Capítulo 21 – Ecos do Passado 2

1253 Words
O outono chegou cedo à Anatólia. As oliveiras que cercavam a casa já perdiam as folhas, e o vento trazia o cheiro agridoce das colheitas. Valéria gostava dessa época — havia algo de poético no fim de cada ciclo. Mas naquele ano, o outono parecia um presságio. Ela estava na varanda, lendo os relatórios do Projeto Luz de Paula, quando Selim apareceu à porta, com o rosto pálido. — Recebemos uma notificação — disse ele, estendendo um envelope. — Chegou esta manhã, sem remetente. Valéria franziu o cenho. O papel era grosso, caro. A caligrafia, elegante e fria. Ela abriu o envelope e retirou uma única folha. > “Nem todos os fantasmas ficam enterrados. Alguns aprendem a andar novamente.” O coração dela disparou. Ela olhou para Selim. — Isso é uma ameaça. — É um aviso — respondeu ele. — E temo que saibamos de quem. --- Horas depois, Arkan retornou de Istambul, onde estivera resolvendo pendências jurídicas do antigo império Demir. Valéria o esperava na porta. — Ele mandou uma carta — disse, antes mesmo de abraçá-lo. Arkan congelou. — “Ele”? Ela assentiu. — Ninguém mais escreveria assim. Ele leu o bilhete em silêncio. O papel tremia entre os dedos. — Então é verdade. Ele está vivo. Selim cruzou os braços. — A Interpol está tentando encobrir o caso. Mas alguém de dentro confirmou: o comboio nunca chegou ao presídio. Arkan fechou os olhos, lutando contra a raiva. — E agora ele quer brincar com o medo. Valéria se aproximou. — Não podemos fugir de novo, Arkan. Se ele está vindo, enfrentaremos. — Não quero que você se machuque. — Não quero que ele destrua o que construímos. O olhar dela era firme, ardente. Ele sabia que não havia como protegê-la de si mesma — a força de Valéria vinha do fogo que carregava no peito. --- Nos dias seguintes, começaram a notar pequenos sinais. E-mails suspeitos. Chamadas anônimas. Sombras que pareciam seguir à distância. Selim reforçou a segurança da sede do projeto, mas algo parecia mais profundo do que simples perseguição. Um dia, enquanto revisava arquivos antigos, Valéria percebeu algo estranho no sistema. Um código oculto, embutido em um dos relatórios de sua mãe. — Selim, venha ver isto. Ele se aproximou, digitando comandos rápidos. O texto oculto se revelou lentamente na tela, uma sequência de dados genéticos, seguidos por um nome em letras maiúsculas: > “L.P. – SÉRIE OMEGA” Valéria sentiu o estômago gelar. — “L.P.”... Luz de Paula? Selim balançou a cabeça. — Não exatamente. Este código é anterior ao projeto. É de quando sua mãe ainda trabalhava para Kemal. Arkan se aproximou, tenso. — O que isso significa? — Significa que havia outro experimento. — Selim olhou para Valéria. — Um que nunca foi revelado. Ela mordeu o lábio, inquieta. — Você acha que… minha mãe poderia ter escondido algo? — Não. — Selim suspirou. — Acho que ela tentou impedir que isso chegasse ao mundo. E falhou. --- À noite, Valéria não conseguia parar de pensar naquelas duas letras. “L.P.” poderia ser um código. Uma pessoa. Ou um legado. Ela desceu as escadas e encontrou Arkan na sala, debruçado sobre o laptop, a luz da tela refletindo nos olhos azuis. — Não consigo dormir — disse ela. Ele olhou para cima. — Nem eu. — Sabe o que é mais estranho? — perguntou ela, sentando-se ao lado dele. — Quanto mais a verdade aparece, mais percebo que a mentira nunca terminou. Ele tocou a mão dela. — A mentira é o que sobra quando a verdade assusta demais. Ela apoiou a cabeça no ombro dele. — E você não tem medo? Ele ficou em silêncio por alguns segundos antes de responder: — Tenho medo de perdê-la. Do resto, eu enfrento. --- Na manhã seguinte, Selim chegou com informações novas. — Fiz uma busca entre os antigos arquivos da Demir Holdings. Encontrei uma referência cruzada com o nome “Omega”. Ele projetou o documento na parede. Era um relatório de pesquisa, datado de quinze anos atrás. > “Série Omega – Protótipo experimental derivado da matriz genética L.P.M. — compatibilidade 98,3%.” Valéria levou a mão à boca. — L.P.M.