Naquela tarde, depois de ler cada página da pasta deixada por Dante, Camila saiu do teatro em silêncio. A cabeça pesava mais do que o corpo. Voltou para casa devagar, como se cada passo fosse uma escolha. Dormiu pouco nessa noite. E quando acordou, a cidade parecia diferente.
O som de Marselha naquela manhã parecia filtrado por um vidro grosso. Camila acordou antes do alarme. Os lençóis estavam amarrotados, o quarto mergulhado numa penumbra que não pertencia apenas à ausência de sol — era como se a escuridão se agarrasse às paredes.
Sentou-se na cama, de costas direitas, sem se espreguiçar. O corpo ainda carregava a tensão dos dias anteriores. A pasta que Dante lhe entregou no teatro continuava sobre a mesa, fechada, como um aviso. Não teve coragem de a abrir de novo desde que leu o dossiê pela primeira vez. Mas o nome na capa — Mateo Ricci — parecia vibrar na sua direção sempre que passava por ali.
Ligou o telemóvel.
Uma única mensagem de Mateo:
> “Encontro às 9h. Roupa escura. Vais comigo.”
Nada mais.
Camila largou o telemóvel sobre a mesa e caminhou até à janela. O céu estava pálido, cinzento, como um campo de batalha depois da chuva. Havia algo no ar. Algo por vir.
Vestiu-se com cuidado. Escolheu roupas neutras — calças pretas, blusa cinzenta, casaco de corte militar. Botas sem salto. Prendeu o cabelo num r**o de cavalo apertado. Pegou na arma pequena que Mateo lhe deu semanas antes. E, sem perceber bem porquê, meteu também a pasta do Dante na mochila.
Saiu de casa sem tomar pequeno-almoço. A fome era uma memória distante. Havia coisas mais urgentes a digerir.
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Mateo esperava junto ao porto, encostado a um carro alugado, a fumar um cigarro com ar calmo demais para quem estava prestes a lançar alguém num possível confronto.
— Vais conduzir. — disse ele, entregando-lhe a chave.
Camila não protestou. Ligou o carro e esperou pelas indicações. Mateo dava-as com gestos curtos, como quem não queria ser ouvido nem pelo vento.
Estradas secundárias. Armazéns industriais abandonados. Entraram por uma rua estreita até uma porta lateral enferrujada. O local cheirava a metal, óleo velho e silêncio usado.
— O que é isto? — perguntou Camila, ao sair do carro.
— Um sinal. — respondeu Mateo. — Ou uma armadilha. Vamos ver.
Lá dentro, três homens esperavam. Um fumava, outro mantinha a mão no casaco, e o terceiro observava-a como quem mede o peso de uma ameaça. Todos armados. Nenhum interessado em gentilezas.
Mateo apresentou-a de forma seca.
— Ela faz parte da minha equipa.
— A tua equipa está a ser investigada. — disse o que fumava. — Um carregamento desapareceu. E os rastos apontam para alguém do teu lado.
— Eu conheço os meus. — respondeu Mateo. — Mas posso encontrar quem se faz passar por eles.
— Tens até esta noite. Depois disso, o jogo muda.
Os homens saíram sem mais palavras. Camila e Mateo ficaram sozinhos por uns segundos. O silêncio pesava.
— Queres explicar? — perguntou ela, finalmente.
— Estás aqui para aprender. Aprende: quando alguém fala pouco, é porque já te decidiu o destino.
— E eu?
— Ainda tens margem.
Mateo virou de costas. Ela ficou uns segundos a olhar para onde os homens tinham desaparecido. Sentiu um frio na espinha. Aquilo não era apenas um aviso. Era um ultimato.
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— Vais encontrar-te com um intermediário. — disse Mateo, dentro do carro. — Nome: Armand Delaunay. Antigo colaborador do Jean Duret. Dizem que sabe onde o carregamento foi desviado.
— E achas que vai falar?
— Ele não sabe que estás a trabalhar para mim. Vai pensar que és alguém do Moreau. Isso pode ajudar.
