CAPÍTULO 7 — A BRECHA

1240 Words
Naquela tarde, depois de ler cada página da pasta deixada por Dante, Camila saiu do teatro em silêncio. A cabeça pesava mais do que o corpo. Voltou para casa devagar, como se cada passo fosse uma escolha. Dormiu pouco nessa noite. E quando acordou, a cidade parecia diferente. O som de Marselha naquela manhã parecia filtrado por um vidro grosso. Camila acordou antes do alarme. Os lençóis estavam amarrotados, o quarto mergulhado numa penumbra que não pertencia apenas à ausência de sol — era como se a escuridão se agarrasse às paredes. Sentou-se na cama, de costas direitas, sem se espreguiçar. O corpo ainda carregava a tensão dos dias anteriores. A pasta que Dante lhe entregou no teatro continuava sobre a mesa, fechada, como um aviso. Não teve coragem de a abrir de novo desde que leu o dossiê pela primeira vez. Mas o nome na capa — Mateo Ricci — parecia vibrar na sua direção sempre que passava por ali. Ligou o telemóvel. Uma única mensagem de Mateo: > “Encontro às 9h. Roupa escura. Vais comigo.” Nada mais. Camila largou o telemóvel sobre a mesa e caminhou até à janela. O céu estava pálido, cinzento, como um campo de batalha depois da chuva. Havia algo no ar. Algo por vir. Vestiu-se com cuidado. Escolheu roupas neutras — calças pretas, blusa cinzenta, casaco de corte militar. Botas sem salto. Prendeu o cabelo num r**o de cavalo apertado. Pegou na arma pequena que Mateo lhe deu semanas antes. E, sem perceber bem porquê, meteu também a pasta do Dante na mochila. Saiu de casa sem tomar pequeno-almoço. A fome era uma memória distante. Havia coisas mais urgentes a digerir. --- Mateo esperava junto ao porto, encostado a um carro alugado, a fumar um cigarro com ar calmo demais para quem estava prestes a lançar alguém num possível confronto. — Vais conduzir. — disse ele, entregando-lhe a chave. Camila não protestou. Ligou o carro e esperou pelas indicações. Mateo dava-as com gestos curtos, como quem não queria ser ouvido nem pelo vento. Estradas secundárias. Armazéns industriais abandonados. Entraram por uma rua estreita até uma porta lateral enferrujada. O local cheirava a metal, óleo velho e silêncio usado. — O que é isto? — perguntou Camila, ao sair do carro. — Um sinal. — respondeu Mateo. — Ou uma armadilha. Vamos ver. Lá dentro, três homens esperavam. Um fumava, outro mantinha a mão no casaco, e o terceiro observava-a como quem mede o peso de uma ameaça. Todos armados. Nenhum interessado em gentilezas. Mateo apresentou-a de forma seca. — Ela faz parte da minha equipa. — A tua equipa está a ser investigada. — disse o que fumava. — Um carregamento desapareceu. E os rastos apontam para alguém do teu lado. — Eu conheço os meus. — respondeu Mateo. — Mas posso encontrar quem se faz passar por eles. — Tens até esta noite. Depois disso, o jogo muda. Os homens saíram sem mais palavras. Camila e Mateo ficaram sozinhos por uns segundos. O silêncio pesava. — Queres explicar? — perguntou ela, finalmente. — Estás aqui para aprender. Aprende: quando alguém fala pouco, é porque já te decidiu o destino. — E eu? — Ainda tens margem. Mateo virou de costas. Ela ficou uns segundos a olhar para onde os homens tinham desaparecido. Sentiu um frio na espinha. Aquilo não era apenas um aviso. Era um ultimato. --- — Vais encontrar-te com um intermediário. — disse Mateo, dentro do carro. — Nome: Armand Delaunay. Antigo colaborador do Jean Duret. Dizem que sabe onde o carregamento foi desviado. — E achas que vai falar? — Ele não sabe que estás a trabalhar