Entre o açúcar e a bala

1666 Words
Ana Clara narrando Meu nome é Ana Clara, e eu tenho dezoito anos. Se você me visse na rua, provavelmente pensaria: Essa é a típica menina certinha, dessas que nunca dá trabalho. E você não estaria totalmente errada, acordo todos os dias às cinco e meia da manhã, pego dois ônibus para chegar no cursinho, mantenho minhas notas acima da média e tenho um plano infalível: passar em medicina na federal e sair daqui pela porta da frente. Moro com minha mãe no Morro da liberdade, em uma casa de dois cômodos que minha vó deixou quando morreu. É pequeno, mas é nosso. Minha mãe fez questão de pintar as paredes de amarelo claro porque, segundo ela, cor alegre espanta tristeza. Não sei se espanta, mas pelo menos distrai. Hoje acordei diferente, acordei com uma sensação estranha, dessas que a gente sente quando sabe que algo vai acontecer, fiquei uns minutinhos deitada, olhando pro teto de madeira, ouvindo o barulho da minha mãe na cozinha. Ela sempre acorda antes de mim pra preparar meu café, mesmo eu falando que não precisa. — Mãe, eu já tenho dezoito anos. — Eu reclamo. — E eu tenho cinquenta e oito de preocupação. — Ela responde. Levantei, fui pro banheiro, no espelho, prendi meu cabelo loiro num coque meio desleixado, tava quente demais pra deixar solto, lavei o rosto e encarei aqueles olhos verdes que meu pai dizia que eram da mesma cor da jabuticaba do quintal da vó. Meu pai, faz dez anos que ele morreu, e ainda tem dia que acordo esperando ouvir a voz dele. — Vai dar tudo certo — sussurrei pra mim mesma, como faço todas as manhãs. Mas tinha uma coisa que eu não disse em voz alta, uma coisa que quase ninguém sabe. Dentro da minha mochila, escondida no bolso secreto que minha mãe costurou, tem uma caneta de insulina, uma fita glicêmica e um punhado de balas de glicose, porque desde os sete anos eu carrego um segredo que pesa mais do que qualquer mochila cheia de livro: diabetes tipo 1. Diabetes tipo 1 não é igual ao tipo 2 que todo mundo conhece, não tem nada a ver com comer doce demais ou ser sedentária, meu pâncreas simplesmente parou de funcionar um dia, acordei com sede, emagreci rápido, minha mãe me levou no posto e saí de lá com uma sentença: pro resto da vida, eu ia depender de injeção de insulina pra não morrer. No começo eu não entendia direito. Só lembro de chorar muito escondida no banheiro da escola porque as outras crianças perguntavam por que eu sempre furando o dedo antes de comer, depois fui aprendendo a esconder melhor, a medir glicemia escondida no banheiro, aplicar insulina no intervalo, longe dos olhos curiosos, e carregar bala no bolso pra qualquer emergência. Hoje, aos dezoito, já é automático, meio rotina. Mas o medo nunca passa completamente. Naquela manhã específica, medi minha glicemia antes do café: 132, tava boa, tomei café com minha mãe, pao com margarina e café com leite, e apliquei a insulina rapidinho, escondendo a seringa na mochila enquanto ela lavava a louça. — Hoje vai ter baile lá na laje da Carol — minha mãe disse, sem olhar pra trás. — Você vai? — Não sei, mãe, tô cansada. — Vai sim, você só estuda, menina. Precisa viver também. Ela virou, me encarou com aqueles olhos castanhos que enxergam mais do que eu gostaria. — Mas vai com cuidado, e leva suas coisas tudo. — Levo, mãe, sempre levo. Beijei o rosto dela e saí. O dia no cursinho foi normal, aula de biologia, aula de matemática, intervalo de vinte minutos que eu passei respondendo questão. Na hora do almoço, medi de novo: 148, tava dentro, comi meu salgado, apliquei a insulina no banheiro, voltei pra aula. A tarde passou voando, quando deu seis horas, peguei o ônibus de volta pro morro. No caminho, minha amiga Carol mandou mensagem: — HOJE É HOJE! 22H NA LAJE! VAI TER SOM E TUDO! VAI TER ATÉ PIPIPIPI MAS ISSO NÃO É PRA GENTE. Eu ri. A Carol é meu completo oposto, ela é morena, barulhenta, vive na bagunça, bebe até cair, e me arrasta pras festas desde que a gente se conhece, lá na creche, não sei como a gente continua amiga, talvez porque ela nunca me perguntou sobre minhas seringas escondidas, nunca me forçou a explicar, só aceitou que eu sou assim e pronto. Respondi: — Vou pensar — PENSAR NADA VAI VIR BUSCAR 22H. Pronto. Não tinha mais escolha. Cheguei em casa, tomei banho, comi alguma coisa, medi glicemia de novo: 167, um pouco alta, mas normal depois da comida, ajustei na insulina e fui me arrumar. Coloquei um vestido preto simples, tênis confortável, e enchi minha mochila de bolso: caneta de insulina, fita glicêmica, lanceta, e um pacote inteiro de bala de glicose, tudo escondido no bolso secreto que minha mãe costurou. 