Hana passou a manhã inteira revendo números, respondendo e-mails, fingindo que a torrente de emoções da semana não a atingia. A sede de provar que pertencia àquele lugar a mantinha concentrada — até que, no fim da tarde, ouviu o som que sempre a fazia gelar: passos de salto ecoando pelo corredor.
Soo-Yeon.
Ela surgiu na entrada da sala como uma tempestade elegante — maquiagem perfeita, sorriso calculado, olhos que brilhavam com malícia contida. Atrás dela, dois assessores com pranchetas obedeciam como sombras. O ar pareceu encolher.
— Hana, posso falar com você um minuto? — Soo-Yeon disse, com uma voz que misturava doçura e veneno.
Hana sentiu a garganta apertar, mas algo na sua boca já não permitia recuar. Nos últimos dias havia colecionado pequenas humilhações; hoje não iria mais ser peça do jogo silencioso daquela mulher.
Ela levantou-se da mesa.
— Claro — respondeu, firme.
Eles caminharam até um corredor menos movimentado, onde o tapete abafava o som dos saltos. Soo-Yeon parou e cruzou os braços.
— Você é bem atrevida para alguém que ainda não provou nada por aqui — disse a vilã, com um sorriso que não alcançava os olhos.
Hana engoliu. As palavras vinham afiadas como lâminas ensaiadas.
— Não vim aqui para brigar — respondeu. — Vim trabalhar. E cumprir meu contrato.
Soo-Yeon riu, curta.
— Trabalho? — repetiu, incrédula. — Você acha que a Haneul é uma creche para estrangeiras com histórias tristes? Há regras, Hana. E algumas pessoas… deviam saber seu lugar.
O sangue de Hana ferveu, mas ela conseguiu controlar a voz.
— Eu sei meu lugar. É aqui. No meu trabalho.
Soo-Yeon se aproximou, diminuindo o espaço entre as duas, e sussurrou, venenosa:
— Eu encontrei coisas sobre você, sabia? Pequenas coisas. Fotografias. Documentos. Um marido que não foi tão bondoso quanto dizia. Pessoas gostam de acreditar em versões mais fáceis. Mas eu gosto de verdades. E verdades são poderosas.
Hana sentiu o chão sumir. A menção ao marido trouxe à superfície memórias que ela tentava enterrar: as promessas quebradas, a traição, a humilhação pública que moldou seu recomeço. Soo-Yeon sorriu como se oferecesse uma alternativa c***l — perdão em troca de submissão.
— O que você quer? — Hana perguntou, com a voz tremendo apenas um pouco.
— Quero que você desista — Soo-Yeon respondeu, fria. — Que volte para seu país. Que desapareça antes que cause mais… complicações.
Hana respirou fundo. A vontade de fugir era real e antiga. Mas havia outra vontade, nova e mais pesada: a vontade de não se encolher mais.
— Eu não vou embora — disse ela, finalmente. — Não por medo. Nem por chantagem.
Soo-Yeon ergueu uma sobrancelha, como se aquilo fosse engraçado.
— Você tem coragem, é verdade. Mas coragem não sustenta reputações. Eu posso destruir sua imagem aqui em minutos. Uma mentira bem colocada, um print falso, e as pessoas acreditam. Você entende? Eu posso fazer você perder tudo.
Hana sentiu novamente a vertigem da ameaça, mas desta vez algo dentro dela estalou: cansaço do esconderijo, do medo, da vida que sempre pedia que ela diminuísse.
— E se você tentar — disse Hana, com a voz revelando uma calma que surpreendeu até a si mesma — vou mostrar o que realmente sou. Não vou me envergonhar das minhas cicatrizes para que você se sinta poderosa. Eu trabalho aqui porque mereço. E se você quer guerra, vamos ter guerra. Mas eu não saio.
Soo-Yeon ficou muda por um segundo, porque ninguém falava com ela assim — ninguém que não estivesse sob seu pulso. O silêncio foi cortado por um som distante: passos apressados.
Ji-Won apareceu no fim do corredor como uma presença que não se anunciava, mas que ordenava respeito. Ele tinha o terno impecável, a expressão fechada, e algo nos olhos que mostrava que não fora enganado por aparências. Soo-Yeon sorriu de uma forma forçada, tentando recuperar o controle.
— Ji-Won — disse ela, curvando-se levemente — apenas conversávamos.
Ele não sorriu. Caminhou até elas, passando por Soo-Yeon, e parou à frente de Hana. Por um instante, Hana viu nele uma parede e, ao mesmo tempo, uma clareira de calor que não sabia como interpretar.
— O que houve aqui? — perguntou ele, a voz baixa.
Soo-Yeon já ensaiava uma resposta, pronta para manipular a narrativa, mas Ji-Won a cortou com um olhar que fazia a mulher recuar.
— Não crie problemas desnecessários — disse ele.
Soo-Yeon abriu a boca, contrariada, mas sua máscara começou a rachar. Ela olhou para Hana com desprezo e tentou soar mais ameaçadora:
— Só lembrando que reputações são… frágeis.
Ji-Won desviou o olhar para Hana, e algo mudou no ar. Por um milésimo de segundo, ele deixou a linguagem formal do CEO cair.
— Hana não está sozinha aqui.
A frase foi simples, mas tinha o peso de uma decisão.
Soo-Yeon, vendo a cumplicidade emergente, lançou um último aviso e virou-se para ir embora, seus assessores a seguindo como marionetes.
Quando a distância entre elas aumentou, Ji-Won permaneceu ao lado de Hana. O corredor parecia menor, intimista — como o mundo reduzido àquelas duas respirações.
Hana sentiu o calor da presença dele como uma promessa silenciosa. Por pura e corajosa impulsão, estendeu a mão e segurou a dele.
Não foi um gesto dramático; foi pequeno, firme, humano. Seus dedos encontraram a pele morna do homem que só sabia comandar. Ele não puxou a mão. Não retirou. Em vez disso, olhou para baixo, encarando os dedos entrelaçados, e, pela primeira vez desde que se lembrava, Ji-Won sorriu com verdade — não o esboço frio que ele costumava mostrar ao mundo, mas algo quebrado e genuíno.
— Obrigado — murmurou Hana, voz baixa. Ela sentiu que, naquele toque, havia mais do que apoio: havia um começo.
Ji-Won apertou a mão dela, porém não com possessão, e sim com a promessa de que, se alguém ousasse atacá-la, ele estaria lá.
Soo-Yeon não voltou. Mas a guerra havia mudado de figura: agora havia um guardião ao lado de Hana — e ele não fugiria.
E ali, no corredor iluminado por lâmpadas quentes, Hana percebeu que a coragem não vinha apenas do silêncio interior; vinha da mão que segurava a sua