para mim. Vai pensar que és alguém do Moreau. Isso pode ajudar. Camila não respondeu. Estava habituada a vestir máscaras. Mas sabia que, cada vez que colocava uma nova, uma parte dela desaparecia. Chegaram ao local marcado: um prédio vazio, perto dos trilhos de carga em La Joliette. Mateo ficou no carro. Camila seguiu sozinha. Subiu as escadas de ferro até ao terceiro andar. O ar cheirava a pó e tinta velha. Lá dentro, uma sala ampla e vazia. Dois homens. Um sentado, outro encostado à parede. — És a enviada do Ricci? — perguntou o da cadeira, sem se levantar. Camila não respondeu de imediato. — Isso depende de quem perguntas. O homem sorriu. Tinha dentes brancos demais. O outro, junto à parede, mantinha o olhar fixo nela — demasiado fixo. — Não tens cara de Ricci. Mas gosto de quem fala devagar. Ela manteve a postura. — Tens a informação? — Tenho. Mas não é de graça. — O que queres? — Saber para quem realmente trabalha. O tom mudou. A ameaça surgiu nua. Camila moveu a mão discretamente para o interior do casaco, mas já era tarde. O homem da parede apontava-lhe uma arma. — Devias ter trazido reforço. — E trouxe. — disse uma voz firme atrás deles. Silêncio. Camila reconheceu a voz de imediato. Dante. O homem junto à parede virou-se, mas antes de poder reagir, caiu com um único disparo seco. O outro tentou erguer-se, mas Dante já estava ao lado dele, arma apontada ao peito. — Senta. — ordenou, e o homem obedeceu. Camila não se mexeu. O coração disparava, mas o medo não era o sentimento dominante. Era algo mais primitivo. Como se o sangue soubesse algo antes da mente. — Como sabias que eu estava aqui? — perguntou ela, quando Dante se virou para ela. — Porque estou um passo à frente do Mateo desde o dia em que te conheceu. — Ele não sabe que estás aqui? — Ele acha que ainda te controla. — disse Dante, com uma calma que doía. — Mas já não. Saíram juntos. Deixaram o homem atado, com um recado colado ao peito: "A próxima não será só um aviso." Dante não disse mais nada. Levou-a até ao quarteirão seguinte, depois desapareceu tão rápido como tinha aparecido. Camila voltou para o ponto de encontro com o coração aos pulos — e a mentira já formada na cabeça. Camila entrou no carro com Mateo. O corpo tremia. Não disse nada. Mateo a olhar para ela. — Correu bem? — Estavam armados. Mas consegui sair. — respondeu ela. — Mais alguém? — Não. — mentiu. Mateo assentiu. — Boa. Ela soube que ele não acreditou completamente. E soube também que não podia voltar atrás. --- Em casa, Camila abriu a pasta de Dante. Desta vez, leu com atenção. Cada nome, cada número, cada ligação. Havia ali uma rede. Pessoas que pareciam fiéis a Mateo, mas estavam a vender-se a outros. E nomes riscados — mortos. Erros que se pagavam com sangue. No fim, uma frase manuscrita: > “As estruturas partem sempre de dentro. E tu, Camila… já és parte da fundação.” Ela pousou os papéis. Respirava com dificuldade. --- Mateo ligou no dia seguinte. — Alguém interferiu na missão. A fonte confirmou. Sabes de algo? — Não. — respondeu, firme. — Estavas lá. — Saí sozinha. Não vi ninguém. O silêncio do outro lado prolongou-se. — Há dias em que pareces demasiado parecida comigo. E isso devia preocupar-te. — Devia? — devolveu ela. — Devia. Porque eu sei o que faço quando alguém me mente. Camila não respondeu. E naquele momento, soube: o jogo já não era sobre Dante ou Mateo. Era sobre ela. E quanto tempo conseguiria manter-se inteira antes de começar a quebrar.
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