos. Antes que pudesse dizer algo mais, o celular dele vibrou. Era uma mensagem. Ele olhou rapidamente — e o rosto mudou. — É ela — murmurou. — Yoon-Hee? Ele assentiu. Mostrou a tela: “Se quiser que eu desapareça de vez, venha me encontrar. Tenho algo que você precisa ver.” Hana cerrou os punhos. — Parece uma armadilha. — Provavelmente é. — Ji-Won respirou fundo. — Mas se ela tem algo que pode te afetar… eu não posso ignorar. Hana o encarou. — Então eu vou com você. — Não — ele respondeu de imediato. — Eu não quero que ela te envolva nisso. — Ela já me envolveu. — A voz de Hana era calma, mas decidida. — E eu não vou mais ser espectadora da minha própria história. Ji-Won a olhou por um longo momento. Depois assentiu. — Tudo bem. Vamos juntos. ⸻ O encontro foi num café fechado, nos arredores da cidade. Quando chegaram, Yoon-Hee estava lá — impecável, fria, com um sorriso calculado. — Vocês vieram — disse, cruzando as pernas. — Que adorável. Ji-Won foi direto: — O que você quer? Yoon-Hee ergueu uma sobrancelha. — Quero que admita que ainda sente algo por mim. Assim eu sumo, deixo vocês em paz. Hana deu um passo à frente. — Isso é patético. Yoon-Hee riu. — Patético é acreditar que um homem como Ji-Won consegue amar alguém depois do que viveu. Eu o conheço. Ele se apaixona pelo desafio, não pela mulher. As palavras eram veneno puro. Hana apertou os dentes, mas Ji-Won segurou sua mão discretamente. Um gesto pequeno, mas firme. — Você está errada — ele disse. — Eu não amava você. Eu amava o que pensava que o amor era: controle. Com a Hana é diferente. É real. O rosto de Yoon-Hee endureceu. — Então é isso? Vai jogá-la contra mim? — Você já fez isso sozinha — Ji-Won respondeu. Por um segundo, algo que parecia tristeza passou pelo olhar dela, logo substituído por raiva. — Eu vou fazer vocês se arrependerem. Ela se levantou bruscamente e saiu. Do lado de fora, o vento uivava. Hana olhou para Ji-Won, o coração acelerado. — Ela não vai parar. — Então nós também não. — Ele se aproximou. — Eu prometo que dessa vez, se vier tempestade, a gente enfrenta juntos. Hana respirou fundo. As lágrimas vieram, mas eram diferentes — não de dor, mas de alívio. Ela encostou a testa no peito dele. — Juntos, então. Ji-Won envolveu o rosto dela nas mãos. — Juntos. O barulho da chuva começou lá fora. Mas, dentro do café vazio, havia silêncio — um silêncio firme, cheio de promessas novas. Não era o fim do drama. Era o começo da luta verdadeira. E, pela primeira vez, eles estavam do mesmo lado.
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