… minhas iniciais. Arkan ficou pálido. — Eles… usaram você? Selim confirmou com a cabeça. — Sua mãe tentou apagar esses dados, mas parte do material foi copiado. Se Kemal ainda os tem, pode recriar o projeto. O ar pareceu sumir da sala. Valéria sentiu um arrepio percorrer a espinha. — Então não era sobre destruir o império. Era sobre mim. Arkan a segurou pelos ombros. — Vamos achar ele antes que isso vá adiante. Selim concordou. — Há um nome que aparece nos registros: Dr. Haluk Erden. Ele supervisionou o programa e desapareceu junto com os dados. — Onde ele está? — perguntou Arkan. — Última localização conhecida: um laboratório privado nos arredores de Izmir. Valéria se levantou. — Então é pra lá que vamos. Arkan tentou protestar. — É perigoso demais. — E deixar ele recriar isso não é? — respondeu ela. — Eu não vou deixar minha mãe morrer em vão. --- Dois dias depois, estavam a caminho de Izmir. A estrada costeira cortava o mar Egeu, cintilante sob o sol. Era uma paisagem bonita demais para a tensão que os acompanhava. Valéria observava o mar, tentando encontrar paz em meio à tormenta. Arkan mantinha o olhar fixo na estrada, a mandíbula travada. — Você está tenso — disse ela. — Estou com medo de que ele nos espere lá. — Então estamos em igualdade — respondeu ela, com um meio sorriso. — Eu também tenho medo. Ele estendeu a mão, e ela entrelaçou os dedos nos dele. — Seja o que for — disse ele —, enfrentaremos juntos. --- Ao chegarem ao endereço, encontraram um prédio discreto, escondido entre pinheiros. As janelas estavam cobertas por persianas metálicas. Nenhum sinal de vida. Selim desligou o motor e olhou para eles. — O sistema de energia está ativo. Isso não está abandonado. Arkan puxou a arma que trazia sob o casaco. — Vamos entrar devagar. Valéria assentiu. O portão estava destrancado. Dentro, o cheiro de produtos químicos era forte, e as luzes fluorescentes piscavam. Em uma das salas, encontraram arquivos espalhados e um computador ainda ligado. Na tela, uma mensagem piscava: > “Bem-vindos de volta, herdeiros do pecado.” Valéria deu um passo para trás, o coração disparando. — Ele sabia que viríamos — murmurou Arkan. E então, das sombras, uma voz ecoou: — Claro que eu sabia. Vocês sempre terminam o que eu começo. Kemal Demir surgiu na penumbra, vivo — mas diferente. O rosto trazia cicatrizes, o olhar ainda mais frio. Atrás dele, o Dr. Haluk Erden observava, com um brilho febril nos olhos. — Eu disse que alguns fantasmas aprendem a andar novamente — disse Kemal, com um sorriso lento. — E agora… vamos ver se vocês podem viver com o que descobriram. Valéria recuou, mas manteve o olhar firme. — Não vamos deixar você continuar com isso. — Oh, minha querida — murmurou ele, aproximando-se. — Você é isso. Arkan ergueu a arma. — Fique longe dela! Kemal riu. — Atiraria no próprio pai? O silêncio que se seguiu foi absoluto. Até que Valéria deu um passo à frente, e sua voz cortou o ar: — Eu atiraria, se fosse para proteger quem amo. E o som que se ouviu em seguida foi o de um disparo.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD