Não Estamos Pecando.

1515 Words
Acordei pela manhã no susto. A Madre Superiora estava em pé parada atrás da porta fechada me olhando com os olhos mais escuros que antes, e com uma cara mais brava ainda. Será que passou da hora de acordar? Olhei para a janela e ainda estava de noite. Não parecia ter me atrasado. Porque ela estaria aqui? Com os braços cruzados abaixo do peito e com uma das sobrancelhas arqueadas, resolveu se pronunciar: - Bom dia, irmã. Pensei que se atrasaria no seu primeiro dia. Vejo que estava enganada. Será que é bom dizer que acordei no susto? - Bom dia, Madre. Obrigada pela observação. Estou levando a sério isso. - Ótimo. Levante-se e vista seus paramentos. Vamos tomar café e de lá vamos conversar para tentar descobrir o chamado de Deus para a sua vida. Depois do café e rezarmos por quase uma hora na capela particular das freiras, seguimos para o jardim onde tinha várias irmãs caminhando e conversando. - Então, irmã. Me conte exatamente o porquê da sua vontade de dedicar sua vida a este lugar, aos irmãos e a Deus. - Eu não me adaptava com as coisas do mundo lá fora. Minhas amigas que resolveram conhecer as maravilhas carnais, como elas dizem antes do casamento, me contavam como é bom se envolver com homens. Eu nunca senti vontade e interesse nisso. Nunca senti vontade de beber aquela cerveja que tem um cheiro horrível. Nada me prendia ou chamava atenção. Cheguei a conclusão de que me tornar freira seria a minha vocação. Aqui eu me sinto à vontade e sinto que fiz a escolha certa. Continuamos andando enquanto ela parecia pensar. Eu fui sincera em tudo o que eu falei, ocultando a parte em que estava nervosa, sentindo que algo aconteceria mais a frente. - Entendo, irmã Emma. Comigo foi meio parecido. E para o que você acha que Deus te chamou? Já tem alguma ideia? - Hum.... - Pensei. - Ainda não. Estou tentando descobrir bem antes de vir para cá. Rezo todo o tempo para cair uma luz sobre minha cabeça e me mostrar, mas ainda nada. Eu espero descobrir com o tempo. - Entendo. Sabe que não há nada de errado em apenas dedicar sua vida não sabe? Mesmo que não tenha nenhum chamado para você. - Sim, eu sei. Isso me conforta. Mas ainda quero levar um tempo para ver se consigo descobrir. - Ótimo. E continuamos caminhando até chamarem ela e eu ir fazer o que me foi passado. O tempo que passei fazendo minhas obrigações pelo convento me concederam ótimas companhias, onde conheci irmãs amorosas e algumas meio loucas, mas de ótimos corações. Não me sinto deslocada mais. Não que eu me importe com isso, mas é bom ter alguém para conversar de vez em quando. O jantar foi posto em um grande salão, havia duas mesas extensas para que todas pudessem se sentar sem se preocupar em ficar de pé. Quando me sentei perto das moças que tinha conhecido, elas logo trataram de puxar assunto comigo. - A paz de Deus, irmã. Está gostando daqui? - Sim sim, é perfeito. - Soube que está ficando no sótão, não é assustador lá? - Não... Na verdade é muito bom, e transmite uma paz grandiosa. Dá para rezar muito, como diz a Madre. - dei uma risadinha. - Estranho. A Madre sempre dá um jeito para que todas as freiras fiquem nos quartos. Porque ela quis que você ficasse lá? É do outro lado dos nossos aposentos. Se caso acontecer algo e você gritar, nunca que iremos saber. Franzi a testa. Também não entendi isso. Mas como recebi uma advertência ontem não iria mais questionar a Madre sobre isso. - Eu também não entendi. Mas não falarei nada sobre isso. Ontem falei sobre isso para a Madre, e ela me mandou rezar bastante para Deus me perdoar pela língua grande. Elas arregalaram os olhos. - Nossa. Ela realmente se irritou com você. Ela é severa, mas não ao ponto de ser assim... Deus me perdoe, não estou criticando. Mas não ao ponto de ser grossa assim. Acho que ela não estava num dia muito bom. - É... pode ser. E vocês sabem o nome dela? - Sabemos sim. É Regina. Quando ela era irmã, foi um exemplo para todas, por isso se tornou Madre Superiora tão cedo. - Como vocês sabem disso? - As freiras nos contaram. As mais velhas entraram aqui com ela. - A irmã Tereza também? - Sim. Foi ela