CAPÍTULO 5 — CICATRIZES EM SILÊNCIO

1150 Words
O comboio para Aix-en-Provence partiu às 6h42 da manhã, entre a névoa e o ranger metálico das linhas. Camila não levou muita coisa. Uma mochila pequena, o telemóvel desligado, e o cartão que Mateo lhe deu com o código da casa segura onde deveria ficar. Mandou uma mensagem curta para Madame Elise a dizer que precisava de “alguns dias”. Nem esperava resposta. Dentro do comboio, tudo parecia suspenso. As paisagens passavam pela janela como quadros lavados de pressa, mas ela não via nada. A cabeça estava demasiado cheia. Jean Duret estava morto. Mateo disse-lhe para desaparecer. E Dante... Dante continuava a surgir como um fantasma com voz real. Mensagens, pedras, palavras que a perseguiam mesmo em silêncio. Ela já não era a mesma mulher que lavava pratos num restaurante m*l iluminado em Marselha. Mas também ainda não era outra. Sentia-se a meio caminho entre duas versões de si — uma a ser apagada, outra a ser forjada à força. --- A casa em Aix era discreta. Fachada simples, persianas fechadas, jardim pequeno mas limpo. Estava vazia, como prometido. Uma cozinha moderna, dois quartos, sistema de segurança visível só a quem sabia procurar. Camila trancou a porta, passou o dia a andar de um lado para o outro dentro da casa, como se o chão estivesse em constante movimento. Dormiu m*l. Não sonhou. No segundo dia, sentou-se na varanda com um bloco de notas e uma caneta. Tentou escrever alguma coisa. Qualquer coisa. Mas a página ficou em branco durante horas. No fim, riscou no centro da folha a palavra "escolhe", e depois rasgou-a. Naquela noite, o silêncio da casa tornou-se insuportável. O tique-taque do relógio na parede, o som do vento a bater nos estores, o próprio respirar. Tudo gritava. Foi para a cozinha e abriu uma garrafa de vinho. Bebeu um copo. Depois outro. À terceira taça, decidiu sair. --- Andou pelas ruas de Aix como quem procura algo sem nome. As lojas estavam a fechar, os cafés enchiam-se de conversas leves, casais trocavam beijos nos passeios. Ela sentia-se deslocada. Uma peça errada num tabuleiro errado. Entrou num bar pequeno com luz baixa e música de jazz a tocar num volume ideal para esconder silêncios. Pediu uma bebida. Depois outra. Sentou-se no fundo da sala. A observar. Era o que sabia fazer melhor. Estudar movimentos, gestos, sorrisos falsos, olhos que diziam mais do que as palavras. Ali, naquele lugar que não a conhecia, ela era de novo invisível. E isso dava-lhe estranha liberdade. — Tens o olhar de quem espera um sinal. — disse uma voz masculina, aproximando-se. Camila ergueu os olhos. Um homem, provavelmente com uns quarenta e poucos anos, ar intelectual, barba por fazer e camisa de linho aberta no colarinho. — E tu tens o tom de quem fala por hábito. — respondeu, seca. Ele riu-se. — Guilherme. — estendeu a mão. Ela hesitou, mas apertou. — Clara. — Sozinha? — Por opção. — Isso é raro. — Isso é necessário. Ele não insistiu. Pediu um copo para ele. Falaram pouco. Sobre nada. E por isso mesmo, sobre tudo. Camila precisava daquilo — uma conversa neutra, sem código, sem perigo. Por um momento, quase esqueceu onde estava. Quem era. No fim, levantou-se. Ele ofereceu boleia. Recusou. Disse boa noite e saiu antes de perder o controle da realidade que ainda a esperava de volta. Mas ao chegar a casa, encontrou um envelope colado à porta. Branco. Sem marcas. Sem nome. Dentro, apenas uma folha com uma frase: “Não confies no silêncio. Ele costuma preceder o disparo.” Era Dante. De novo. De alguma forma, ele sabia. Sabia onde ela estava. O que fazia. Com quem falava. Ela encostou-se à porta. O coração batia rápido, mas não de medo. E foi aí que percebeu o mais inquietante: já não sentia medo algum. --- Passaram-se três dias. Mateo não contactou. Nenhuma ordem, nenhuma atualização, nenhum sinal. Camila aproveitou para estudar. Leu dossiês antigos. Estudou rotas de dinheiro, nomes cruzados em listas, contratos simulados. Começou a montar um mapa mental de tudo o que tinha aprendido até ali. E percebeu que havia padrões. Rastos de poder. Caminhos que se cruzavam. E quase sempre, o nome Moreau pairava por trás, como uma sombra que não assinava, mas movia. Dante estava em todo o lado. Mesmo quando não aparecia. Na tarde do sexto dia, o telemóvel tocou. — Regressa. — disse a voz de Mateo, seca. — Amanhã temos reunião. Vais comigo. Camila não perguntou mais. Sabia que o silêncio dele até ali não era por distração. Era estratégia. --- Marselha estava diferente. Ou talvez fosse ela que estivesse. As ruas pareciam mais ruidosas, os olhares mais inquietos. Camila chegou à sede onde Mateo operava agora com maior frequência — um antigo edifício reformado, com sistema de segurança próprio e andares onde as paredes pareciam observar. Mateo esperava no andar de cima. Camisa preta, mangas dobradas, olhar sério. — Reunião com o pessoal de Nice. Há tensão no ar. Um carregamento desapareceu. Há suspeitas de que alguém de dentro facilitou. — explicou. — E eu? — Vais observar. Só isso. Nada de falar. Mas quero-te lá. Há rostos que precisam de se lembrar que temos olhos em todo o lado. Camila assentiu. — E se alguém fizer perguntas? — Mostra os olhos que usaste com o Jean Duret. Ninguém quer fazer perguntas a alguém que possa mentir sem piscar. --- A reunião foi num armazém reformado. Nove pessoas à volta de uma mesa longa. Mateo ao centro. Camila a dois lugares de distância, calada. Um homem ruivo, acento do norte, levantou a voz. Discutiam percentagens, distribuição, perdas. — E se o Dante decidir que já chega? — atirou o ruivo, mais alto. Mateo ergueu os olhos, lento. Se o Dante quiser mexer-se… vai perceber que já não estamos à espera.. Camila não mexeu um músculo. Mas por dentro, o corpo todo vibrou. Mateo estava a arriscar. Estava a provocar. — Ele não perdoa traições. — disse outro homem, mais velho, magro, com olhos pequenos. — Eu também não. — disse Mateo. Depois disso, a reunião encerrou com formalidades fingidas e mãos que não apertavam com sinceridade. Camila saiu ao lado de Mateo. Mas ele parou antes de entrar no carro. — Queres saber o que me incomoda? — Sempre. — A calma dele. A ausência. Parece que estamos a falar com um nome, não com um homem. Camila olhou-o. — E se for isso mesmo? Mateo fitou-a. — O quê? — Um nome. Que já não precisa de estar presente para assustar. Mateo não respondeu. Mas ficou mais calado do que o habitual no resto do caminho. --- Naquela noite, Camila voltou ao apartamento. Encontrou a porta trancada. Tudo normal. Mas no espelho da casa de banho, escrito com vapor, uma única palavra: "Alvo." Ela apagou com a palma da mão. E deitou-se com os olhos abertos.
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