Camila não respondeu. Estava habituada a vestir máscaras. Mas sabia que, cada vez que colocava uma nova, uma parte dela desaparecia.
Chegaram ao local marcado: um prédio vazio, perto dos trilhos de carga em La Joliette. Mateo ficou no carro. Camila seguiu sozinha.
Subiu as escadas de ferro até ao terceiro andar. O ar cheirava a pó e tinta velha. Lá dentro, uma sala ampla e vazia. Dois homens. Um sentado, outro encostado à parede.
— És a enviada do Ricci? — perguntou o da cadeira, sem se levantar.
Camila não respondeu de imediato.
— Isso depende de quem perguntas.
O homem sorriu. Tinha dentes brancos demais. O outro, junto à parede, mantinha o olhar fixo nela — demasiado fixo.
— Não tens cara de Ricci. Mas gosto de quem fala devagar.
Ela manteve a postura.
— Tens a informação?
— Tenho. Mas não é de graça.
— O que queres?
— Saber para quem realmente trabalha.
O tom mudou. A ameaça surgiu nua. Camila moveu a mão discretamente para o interior do casaco, mas já era tarde. O homem da parede apontava-lhe uma arma.
— Devias ter trazido reforço.
— E trouxe. — disse uma voz firme atrás deles.
Silêncio.
Camila reconheceu a voz de imediato.
Dante.
O homem junto à parede virou-se, mas antes de poder reagir, caiu com um único disparo seco. O outro tentou erguer-se, mas Dante já estava ao lado dele, arma apontada ao peito.
— Senta. — ordenou, e o homem obedeceu.
Camila não se mexeu. O coração disparava, mas o medo não era o sentimento dominante. Era algo mais primitivo. Como se o sangue soubesse algo antes da mente.
— Como sabias que eu estava aqui? — perguntou ela, quando Dante se virou para ela.
— Porque estou um passo à frente do Mateo desde o dia em que te conheceu.
— Ele não sabe que estás aqui?
— Ele acha que ainda te controla. — disse Dante, com uma calma que doía. — Mas já não.
Saíram juntos. Deixaram o homem atado, com um recado colado ao peito:
"A próxima não será só um aviso."
Dante não disse mais nada. Levou-a até ao quarteirão seguinte, depois desapareceu tão rápido como tinha aparecido. Camila voltou para o ponto de encontro com o coração aos pulos — e a mentira já formada na cabeça.
Camila entrou no carro com Mateo. O corpo tremia. Não disse nada. Mateo a olhar para ela.
— Correu bem?
— Estavam armados. Mas consegui sair. — respondeu ela.
— Mais alguém?
— Não. — mentiu.
Mateo assentiu.
— Boa.
Ela soube que ele não acreditou completamente. E soube também que não podia voltar atrás.
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Em casa, Camila abriu a pasta de Dante.
Desta vez, leu com atenção. Cada nome, cada número, cada ligação.
Havia ali uma rede. Pessoas que pareciam fiéis a Mateo, mas estavam a vender-se a outros. E nomes riscados — mortos. Erros que se pagavam com sangue.
No fim, uma frase manuscrita:
> “As estruturas partem sempre de dentro. E tu, Camila… já és parte da fundação.”
Ela pousou os papéis. Respirava com dificuldade.
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Mateo ligou no dia seguinte.
— Alguém interferiu na missão. A fonte confirmou. Sabes de algo?
— Não. — respondeu, firme.
— Estavas lá.
— Saí sozinha. Não vi ninguém.
O silêncio do outro lado prolongou-se.
— Há dias em que pareces demasiado parecida comigo. E isso devia preocupar-te.
— Devia? — devolveu ela.
— Devia. Porque eu sei o que faço quando alguém me mente.
Camila não respondeu.
E naquele momento, soube: o jogo já não era sobre Dante ou Mateo.
Era sobre ela.
E quanto tempo conseguiria manter-se inteira antes de começar a quebrar.