Capítulo 7

1095 Words
Hannah dormiu profundamente naquela noite, exausta de toda a tensão e mudanças repentinas em sua vida. O colchão era mais macio do que qualquer um em que já dormira antes, e o silêncio da casa grande proporcionava um descanso que há muito tempo não experimentava. Quando os primeiros raios de sol atravessaram as cortinas, ela despertou aos poucos, sentindo o aroma suave do café recém-passado no ar. A tranquilidade daquele novo lar, ainda que estranha, começava a envolvê-la. Ao descer para a cozinha, encontrou Rodolfo já sentado à mesa, lendo o jornal. Ele levantou os olhos quando a viu e sorriu de maneira acolhedora. — Bom dia, Hannah. Dormiu bem? Ela assentiu com um leve sorriso. — Sim, foi a melhor noite de sono que tive em muito tempo. Ele indicou a cadeira à sua frente e um prato repleto de pães, frutas e queijos. Havia também café, leite e suco natural. Hannah hesitou por um instante, acostumada a refeições modestas, mas se sentou e pegou uma fatia de pão com manteiga. — Espero que esteja do seu gosto — comentou Rodolfo, observando-a com interesse. — Está ótimo, obrigada — respondeu ela, sentindo-se estranhamente confortável com a atenção dele. Rodolfo tomou um gole de café antes de continuar a conversa. — Sabe, ainda sabemos muito pouco um sobre o outro. Acho que seria bom conversarmos mais. Posso começar... — Ele apoiou os cotovelos sobre a mesa. — Eu cresci nessa casa, sou filho único e, depois que meus pais faleceram, fiquei responsável pelos negócios da família. Já trabalhei em diversas áreas e hoje administro algumas empresas. Hannah ouvia atentamente, absorvendo cada palavra. — E você? Como era sua vida antes de vir para cá? — perguntou com cautela. Ela hesitou, ajeitando a xícara de café entre as mãos. Não queria parecer ingrata nem trazer à tona a realidade difícil que enfrentara. — Ah... Nada muito interessante — disse com um sorriso discreto. — Sempre fui independente, fazia de tudo um pouco para me virar. Mas gostava de algumas coisas simples... Como cozinhar e passear por aí. Rodolfo percebeu que ela evitava entrar em detalhes e não quis pressioná-la. Preferia que, com o tempo, ela se sentisse confortável para compartilhar mais. Foi nesse momento que Flávia entrou na cozinha, interrompendo o clima tranquilo da conversa. Seu olhar passou rapidamente entre os dois, e ela não gostou nem um pouco do que viu. A aproximação de Hannah e Rodolfo a incomodava de uma forma que não conseguia explicar. Com um suspiro afetado, dirigiu-se até a bancada e pegou um copo alto contendo um líquido esverdeado. — Bom dia — disse, mas sem entusiasmo. — Bom dia, Flávia — respondeu Rodolfo, enquanto Hannah apenas murmurou algo em resposta. Ela ergueu o copo e bebeu um gole do líquido espesso. Rodolfo franziu o cenho, intrigado. — O que é isso? — perguntou, apontando para o copo. — Suco detox — respondeu ela de forma altiva. — Ajuda na digestão e na perda de peso. Bem melhor do que encher o prato logo de manhã. Rodolfo deu de ombros e voltou a atenção para Hannah. — E você, Hannah? O que mais gosta de fazer? Tem algum passatempo? Ela ponderou por um instante antes de responder. — Eu gosto de ler... Sempre gostei. Mas, ultimamente, não tive muito tempo para isso. Ele sorriu, interessado. — Sério? Que tipo de livros você gosta? — De tudo um pouco — respondeu, um pouco sem jeito. — Romances, histórias de mistério, algumas coisas sobre a vida real... Rodolfo assentiu, como se já estivesse planejando algo. — Sabe de uma coisa? Vou comprar alguns livros para você. Acho que vai gostar. Hannah arregalou os olhos, surpresa. — Não precisa se incomodar... — Não é incômodo nenhum — garantiu ele. — Quero que tenha algo que te faça bem. Além disso, já faz tempo que não visito uma livraria. Flávia apenas revirou os olhos, segurando-se para não comentar. O incômodo em seu peito crescia conforme a conversa fluía entre os dois. Mais tarde, naquele mesmo dia, Rodolfo saiu e foi até a maior livraria da cidade. Caminhou entre as prateleiras, escolhendo títulos variados. Selecionou romances, histórias de mistério, alguns clássicos e até livros de autoajuda. No entanto, ao passar pela seção de maternidade, um título chamou sua atenção. Pegou um exemplar sobre gravidez e cuidados com o bebê, pensando que poderia ser útil para Hannah. Depois de hesitar por alguns instantes, pegou outro exemplar igual para ele mesmo. De volta para casa, entregou os livros a Hannah, que ficou emocionada com o gesto. — Eu... Eu nem sei o que dizer — murmurou, folheando os exemplares com cuidado. — Apenas aproveite — respondeu ele, com um sorriso sincero. — E, se quiser, podemos conversar sobre eles depois. Naquele momento, Hannah sentiu algo diferente em seu peito. Rodolfo era um homem bondoso, e a forma como se preocupava com ela a tocava, mais do que gostaria de admitir. Nos dias seguintes, Hannah passou a dedicar algumas horas à leitura, algo que lhe trazia um conforto inesperado. Rodolfo, por sua vez, também se empenhou na leitura dos livros sobre maternidade, fazendo anotações e tirando dúvidas com ela. Aos poucos, a relação entre os dois foi se tornando mais próxima, baseada em pequenos gestos e conversas sinceras. Flávia, por outro lado, sentia-se cada vez mais deslocada. A presença de Hannah na casa a irritava, e ver Rodolfo tão atencioso com ela a fazia se sentir ameaçada. A mulher decidiu que precisava agir antes que fosse tarde demais. Em um fim de tarde, quando encontrou Hannah sozinha na sala, Flávia se aproximou e soltou: — Você acha que pode simplesmente chegar aqui e ocupar um espaço que não é seu? Hannah ergueu os olhos do livro que estava lendo, surpresa com o tom hostil. — Eu não estou tentando ocupar espaço nenhum — respondeu calmamente. Flávia cruzou os braços e arqueou uma sobrancelha. — Então é melhor que saiba seu lugar. Rodolfo sempre foi generoso, mas isso não significa que você pode se aproveitar disso. Hannah engoliu seco, sentindo o peso das palavras da outra mulher. Ela sabia que sua presença ali incomodava Flávia, mas não esperava uma confrontação tão direta. — Eu não estou me aproveitando de nada — disse, tentando manter a compostura. — Apenas estou tentando seguir em frente da melhor forma possível. Flávia soltou um riso irônico antes de se afastar. — Veremos por quanto tempo — murmurou. Hannah suspirou e voltou a sua leitura, mas a tensão no ambiente havia se instalado de vez.
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