O amanhecer chegou sem cor. O céu de Marselha estava coberto por uma névoa que abafava a luz e o som. Dentro do apartamento, o silêncio persistia, mas agora não era denso — era oco. Como se a noite anterior tivesse levado tudo o que fazia sentido. Camila acordou com o corpo pesado, como se tivesse carregado sacos de cimento no sono. Mas sabia que não era o corpo — era o que vinha por dentro. O que ficou pendurado no olhar de Dante, o que se escondia nas palavras medidas, nas pausas prolongadas, nas ordens dadas sem explicações. Sentou-se na cama. O telemóvel estava em cima da mesa de cabeceira. Nenhuma notificação. Nenhuma mensagem nova. Apenas o peso da espera. Dante tinha dito que enviaria instruções. Mas a ausência dele era, por si só, uma mensagem. Levantou-se. Fez café mecanicamen

