O comboio para Aix-en-Provence partiu às 6h42 da manhã, entre a névoa e o ranger metálico das linhas. Camila não levou muita coisa. Uma mochila pequena, o telemóvel desligado, e o cartão que Mateo lhe deu com o código da casa segura onde deveria ficar. Mandou uma mensagem curta para Madame Elise a dizer que precisava de “alguns dias”. Nem esperava resposta.
Dentro do comboio, tudo parecia suspenso. As paisagens passavam pela janela como quadros lavados de pressa, mas ela não via nada. A cabeça estava demasiado cheia. Jean Duret estava morto. Mateo disse-lhe para desaparecer. E Dante... Dante continuava a surgir como um fantasma com voz real. Mensagens, pedras, palavras que a perseguiam mesmo em silêncio.
Ela já não era a mesma mulher que lavava pratos num restaurante m*l iluminado em Marselha. Mas também ainda não era outra. Sentia-se a meio caminho entre duas versões de si — uma a ser apagada, outra a ser forjada à força.
---
A casa em Aix era discreta. Fachada simples, persianas fechadas, jardim pequeno mas limpo. Estava vazia, como prometido. Uma cozinha moderna, dois quartos, sistema de segurança visível só a quem sabia procurar. Camila trancou a porta, passou o dia a andar de um lado para o outro dentro da casa, como se o chão estivesse em constante movimento. Dormiu m*l. Não sonhou.
No segundo dia, sentou-se na varanda com um bloco de notas e uma caneta. Tentou escrever alguma coisa. Qualquer coisa. Mas a página ficou em branco durante horas. No fim, riscou no centro da folha a palavra "escolhe", e depois rasgou-a.
Naquela noite, o silêncio da casa tornou-se insuportável. O tique-taque do relógio na parede, o som do vento a bater nos estores, o próprio respirar. Tudo gritava. Foi para a cozinha e abriu uma garrafa de vinho. Bebeu um copo. Depois outro.
À terceira taça, decidiu sair.
---
Andou pelas ruas de Aix como quem procura algo sem nome. As lojas estavam a fechar, os cafés enchiam-se de conversas leves, casais trocavam beijos nos passeios. Ela sentia-se deslocada. Uma peça errada num tabuleiro errado.
Entrou num bar pequeno com luz baixa e música de jazz a tocar num volume ideal para esconder silêncios. Pediu uma bebida. Depois outra. Sentou-se no fundo da sala. A observar. Era o que sabia fazer melhor. Estudar movimentos, gestos, sorrisos falsos, olhos que diziam mais do que as palavras. Ali, naquele lugar que não a conhecia, ela era de novo invisível. E isso dava-lhe estranha liberdade.
— Tens o olhar de quem espera um sinal. — disse uma voz masculina, aproximando-se.
Camila ergueu os olhos. Um homem, provavelmente com uns quarenta e poucos anos, ar intelectual, barba por fazer e camisa de linho aberta no colarinho.
— E tu tens o tom de quem fala por hábito. — respondeu, seca.
Ele riu-se.
— Guilherme. — estendeu a mão.
Ela hesitou, mas apertou. — Clara.
— Sozinha?
— Por opção.
— Isso é raro.
— Isso é necessário.
Ele não insistiu. Pediu um copo para ele. Falaram pouco. Sobre nada. E por isso mesmo, sobre tudo. Camila precisava daquilo — uma conversa neutra, sem código, sem perigo. Por um momento, quase esqueceu onde estava. Quem era.
No fim, levantou-se. Ele ofereceu boleia. Recusou. Disse boa noite e saiu antes de perder o controle da realidade que ainda a esperava de volta.
Mas ao chegar a casa, encontrou um envelope colado à porta.
Branco. Sem marcas. Sem nome.
Dentro, apenas uma folha com uma frase:
“Não confies no silêncio. Ele costuma preceder o disparo.”
Era Dante. De novo. De alguma forma, ele sabia. Sabia onde ela estava. O que fazia. Com quem falava.
Ela encostou-se à porta. O coração batia rápido, mas não de medo. E foi aí que percebeu o mais inquietante: já não sentia medo algum.
---
Passaram-se três dias. Mateo não contactou. Nenhuma ordem, nenhuma atualização, nenhum sinal. Camila aproveitou para estudar. Leu dossiês antigos. Estudou rotas de dinheiro, nomes cruzados em listas, contratos simulados. Começou a montar um mapa mental de tudo o que tinha aprendido até ali. E percebeu que havia padrões. Rastos de poder. Caminhos que se cruzavam. E quase sempre, o nome Moreau pairava por trás, como uma sombra que não assinava, mas movia.
Dante estava em todo o lado. Mesmo quando não aparecia.
Na tarde do sexto dia, o telemóvel tocou.
— Regressa. — disse a voz de Mateo, seca. — Amanhã temos reunião. Vais comigo.
Camila não perguntou mais. Sabia que o silêncio dele até ali não era por distração. Era estratégia.
---
Marselha estava diferente. Ou talvez fosse ela que estivesse. As ruas pareciam mais ruidosas, os olhares mais inquietos. Camila chegou à sede onde Mateo operava agora com maior frequência — um antigo edifício reformado, com sistema de segurança próprio e andares onde as paredes pareciam observar.
Mateo esperava no andar de cima. Camisa preta, mangas dobradas, olhar sério.
— Reunião com o pessoal de Nice. Há tensão no ar. Um carregamento desapareceu. Há suspeitas de que alguém de dentro facilitou. — explicou.
— E eu?
— Vais observar. Só isso. Nada de falar. Mas quero-te lá. Há rostos que precisam de se lembrar que temos olhos em todo o lado.
Camila assentiu.
— E se alguém fizer perguntas?
— Mostra os olhos que usaste com o Jean Duret. Ninguém quer fazer perguntas a alguém que possa mentir sem piscar.
---
A reunião foi num armazém reformado. Nove pessoas à volta de uma mesa longa. Mateo ao centro. Camila a dois lugares de distância, calada. Um homem ruivo, acento do norte, levantou a voz. Discutiam percentagens, distribuição, perdas.
— E se o Dante decidir que já chega? — atirou o ruivo, mais alto.
Mateo ergueu os olhos, lento. Se o Dante quiser mexer-se… vai perceber que já não estamos à espera..
Camila não mexeu um músculo. Mas por dentro, o corpo todo vibrou. Mateo estava a arriscar. Estava a provocar.
— Ele não perdoa traições. — disse outro homem, mais velho, magro, com olhos pequenos.
— Eu também não. — disse Mateo.
Depois disso, a reunião encerrou com formalidades fingidas e mãos que não apertavam com sinceridade. Camila saiu ao lado de Mateo. Mas ele parou antes de entrar no carro.
— Queres saber o que me incomoda?
— Sempre.
— A calma dele. A ausência. Parece que estamos a falar com um nome, não com um homem.
Camila olhou-o. — E se for isso mesmo?
Mateo fitou-a. — O quê?
— Um nome. Que já não precisa de estar presente para assustar.
Mateo não respondeu. Mas ficou mais calado do que o habitual no resto do caminho.
---
Naquela noite, Camila voltou ao apartamento.
Encontrou a porta trancada. Tudo normal. Mas no espelho da casa de banho, escrito com vapor, uma única palavra:
"Alvo."
Ela apagou com a palma da mão.
E deitou-se com os olhos abertos.