capítulo 4 Ramon

1521 Words
CAPÍTULO 4 – A p***a QUE EU SOU FORA DAQUI Narrado por Ramon (vulgo Coringa) O morro tava aceso. Não de luz. De tensão. A boca funcionava como um relógio sujo: gente entrando, gente saindo, dinheiro rolando, arma passando. Cada canto com olho, cada silêncio com peso. E eu ali, sentado no meu caixote, com o fuzil escorado na perna e o copo de whisky na mão. Calmo. Mas por dentro, era vulcão. Matheus, o Bala, tinha saído. Deixou a conversa no ar, tipo pólvora esperando faísca. "Ela é minha irmã." Porra. Eu já sabia. Mas ouvir dele, assim, com a voz embargada, foi tipo ver um cachorro tentando latir com focinheira. Engasgado. Patrícia Godoy. A princesinha que aparece em coluna de festa, sorrindo com taça de champanhe na mão. A que reclama de voo atrasado e se acha o centro do universo porque nasceu cercada de mármore. E Bala, meu irmão, é o oposto. Criado no barraco, na tapa, no rango dividido e na mira da polícia. O juiz jogou fora o sangue dele como se fosse bosta de cachorro. E agora essa p***a toda se costura de novo… Sabe o que me irrita? É essa p***a de mundo dividido. Aqui no alto, a gente mata pra viver. Lá embaixo, eles fingem que vivem, mas tão mortos por dentro. Patrícia? Vive de filtro. De curtida. De status. Mas não sabe o que é carregar um corpo no ombro ou sentir cheiro de sangue fresco na camiseta. E eu... Eu sou dois. Sou o que manda matar e o que aperta a mão do delegado na reunião da "associação empresarial". Ninguém sabe. Ninguém sonha. Enquanto me chamam de CEO lá fora, eu mando abastecer a boca aqui dentro. Enquanto eu dou entrevista pra revista de negócios, tem moleque meu limpando arma no quintal. O juiz Godoy não faz ideia de quem eu sou. Mas vai descobrir. O juiz Godoy vai descobrir, e quando descobrir, já vai ser tarde. Porque vingança boa não vem gritando. Vem de terno, de taça na mão, de sorriso falso no coquetel que ele confia. Ele não vai cair com bala. Vai cair com assinatura. Sabe o que é mais gostoso do que dar rajada? É ver o inimigo perder tudo achando que tá ganhando. E é isso que eu tô fazendo com aquele merda. Montei empresa, virei nome forte. Investidor, filantropo, imagem limpa. Todo mês tem almoço com político, selo verde, projeto social. Por fora, medalha. Por dentro, dinamite. — “O senhor Ramon Carvalho é um exemplo de superação,” eles dizem. Vai nessa. Enquanto isso, o sistema engole o próprio r**o. Porque o juiz Godoy já apertou minha mão. Já me elogiou em reportagem. Já assinou contrato com minha fachada. Se soubesse que tava selando pacto com o diabo... ** Mas não é só por mim. É pelo Bala. Pelo Fabrício. Pelo Caveira. Caveira foi o único homem que prestou nessa merda de mundo. Era bruto. Cru. Mas era leal. Criou a gente na marra, no grito, na base da bala. E eu? Eu virei a p***a da continuação dele. Com mais ódio. Com mais cálculo. A diferença é que eu não sou só favela. Eu sou elite também. E essa mistura é o que apavora. ** O plano tá pronto. O juiz tem uma fissura: reputação. Então eu vou começar por aí. A filha dele é escudo? Eu transformo em fraqueza. E não — não é Bala que vai se vingar. Ele tem sangue demais ainda. Esperança demais. Eu não. Eu sou o veneno. Eu sou o fim. E se um dia essa Patrícia cair no meu radar — pessoalmente — eu não vou precisar levantar a mão. Basta mostrar o que o pai dela enterrou. ** Já vi muita princesa chorar quando o castelo cai. E com ela, não vai ser diferente. Porque quando o juiz souber quem eu sou de verdade... Quando ele descobrir que foi o próprio demônio que ele cumprimentou no coquetel... Vai entender que não se joga sangue no lixo achando que a rua não vai devolver. ** Eu sou o Coringa. E minha carta ainda não foi jogada. Mas quando for... vai ser direto na garganta. Subi no carro com o corpo cansado, mas a mente acesa. O caminho até a casa no morro era conhecido. Cada curva, cada buraco, cada sombra