O quarto estava abafado. Não pelo calor — Marselha estava fria naquela manhã —, mas por tudo o que não se dizia. Camila não dormia bem há dias. O colchão já moldava o corpo dela, os lençóis estavam desalinhados, e a almofada cheirava a indecisão. O mundo fora daquele espaço parecia mais simples. Dentro, era um campo minado de escolhas erradas. Levantou-se sem fazer barulho. A cidade ainda bocejava, mas o corpo dela já funcionava no modo sobrevivência. Banho rápido. Rosto limpo. Cabelo preso num coque apressado. Estava diferente, e ela sabia. Não era só a forma como se movia, mas o olhar — que agora parava em tudo com uma dúvida a meio caminho. Vestiu-se com cuidado: jeans escuros, botas rasas, camisola justa de gola alta e um casaco comprido. Não por estilo — já não se dava a esses luxos

