O dia seguinte começou estranho. Camila não soube dizer se foi o silêncio do prédio, o som abafado das sirenes ao longe ou a forma como o sol não passava pelas janelas que a inquietou. Talvez tudo. Ou talvez o que se passava dentro dela fosse pior do que qualquer coisa lá fora. Levantou-se devagar, como se o corpo adivinhasse que aquele dia não lhe daria tréguas. O colchão estava marcado pelo contorno do cansaço. Os lençóis, revoltos. O mundo podia esperar, mas o tempo não parava. Na cozinha, Dante estava a mexer numa frigideira, em silêncio. O cheiro a café preenchia o ar como um lembrete de que, por agora, ainda estavam vivos. Camila encostou-se ao batente da porta e ficou a observar. — Há quanto tempo estás acordado? — perguntou ela. — Não dormi. — Nem uma hora? Ele abanou a cabeç