era parte de mim. Passei pelos olheiros. Todos baixaram a cabeça. Respeito. O portão de ferro abriu com rangido lento. A casa lá em cima não era mansão, mas era meu castelo. E castelo não precisa de luxo. Precisa de muralha. E aquela casa era minha muralha. Entrei. O cheiro de comida esquentada e cigarro queimado no cinzeiro. Luz fraca. O som da TV preenchendo o silêncio da madrugada. Fabrício tava largado no sofá, só de bermuda, camiseta furada. Uma perna esticada, a outra dobrada. Um copo com gelo derretido na mão. Ria de alguma besteira na televisão, mas o olhar… perdido. — “Tu não dorme nunca, p***a?” — joguei a chave em cima da mesinha. — “Tu que fala, rei do inferno.” — ele rebateu, sem tirar os olhos da tela. — “Pensei que ia direto pra cobertura do Jardins.” — “Tô com nojo demais da cidade hoje.” — sentei na poltrona do canto, tirei os tênis com um pé só. — “Precisei voltar pra onde o chão é firme.” — “E o que foi dessa vez?” — ele virou o rosto. — “Juiz Godoy?” Assenti com a cabeça. — “Tá chegando a hora, Fabrício. A casa dele tá cercada e ele nem sente. O homem se acha invencível, mas vai cair com uma assinatura. Vai cair sem ouvir o tiro.” Ele sentou reto agora. Mais sério. — “Tu ainda vai se vingar com papel?” — “Com papel. Com documento. Com a própria filha.” Ele ficou quieto. — “Tu não acha isso… pesado?” — ele soltou. — “Pesado?” — soltei um riso baixo. — “Pesado foi o que ele fez com o Bala. Pesado foi o que ele tentou apagar. Ele usou o nome pra destruir. Agora vai ser o nome que vai afundar ele.” Fabrício assentiu devagar. Ele entendia. Não concordava com tudo, mas entendia. Fabrício ficou me encarando por uns segundos. Depois soltou aquele sorrisinho de canto, safado. — “Agora fala a real, Ramon… a filha do juiz é boa mesmo ou tu só tá querendo f***r o velho por tabela?” Eu ri. Gargalhei de verdade. Abaixei a cabeça, esfreguei a mão no rosto. — “Quer que eu responda como CEO… ou como bandido?” — “Os dois, vai. Quero a versão terninho e a versão puteiro.” — ele se largou no sofá rindo. — “Como CEO, eu diria que ela é uma mulher de alto valor estético. Imponente, elegante, educada. Representa bem a elite.” Fabrício fez careta. — “Tradução: gostosa.” — “Agora…” — levei o copo até a boca, deixei o whisky queimar — “como bandido…” Me inclinei pra frente, os olhos baixos, a voz baixa e suja. — “Ela vai quicar no meu p*u até o salto quebrar.” Fabrício gargalhou alto, quase cuspindo o gelo. — “c*****o, Coringa… tu não presta.” — “Eu sou a p***a do rei da sujeira, irmão. E aquela princesinha vai aprender o que é se sujar de verdade.” Me levantei, fui até a cozinha buscar outra cerveja, e continuei: — “Ela vive naquele mundinho de selfie, brunch e dancinha no rooftop. Nunca pegou um homem de verdade. Só boy de camisa de linho e p***o mole.” Voltei com a cerveja, sentei, e completei: — “Quando ela tiver ajoelhada na minha frente, com a maquiagem borrando e a boca cheia… aí sim o juiz vai sentir que perdeu.” Fabrício bateu a mão no sofá, rindo mais ainda. — “Cê é doente, véi. Tu quer f***r o corpo e a alma da menina.” — “Quero. E vou. E com gosto.” — “E se tu se apaixonar, arrombado?” — “Apaixonar é o c*****o. Eu não nasci pra amar. Eu nasci pra dominar. E essa p***a de vingança… vai ser lenta, suja e deliciosa.” Dei um gole longo, os olhos mirando o teto. — “E quando ela descobrir quem eu sou… quando ela entender que o CEO limpinho é o mesmo que faz cabeça voar aqui no morro…” Pisquei devagar. — “Ela vai gozar de medo ou gozar de raiva. Mas vai gozar.” Fabrício jogou a almofada em mim. — “Tu é muito galinha, véi. Muito. Pior que puteiro de estrada.” — “E tu ama, porra.” — “Amo nada. Só assisto.” Rimos. Mas no fundo… a raiva ainda tava ali. Fervendo. E eu sabia: a hora tava chegando. A vingança tava sendo cozida no ponto. E a primeira colherada… ia ser nela.
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