Hana não lembrava direito do caminho de volta para casa.
As luzes da rua passavam borradas pelas lágrimas, e o vento frio parecia zombar dela por ter acreditado que, finalmente, a vida estava em paz.
“Ex-noiva.”
As palavras ecoavam, insistentes.
Não importava o quanto tentasse racionalizar — doía.
Ela se trancou no apartamento, jogou a bolsa no sofá e ficou parada, olhando o nada.
O coração pulsava rápido, misturando medo, raiva e saudade.
Ele devia ter me contado.
Não porque fosse errado ter um passado, mas porque esconder era o mesmo que deixar uma sombra entre eles.
O som de uma batida suave na porta a fez sobressaltar.
Ela hesitou, limpou o rosto com as mãos e foi atender.
Ji-Won.
Molhado da chuva, o olhar desesperado, como se tivesse atravessado a cidade inteira correndo.
— Hana, por favor… eu preciso falar com você.
Ela cruzou os braços, tentando parecer firme.
— Não sei se é uma boa hora.
— Então me deixa tentar fazê-la ser. — A voz dele falhou no fim, e algo dentro dela se partiu um pouco mais.
Hana abriu a porta.
Ji-Won entrou, mas ficou de pé, sem se aproximar.
O silêncio entre eles parecia o mesmo que existia antes de tudo começar — só que agora cheio de história.
— Eu devia ter te contado sobre Yoon-Hee — começou. — Não porque ela ainda significasse algo, mas porque eu devia ter sido honesto desde o começo.
— Por que não foi? — Hana perguntou, com o olhar ferido. — Eu não sou uma criança, Ji-Won.
Ele passou a mão pelos cabelos, frustrado.
— Eu estava tentando proteger o que a gente tem. O relacionamento que tive com ela terminou de um jeito r**m. Ela… manipulava tudo. Eu achei que se nunca falasse sobre isso, o passado não teria poder sobre o presente.
Hana deu um riso curto, amargo.
— Mas o passado sempre encontra um jeito de voltar, não é?
— Sim — ele admitiu. — E agora está tentando destruir o que ainda nem começamos direito.
Hana desviou o olhar, o coração dividido.
— Você confia em mim agora, Ji-Won?
Ele deu um passo à frente.
— Com tudo que eu sou.
— Então me deixa confiar em você também — ela disse, firme. — E pra isso… eu preciso de verdade, não de silêncio.
Ji-Won assentiu, o olhar marejado.
— Eu prometo. Sem mais segredos.
Antes que pudesse dizer algo mais, o celular dele vibrou.
Era uma mensagem.
Ele olhou rapidamente — e o rosto mudou.
— É ela — murmurou.
— Yoon-Hee?
Ele assentiu.
Mostrou a tela:
“Se quiser que eu desapareça de vez, venha me encontrar. Tenho algo que você precisa ver.”
Hana cerrou os punhos.
— Parece uma armadilha.
— Provavelmente é. — Ji-Won respirou fundo. — Mas se ela tem algo que pode te afetar… eu não posso ignorar.
Hana o encarou.
— Então eu vou com você.
— Não — ele respondeu de imediato. — Eu não quero que ela te envolva nisso.
— Ela já me envolveu. — A voz de Hana era calma, mas decidida. — E eu não vou mais ser espectadora da minha própria história.
Ji-Won a olhou por um longo momento.
Depois assentiu.
— Tudo bem. Vamos juntos.
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O encontro foi num café fechado, nos arredores da cidade.
Quando chegaram, Yoon-Hee estava lá — impecável, fria, com um sorriso calculado.
— Vocês vieram — disse, cruzando as pernas. — Que adorável.
Ji-Won foi direto:
— O que você quer?
Yoon-Hee ergueu uma sobrancelha.
— Quero que admita que ainda sente algo por mim. Assim eu sumo, deixo vocês em paz.
Hana deu um passo à frente.
— Isso é patético.
Yoon-Hee riu.
— Patético é acreditar que um homem como Ji-Won consegue amar alguém depois do que viveu. Eu o conheço. Ele se apaixona pelo desafio, não pela mulher.
As palavras eram veneno puro.
Hana apertou os dentes, mas Ji-Won segurou sua mão discretamente.
Um gesto pequeno, mas firme.
— Você está errada — ele disse. — Eu não amava você. Eu amava o que pensava que o amor era: controle. Com a Hana é diferente. É real.
O rosto de Yoon-Hee endureceu.
— Então é isso? Vai jogá-la contra mim?
— Você já fez isso sozinha — Ji-Won respondeu.
Por um segundo, algo que parecia tristeza passou pelo olhar dela, logo substituído por raiva.
— Eu vou fazer vocês se arrependerem.
Ela se levantou bruscamente e saiu.
Do lado de fora, o vento uivava.
Hana olhou para Ji-Won, o coração acelerado.
— Ela não vai parar.
— Então nós também não. — Ele se aproximou. — Eu prometo que dessa vez, se vier tempestade, a gente enfrenta juntos.
Hana respirou fundo.
As lágrimas vieram, mas eram diferentes — não de dor, mas de alívio.
Ela encostou a testa no peito dele.
— Juntos, então.
Ji-Won envolveu o rosto dela nas mãos.
— Juntos.
O barulho da chuva começou lá fora.
Mas, dentro do café vazio, havia silêncio — um silêncio firme, cheio de promessas novas.
Não era o fim do drama.
Era o começo da luta verdadeira.
E, pela primeira vez, eles estavam do mesmo lado.