22h, a Carol apareceu bufando. — GAROTA, VAMO QUE VAI COMEÇAR! Descemos correndo. O baile era na laje do tio da Carol, no alto do morro. Quando a gente chegou, já tinha um monte de gente, som alto, luz piscando, gente dançando, cheiro de cerveja e churrasco no ar. A Carol sumiu no meio da multidão em cinco segundos. Eu fiquei num canto, observando, não era meu lugar favorito, muita gente, muito barulho, muito estímulo. Mas fiquei ali, mexendo no celular, fingindo que tava de boa. Foi quando eu vi ele. Um menino, mais ou menos da minha idade, cabelo preto crespo, olhos escuros, roupa larga, ele tava encostado numa parede, com a cara mais fechada que eu já vi na vida, não dançava, não bebia, só observava, parecia que tava esperando alguma coisa. Ou alguém. Nossos olhos se cruzaram por um segundo, ele me olhou de cima a baixo, sem expressão, e desviou, eu fiz o mesmo. — Tá secando o boy? — a Carol apareceu do nada, me assustando. — Tô nada, só olhando. — Uhum, olhando com cara de quem quer ser olhada. — Para, Carol. Ela riu e me arrastou pro meio da pista. A gente dançou um tempo, eu tava prestando atenção no meu corpo, como sempre faço em festa. Sensação de tontura? Visão embaçada? Mão suando? Tudo sinal de que a glicose pode estar caindo, mas tava tudo normal. Até que deixou de estar. Não sei dizer exatamente quando começou. Primeiro veio um calor estranho, diferente do calor do baile, depois uma tontura leve, que eu ignorei, meu coração começou a acelerar sem motivo. — Carol — chamei, mas ela não ouviu, dançando de olho fechado. A tontura aumentou, minha visão começou a escurecer nas bordas. Diabetes tipo 1 tem dessas coisas, as vezes a glicose cai rápido demais, hipotensão, e hipoglicemia. O nome técnico não importa, o que importa é que, quando cai, você apaga. Simples assim. Pode morrer se não tratar rápido. Naquela hora, eu sabia que precisava de açúcar, precisava da minha bolsa, das minhas balas. Mas eu não conseguia andar. Minhas pernas começaram a tremer, meu corpo ficou mole, tentei gritar, mas a voz não saiu. A música continuava alta, as luzes continuavam piscando, pessoas continuavam dançando, filmando, se divertindo. Ninguém viu. Ninguém viu a menina de vestido preto começando a cair, até que alguém viu. Duas mãos fortes me seguraram antes que eu batesse a cabeça no chão, eu senti um braço em volta da minha cintura, outro na minha nuca, me amparando, abri os olhos, ou pensei que abri, e vi um rosto perto do meu. Olhos escuros, cabelo liso, e expressão fechada. O menino da parede. — EI, QUAL É O PROBLEMA DELA? — alguém gritou. — FILMANDO, FILMANDO! — ACHO QUE É DROGA! Mas ele ignorou todo mundo. — O que cê tem? — ele perguntou, perto do meu ouvido, a voz era grave, mas não agressiva. — Fala, o que cê tem? Eu tentei responder, mas minha boca não obedecia, meu corpo tremia sem controle. — Mano, ela tá convulsionando! — alguém gritou. — NÃO É CONVULSÃO, p***a! — ele respondeu. — EU SEI O QUE É ISSO! Ele não sabia, mas agiu como se soubesse. — AÇÚCAR! — ele gritou. — ALGUÉM TRAZ AÇÚCAR! Gente correndo, filmando, rindo, achando que era encenação. Ele ficou comigo, me segurando, impedindo de cair. — Fica comigo — ele disse. — Fica comigo, não apaga. Mas eu já tava apagando. A última coisa que vi antes de fechar os olhos foi o rosto dele, a expressão preocupada, os olhos escuros fixos em mim. E a última coisa que pensei foi: quem é esse menino? Depois, só escuridão. Quando acordei, tava numa maca, no posto de saúde, minha mãe do meu lado, segurando minha mão, o soro no meu braço, o gosto doce de refrigerente na boca. — Mãe... — minha voz saiu estranha. Ela apertou minha mão. — Tô aqui, filha, tô aqui. — O que aconteceu? Ela contou da queda, do menino que me segurou, refrigerante que ele deu pra mim, do desespero, e do posto. — Ele salvou tua vida, Ana Clara. Se não fosse ele... Ela não terminou, não precisava. Fiquei em silêncio, processando. — Mãe... quem era ele? Ela demorou a responder. — Um menino da comunidade, filho da Neusa, conheço só de vista. — Como ele chama? — Ryan. Ryan. Guardei o nome na cabeça, repeti baixinho, pra não esquecer. Ryan. O menino de olhos escuros que me segurou quando ninguém mais viu, o menino que me salvou. Naquela noite, deitada no meu quarto, eu fiquei pensando nele. No jeito que ele me olhou, na mão firme segurando meu corpo, voz calma num lugar tão barulhento. Meu avô sempre dizia: A gente nunca encontra as pessoas por acaso, Clarinnha. Tem anjo disfarçado por aí. Será que ele era um anjo? Duvido. Anjo não tem cara de poucos amigos igual aquele menino tinha. Mas talvez, só talvez, anjo também não precise ter asas pra salvar alguém.
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