O amanhecer chegou devagar sobre Istambul.
O céu, pintado em tons dourados, parecia alheio ao caos que começava a se formar.
Valéria acordou sentindo o calor da pele de Arkan ainda presente em sua memória — o toque dele, o sabor do beijo, a maneira como seus olhos haviam dito tudo o que as palavras não ousaram.
Mas junto à lembrança veio o medo.
Ela se levantou devagar, cobrindo-se com o lençol, observando o homem que dormia ao seu lado.
Mesmo em repouso, ele parecia dominar o espaço.
O rosto sereno, os traços fortes, a barba leve que sombreava o maxilar.
Era impossível olhar para Arkan Demir e não entender por que o mundo o temia — e por que ela o amava, apesar disso.
Quando ele abriu os olhos, o tempo pareceu parar.
— Bom dia, — disse, com a voz rouca de sono.
Valéria tentou sorrir. — Você devia estar no escritório.
— Eu devia fazer muitas coisas. — Ele se ergueu, se aproximando. — Mas no momento só consigo pensar em você.
Ela desviou o olhar, nervosa. — Isso é um problema, Arkan.
— É a única coisa que faz sentido — respondeu ele, tocando o rosto dela. — Tudo o resto é ruído.
Valéria segurou a mão dele, mas sua voz saiu trêmula. — O ruído também destrói.
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Horas depois, o ruído ganhou forma.
Os portais de notícia repetiam a mesma manchete, agora com fotos ainda mais invasivas:
“Escândalo no Bósforo: CEO turco passa a noite com executiva estrangeira.”
As imagens eram nítidas demais. Um fotógrafo captara a entrada do hotel, o toque sutil entre eles, até mesmo a sombra do beijo refletida no vidro do elevador.
Valéria sentiu o sangue gelar.
O telefone tocava sem parar. Mensagens de colegas, da imprensa, da empresa.
E, em meio ao caos, o nome de Elif Karahan voltou a aparecer nos rumores.
Arkan chegou pouco depois, furioso.
— Eu vou acabar com isso. — Ele jogou um jornal sobre a mesa. — Isso passou dos limites.
— Arkan, pare — pediu Valéria. — Se reagir, só vai dar mais força a eles.
— Quer que eu fique quieto enquanto te humilham?
— Quero que pense. — O tom dela foi firme. — Já parou pra considerar que essa guerra não é só contra mim? É contra você também. Contra o que representa.
Ele respirou fundo, tentando conter o impulso de agir.
— Então o que sugere que eu faça?
— Espere. — Ela o encarou com calma. — Deixe que as verdades apareçam por si.
Mas o mundo de Arkan não era feito de espera. Era feito de domínio, ação, controle.
E o fato de não poder controlar o que sentia por ela o deixava em fúria.
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Enquanto isso, Elif observava tudo de seu escritório, o olhar satisfeito.
A matéria havia se espalhado exatamente como planejado.
— Ele vai correr para protegê-la — murmurou, bebendo um gole de vinho. — E, quando o fizer, perderá o conselho.
O assistente à sua frente hesitou. — Senhora Karahan, isso pode afetar também os contratos da sua própria empresa...
— Que afetem. — Ela sorriu, fria. — O que é um império comparado ao prazer de ver um homem poderoso ajoelhar-se por amor?
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No dia seguinte, Valéria foi convocada à sede da GlobalTrade por videoconferência.
A diretoria estava reunida. Rostos rígidos, olhares acusadores.
— Senhora Mancinni, — começou o presidente da empresa — os eventos recentes comprometem nossa imagem institucional. Precisamos avaliar sua permanência na equipe.
Valéria manteve o queixo erguido. — Não houve conduta indevida.
— O problema é a aparência das coisas, não a verdade. — A frase veio como um golpe. — Talvez seja melhor que retorne ao Brasil até o caso esfriar.
Ela fechou os olhos, tentando não deixar as lágrimas caírem.
Sabia o que aquilo significava: afastamento disfarçado de demissão.
Quando desligou, Arkan estava ali, parado à porta.
— O que eles disseram?
— Que eu devo ir embora.
Ele caminhou até ela, segurando-a pelos ombros. — Então não vá.
— E ficar como, Arkan? Como “a mulher do CEO turco”? — A voz dela quebrou. — Eu lutei a vida toda pra ser reconhecida pelo meu trabalho, não pelos homens ao meu redor.
— Eu não quero te apagar, Valéria. Quero te proteger.
— E eu não quero ser salva. Quero ser respeitada.
O silêncio entre eles foi denso, quase doloroso.
Arkan a soltou devagar, como quem reconhece a força de algo que não pode controlar.
— Então lute comigo — disse ele, por fim. — Mas não contra mim.
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Enquanto isso, em uma mansão às margens do estreito, Kemal Demir recebia Elif Karahan para um jantar privado.
A cumplicidade entre eles era evidente.
— Você prometeu que controlaria a situação, Elif — disse Kemal, irritado. — Agora meu filho virou motivo de escândalo internacional.
— Ele precisava de um choque de realidade — respondeu ela, calmamente. — E, quando tudo desabar, ele voltará para onde sempre pertenceu.
Kemal a observou, intrigado. — Você ainda o ama?
— Não. — O sorriso dela foi amargo. — Mas quero que ele sofra como me fez sofrer.
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Naquela noite, Valéria arrumava as malas.
Cada dobra de roupa parecia pesar como uma despedida.
Arkan chegou antes que ela terminasse.
— Você não vai sair daqui — disse, trancando a porta.
— Arkan...
— Eu já perdi demais por causa do meu pai, por causa da imprensa, por causa das aparências. Não vou perder você também.
Ela tentou manter a calma. — Não é assim que resolve as coisas.
— Então me diga como, Valéria! — Ele estava à beira do desespero. — Porque eu não sei mais onde termina o que sinto e onde começa o que devo fazer.
Ela se aproximou, tocando o rosto dele.
— Às vezes, o amor não precisa vencer o mundo, Arkan. Só precisa sobreviver a ele.
Ele segurou a mão dela, e por um instante, toda a raiva se dissolveu.
O beijo que veio depois não foi de paixão — foi de despedida.
Um beijo que dizia eu te amo, mas também eu te entendo.
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Na manhã seguinte, a notícia se espalhou:
“Executiva Valéria Mancinni deixa Istambul em meio a escândalo.”
As câmeras do aeroporto captaram sua partida.
Nenhum repórter viu o homem de terno escuro parado à distância, observando o avião desaparecer no horizonte.
Arkan Demir permaneceu ali até o último traço do avião sumir no céu.
E quando finalmente virou as costas, o rosto estava diferente — frio, determinado.
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Mais tarde, em sua sala, recebeu Selim.
— Está decidido, então? — perguntou o advogado.
Arkan assentiu. — Quero uma investigação completa. Descubra quem pagou pelos vazamentos. Elif e meu pai estão juntos nisso, e vou expor cada um deles.
Selim hesitou. — E Valéria?
— Ela vai me odiar por um tempo — respondeu, com um sorriso triste. — Mas vai entender quando tudo estiver limpo.
— Você está certo disso?
— Não. — Ele se levantou, olhando pela janela. — Mas prefiro ser odiado por tentar salvá-la do que amado enquanto ela afunda comigo.
Do lado de fora, o céu escurecia sobre Istambul.
A tempestade estava longe de terminar.
E, no coração do homem que sempre teve tudo, nascia uma promessa:
Ele traria Valéria de volta. Não importava o que custasse.