As palavras de Dante ainda ecoavam na mente da Camila quando voltou ao pequeno apartamento.
“No fim, vais ter de escolher de que lado queres morrer.”
Ela trancou a porta atrás de si, encostou-se à madeira e deixou-se deslizar até ao chão. As pernas fraquejavam, não pelo cansaço físico, mas pela avalanche invisível que a esmagava por dentro. Estava a ser puxada por dois mundos que colidiriam mais cedo ou mais tarde — e ela estava no centro do choque, sem protecção.
Mas parte dela gostava disso. Não do medo, mas da adrenalina. De saber que importava. De saber que havia olhos sobre ela, que as suas escolhas podiam mudar alguma coisa — mesmo que fosse só o curso de uma bala.
Dormiu m*l, sonhava com sombras, corredores intermináveis e janelas que davam para precipícios. E no centro de tudo, sempre ele: Dante. Silencioso, imperturbável, letal.
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Na manhã seguinte, Mateo enviou-lhe uma morada nova, acompanhada por uma única frase:
“Hoje vamos testar se consegues mentir com os olhos.”
Camila chegou ao local indicado — um salão de cabeleireiro encerrado, nos subúrbios de Marselha, onde a fachada gasta escondia o verdadeiro propósito: encontros discretos com gente perigosa. Mateo esperava por ela encostado a uma parede, com o telemóvel na mão e um sorriso cínico nos lábios.
— Dormiste bem, espiazinha?
— O suficiente. — respondeu, seca.
Ele riu-se, e o som soou falso.
— Hoje vais representar. Preciso que cries um personagem. Serás a Clara, uma assistente financeira de Nice, com ligações ao banco Edmond de Rothschild. Vais encontrar-te com dois homens. Um deles está a lavar dinheiro. O outro está a protegê-lo. Vais fazer perguntas que não soem como perguntas. Vais levar uma escuta. E vais sair antes de eles perceberem que sabem menos do que acham.
Camila não respondeu. Mateo entregou-lhe um dossier com nomes, datas e uma biografia falsa. Ela leu enquanto ele ajustava um botão na parede. Um compartimento secreto abriu-se, revelando um pequeno estúdio de vigilância com um ecrã dividido em quatro.
— Vais estar ligada a mim. Mas ninguém vai saber disso.
— E se algo correr m*l?
Mateo piscou o olho. — Então talvez sejas notícia do dia seguinte.
Camila engoliu a seco. Sabia que o mundo para onde entrou não aceitava falhas. Nem desculpas.
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Horas depois, sentada numa sala de hotel disfarçada de consultório fiscal, Camila esperava. O cabelo preso num coque elegante, roupa formal emprestada, lentes de contacto cinzentas. Não se via ali. E ainda assim… sentia-se mais próxima de si do que alguma vez estivesse.
Os dois homens chegaram juntos. Um deles, baixo, com barriga de cerveja e dedos gordos. O outro, magro, cabelo penteado com demasiada gomina, terno de marca, mas sapatos baratos. Ela sabia ler esses detalhes agora. Sabia que aparência e estatuto nem sempre caminhavam juntos.
— Clara? — disse o de barriga proeminente, estendendo a mão.
— Sim. — respondeu, sorrindo com a dose certa de simpatia profissional.
A conversa durou cerca de quarenta minutos. Camila distribuiu olhares seguros, pausas estratégicas e sorrisos que escondiam lâminas. Fez perguntas técnicas disfarçadas de interesse. E percebeu o suficiente: o dinheiro vinha do Norte de África, passava por pequenas empresas de fachada em Nice, e depois era redirecionado para o Luxemburgo.
Ela levantou-se antes que eles pudessem levantar suspeitas.
— Entrarei em contacto até sexta. O mercado está a favor.
— Claro. — responderam os dois, em uníssono, satisfeitos com a própria esperteza.
Mal saiu, um carro escuro esperava por ela.
Era Mateo ao volante.
— Boa menina. — disse, sem tirar os olhos da estrada. — Quase parecias uma de nós.
— Talvez seja. — respondeu ela.
Ele lançou-lhe um olhar lateral.
— Talvez. Mas ainda não.
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Naquela noite, Camila não foi para casa. Mateo levou-a para um apartamento luxuoso com vista para o Vieux-Port. Entraram em silêncio. Só quando ela se sentou no sofá, que ele quebrou o clima.
— Lembras-te do que te disse? Sobre aprender a cair?
— Sim.
— Agora vais aprender a voar. — disse ele, aproximando-se.
Camila manteve-se imóvel.
— Isto faz parte do treino?
Mateo sorriu. Mas havia algo nos olhos dele que já não era brincadeira.
— Não tens de fazer nada. Mas aqui, ou lideras ou és liderada. Escolhe o que queres ser.
Ela levantou-se devagar, enquanto deixa tensão a pairar no ar.
— Ainda não decidi.
Ele deixou-a sair. Não tentou tocar-lhe. Mas havia um fogo estranho entre eles — mais de poder do que de desejo.
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Na manhã seguinte, Camila recebeu uma mensagem.
Sem número. Sem nome.
A beleza da tua mentira convenceu-os. Mas nem tudo é o que parece.
Ela sabia que era Dante.
A forma como surgia quando menos se esperava, como falava por enigmas, como aparecia sem que ninguém soubesse. Ele estava a vê-la. Sempre.
E isso fazia o coração dela bater com mais força.
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Passaram-se dias. Camila foi enviada para missões cada vez mais arriscadas. Identificava códigos escondidos em contratos falsos, vigiava pessoas com poder, entregava envelopes em ruas onde a polícia nem se atrevia a entrar. E em todas as ocasiões, sentia os olhos dele sobre si.
Começou a perceber que Mateo estava a usá-la como uma arma. Mas não percebia ainda contra quem. Até que, numa tarde abafada, enquanto esperava num armazém no porto, viu Dante.
Ele não a viu — ou fingiu não ver. Estava a falar com três homens, num tom baixo, mas tenso. Parecia dar ordens.
E então, viu o impossível.
Um dos homens com Dante… era o mesmo que estava com Mateo dois dias antes.
O mundo de Camila começou a rodar.
Quem mentia? Quem jogava contra quem? Quem a estava a usar?
E, mais importante: em quem ela deveria confiar?
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Naquela noite, ao regressar ao apartamento, encontrou uma carta debaixo da porta.
Uma folha dobrada, sem remetente.
"Quando te deres conta, já estarás do outro lado. Escolhe depressa. Ou alguém vai escolher por ti."
Ela encostou-se à parede.
A respiração presa.
E no peito, a certeza de que já estava a cair — mas não sabia ainda em que lado ia aterrar.