CAPÍTULO 4 — COMO UM FIO DE NAVALHA

1108 Words
O céu de Marselha amanheceu coberto de nuvens espessas, o tipo de cinzento que engolia a luz e deixava tudo mais denso. As ruas pareciam mais estreitas, os olhares mais pesados, e o silêncio dos becos tornou-se quase opressivo. Camila caminhava com passos firmes, Por dentro, tudo era caos. Marselha seguia a sua rotina ruidosa, mas ela sentia-se como uma estranha, como se já não pertencesse a lugar nenhum. — estava num campo de batalha onde cada palavra podia ser uma arma. A carta que tinha encontrado na noite anterior, escrita numa caligrafia firme e sem assinatura, ainda estava dobrada dentro do casaco. "Quando te deres conta, já estarás do outro lado. Escolhe depressa. Ou alguém vai escolher por ti." Camila não era ingénua. Aquela mensagem tinha o tom de Dante. Não pelo conteúdo em si, mas pela forma como a deixava inquieta. Aquela voz silenciosa que a acompanhava mesmo na ausência. Era como se ele estivesse sempre ali, a observar. E ela não sabia se isso a fazia sentir protegida… ou vigiada. Mateo tinha-lhe dito para o encontrar num edifício novo, junto ao porto. Um espaço de fachada limpa, espelhada, onde as paredes pareciam esconder tudo menos transparência. Ela subiu sozinha. No elevador, o próprio reflexo pareceu-lhe de uma estranha — olhos duros, que já não hesitavam. A porta abriu-se. Mateo estava encostado numa grande janela de vidro, a olhar para os contentores a serem descarregados ao longe. — Lembras-te do nome Jean Duret? — perguntou, sem sequer se virar. Camila aproximou-se devagar. — Intermediário financeiro. Trabalha com operações paralelas entre Marselha, Paris e Genebra. Um rato com acesso a queijo de luxo. Mateo soltou um riso breve. — Gosto da tua definição. Vais encontrá-lo esta noite. Ela manteve o rosto neutro. — Em meu nome? Mateo virou-se. — Em nome do Dante. As palavras bateram-lhe no peito como murros secos. Manteve-se imóvel, mas os músculos contraíram-se sob a roupa. — Isso é perigoso. — É. — respondeu ele com naturalidade. — Mas útil. Quero saber até onde podemos ir sem reação. Jean é vaidoso, superficial. Se acha que está a negociar com Moreau, vai expor-se. Tu és a isca. Camila não respondeu de imediato. A isca. A ponte entre dois mundos. A mulher no meio da guerra. — E se o Dante descobrir? — Se o Dante reparar em ti… é porque fizemos barulho suficiente.. Ela mordeu o lábio inferior. Já não havia lugar para inocência naquele jogo. Já nem havia lugar para certezas. --- Mais tarde, sentada num banco de pedra à beira do porto velho, Camila esperava. O vento gelado despenteava-lhe o cabelo, mas ela não se mexia. O casaco justo escondia o colete discreto com o microfone. A pasta de couro no colo guardava documentos — alguns verdadeiros, outros fabricados. Jean Duret apareceu do nada. Alto, ar académico, blazer claro sobre a camisa azul-clara, e um sorriso plástico. — Mademoiselle Rangel? Ela levantou-se. Estendeu a mão com firmeza. — Em nome do senhor Moreau. Jean piscou ligeiramente os olhos, surpreso. — Ele não costuma mandar terceiros. Camila sorriu. — Talvez esteja a mudar de estratégia. Entraram num pequeno restaurante escondido atrás de um armazém. Reservado. Discreto. Camila falou com exactidão. Apresentou-lhe os “dados” que Mateo lhe deu. Fez perguntas camufladas. Criou um laço de confiança sem revelar nada real. Tudo era representação — mas ela não se sentia falsa. Sentia-se cada vez mais real. Jean parecia cada vez mais à vontade, partilhando detalhes sobre movimentações financeiras com um orgulho que beirava a arrogância. E quando a conta chegou, Camila levantou-se primeiro. — Dir-lhe-ei que correu bem. — disse, e saiu. Lá fora, o frio voltou a atingir-lhe a pele como gelo. Mas o coração batia quente. Sabia que tinha cumprido. Que tinha passado o teste. O carro preto já a esperava ao fundo da rua. --- Mateo conduzia em silêncio. Camila não perguntou nada. Quando chegaram ao apartamento onde ele agora vivia temporariamente, ele saiu primeiro, esperou que ela o seguisse. Lá dentro, serviu dois copos de conhaque. Ofereceu-lhe um. — Foste brilhante. Ela bebeu sem brindar. — Ele acreditou. Mateo observou-a. — E tu? Ela franziu o sobrolho. — Eu? — Em quem acreditas, Camila? Em ti própria… ou em quem te dá ordens? A pergunta ficou no ar como uma armadilha. — Em mim. — respondeu, por fim. Mateo sorriu. — Resposta certa. Por agora. O silêncio entre os dois ganhou outra textura. Havia desejo ali, mas também perigo. Proximidade… e cálculo. Quando Mateo se aproximou mais, Camila não recuou, mas também não cedeu. — Ainda achas que me podes controlar? — perguntou, num tom baixo. — Eu não controlo ninguém. — respondeu ele. — Só ofereço caminhos. Alguns levam ao topo. Outros, à morte. — E tu estás em qual? Mateo encostou o copo sobre a mesa. — Ainda estou a subir. Mas não me importo de derrubar quem estiver no caminho. --- Nessa noite, Camila regressou ao apartamento sozinha. E não estava vazia. Sobre a mesa, mais uma carta. Papel grosso. Escrita directa: "Estás a encostar-te demasiado a um lado. Quando o chão cair, não digas que não te avisei." Desta vez, a assinatura estava lá. Um traço simples, inclinado: D. Camila sentou-se na cama. A cabeça entre as mãos. O quarto pareceu-lhe mais pequeno do que nunca. E pela primeira vez, sentiu vontade de fugir. Mas fugir já não era uma opção. --- Dois dias depois, Mateo chamou-a de novo. Mas o tom era diferente. Urgente. — Duret está morto. — disse, sem rodeios. Camila congelou. — O quê? — Foi encontrado esta manhã. Balázios no peito. Execução limpa. Ela sentou-se. — Fui a última pessoa com quem ele falou. — Exactamente. Por isso vais desaparecer. Por uns dias. Temos uma casa segura em Aix-en-Provence. Camila olhou para ele. — Achas que foi o Dante? Mateo não respondeu de imediato. Depois, apenas disse: — Não sei. Mas ele saberá que tu sabes. Ela levantou-se. — E tu? O que vais fazer? — O que sempre faço. Sobreviver. --- Naquela noite, quando já se preparava para sair da cidade, Camila encontrou algo dentro do bolso do casaco — algo que jurava não estar ali antes. Uma pedra lisa. Escura. E no verso, escrita com caneta prateada, a palavra: "Escolhe." Ela fechou a mão sobre o objeto. Dante tinha estado com ela. De novo. Sem que percebesse. Sem que o visse. E deixara um aviso. Ou um convite. Ou uma ameaça. Camila não sabia o que mais temia: os homens que a puxavam em direcções opostas… ou a versão de si mesma que nascia no meio desse jogo..
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