que nos contou. Ela é a mais boca aberta. - A Madre não desce para jantar aqui? - Desce sim. Acho que hoje ela teve um imprevisto. Ela tem várias responsabilidades aqui. - Entendi. Depois de mais conversas, terminamos o jantar e nos despedimos. Subi para os meus aposentos, vulgo sótão, para tomar um banho. Estava cansada. Até entrar no ritmo levaria um tempo. Segundo as irmãs, elas tomavam banho de caneca, mas no meu sótão tinha uma banheira. Agradeci por isso. Tirei meu paramento e entrei na banheira. Estamos em uma época de que faz muito calor, então não me importei em deixar a água gelada. Teria muito trabalho para esquenta-la. Relaxei por um tempo, saí da banheira e me enrolei na toalha. Quando saí do banheiro tive uma surpresa. - Madre! Que susto! - Disse levando uma das mãos ao peito e com a outra apertando mais a toalha contra meu corpo. Ela ficou parada me olhando de cima a baixo, vi quando sua mandíbula trincou e escutei quando seus dentes rangeram. Seus olhos escureceram. - Me desculpe por entrar assim, irmã. Acabei de chegar. Quero apenas saber se gostou do seu primeiro dia aqui. Conversou com as outras irmãs? - Si- sim. Elas são adoráveis. Foram muito atenciosas e amorosas. Que Deus as abençoe por isso. - Bom. Vou sair para lhe deixar se trocar. Vou voltar daqui a pouco para rezarmos juntas. Espero que não se incomode. - Não me incomodo não, Madre. - Bom. E irmã Emma? - levantei minha cabeça. - Não precisa ficar nervosa, somos duas mulheres tendo uma conversa normal, dedicando sua vida a eternidade. Não estamos pecando. - Sim, Madre. - balancei a cabeça. Ela deu uma última olhada de cima a baixo em mim e saiu. Suspirei aliviada. Que coisa estranha. Vesti um vestido de dormir antes que ela entrasse novamente, li dois capítulos da Bíblia e quando estava fechando, ela entrou. Continuava com a mesma cara de brava de sempre, os olhos dois tons mais escuros que antes. - Ótimo. Vejo que já leu a palavra. Vamos rezar então. Nos ajoelhamos ao lado da cama e começamos. - Ave-maria, cheia de graça. O Senhor é convosco. Bendita sois vós entre as mulheres, e Bendito é o Fruto do vosso ventre, Jesus! Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecador.... - Senti ela passar às mãos pelas minhas costas, no mesmo instante abri os olhos e a olhei. - O que está fazendo, Madre? Já rezou? - Rezei antes de vir, irmã Emma. Me perdoe, queria apenas lhe observar. Pode continuar a rezar, não vou fazer mais nada. Só quero ver a forma que reza. Balancei a cabeça e voltei a rezar. - Ave-maria, cheia de graça. O Senhor é convosco. Bendita sois vós entre as mulheres, e Bendito é o Fruto do vosso ventre, Jesus! Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte. - Mais uma vez, irmã. - Sua voz estava rouca e baixa. Aquilo me arrepiou, não entendi o porquê. - Reze o pai nosso. - Pai Nosso que estais nos Céus, santificado seja o vosso Nome, venha a nós o vosso Reino, seja feita a vossa vontade assim na terra como no Céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido, e não nos deixeis cair e- em ten- tenta- . - Comecei a gaguejar. Ela começou a esfregar as mãos do meu pescoço até o final das minhas costas. Repetidamente. Por quê ela estava fazendo isso? Ela fazia isso com as outras irmãs? Por quê eu estava gostando? - Continue, irmã. - Sua voz estava mais rouca. - E-eu não consigo com a senhora passando a mão em minhas costas, eu fico nervosa. - Me sentei em cima dos calcanhares com a cabeça baixa. - Mas eu não estou fazendo nada demais, irmã. Não queria lhe causar nervosismo. E, por favor, levante-se, não fique nessa posição. A olhei. - O que tem demais nela, Madre? Ela respirou fundo. - É um tormento vê-la assim. - Por quê? - Vocês irmãs sempre tem que estar de cabeça erguida, menos na presença de Deus e dos santos. - Ela acariciou meus cabelos. - Levante-se. Me levantei e a olhei. Ela parecia estar agitada. - Você é inocente demais, irmã Emma. Fico feliz que tenhamos uma mulher assim em nosso convento. Me desculpe por atrapalha-la. Vou para o meu quarto. Tenha uma boa noite. - Boa noite, Madre.
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