O som do tiro cortou o ar como um trovão preso em uma garrafa.
Por um instante, ninguém se moveu.
O eco ressoou pelas paredes metálicas do laboratório, e o silêncio que se seguiu foi mais c***l do que o estampido.
Valéria sentiu o mundo girar.
O cheiro de pólvora misturava-se ao do éter e do medo.
Ela olhou para Arkan, o coração batendo descompassado.
E então viu.
Kemal cambaleava para trás, a mão pressionando o ombro. O sangue escorria lentamente, manchando a camisa branca.
Arkan mantinha a arma erguida, o braço trêmulo.
— Eu... — ele tentou dizer, a voz falhando. — Ele ia atirar em você.
Valéria correu até ele e segurou sua mão, fazendo-o baixar a arma.
— Está tudo bem, Arkan. Está tudo bem.
Kemal riu, mesmo ferido. Uma risada rouca, quase sem ar.
— Meu filho... sempre o herói. Sempre tarde demais.
Dr. Haluk se aproximou, tentando estancar o sangue. — Precisamos levá-lo para o andar de baixo.
— Ninguém vai a lugar algum — disse Arkan, firme. — Fale, Haluk. O que estavam fazendo aqui?
O cientista hesitou, olhando de Valéria para o computador.
— Era inevitável. Kemal queria recriar a Série Omega. O código estava incompleto... até vocês chegarem.
— Como assim? — perguntou Valéria, dando um passo à frente.
Haluk desviou o olhar. — O material genético original era dela. Mas faltava a sequência final. Ele precisava de você aqui, para completá-la.
Arkan sentiu o sangue gelar. — Você a atraiu de propósito.
Kemal sorriu, os olhos brilhando mesmo na dor. — Nada neste mundo acontece por acaso, meu filho. Você acha que pode fugir do que herdou? Do sangue que corre em suas veias?
— Eu não sou você. — Arkan o encararava, os punhos cerrados. — Nunca fui.
— Não? — provocou o pai, com voz arrastada. — Está aqui, com uma arma na mão, o mesmo olhar frio... o mesmo impulso. Eu apenas o moldei.
Valéria se interpôs entre os dois. — Chega! Isso não é sobre ele — é sobre o que você fez comigo.
Kemal virou o rosto para ela, e por um segundo, seu olhar perdeu a arrogância.
— Você acha que eu não a amava, menina? Sua mãe era a mente mais brilhante que já conheci. O projeto era dela — eu apenas quis aperfeiçoá-lo.
— Aperfeiçoar? — Valéria gritou. — Você transformou tudo em uma monstruosidade!
Haluk, nervoso, tocou o teclado do computador. — Se me permitirem explicar…
Mas antes que pudesse continuar, Selim apareceu na porta, arma em punho.
— A polícia está a caminho — anunciou. — Ninguém sai.
Kemal deu um meio sorriso. — Sempre o leal Selim. Pronto para salvar o dia. Mas você se esquece, meu caro, que eu sempre jogo algumas casas à frente.
Um som metálico ecoou — o sistema de segurança ativou-se, e portas de aço deslizaram do teto, isolando o laboratório.
O alarme disparou.
Haluk recuou, apavorado. — Ele trancou tudo! Só o código mestre pode abrir!
Kemal, já fraco, deixou escapar uma risada. — Veremos se vocês conseguem sair… antes que o sistema apague o que resta.
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O tempo parecia correr mais rápido dentro daquela prisão metálica.
Selim tentava decifrar o painel de controle, enquanto Valéria e Arkan socorriam o ferido — mesmo que ele fosse o homem que os destruíra.
— O sistema vai explodir os servidores em vinte minutos — disse Selim, suando. — É o protocolo Omega.
— E o código mestre? — perguntou Arkan.
Selim olhou para Kemal. — Está com ele.
Valéria se ajoelhou ao lado do homem que arruinara metade da sua vida.
— Diga o código, Kemal. Ou todos morreremos aqui.
Ele a observou por um longo momento.
— Você realmente acredita que a verdade vale tanto?
— Sim. Mesmo que doa.
Ele fechou os olhos, como se buscasse algo em si mesmo que há muito havia perdido.
— 3-1-9-0. — murmurou. — O dia em que seu pai morreu. Ela... ela me contou.
Valéria digitou o código, e as travas começaram a se abrir.
Selim suspirou aliviado. — Funcionou.
Mas então o sistema piscou novamente, exibindo uma contagem regressiva:
00:05:00
— Cinco minutos — disse Arkan. — Vamos sair daqui.
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Correram pelos corredores, o som das sirenes os acompanhando.
No fundo do corredor, uma explosão sacudiu o chão.
Valéria tropeçou, e Arkan a segurou pelos braços.
— Está tudo bem — disse ele, ofegante. — Só mais um pouco.
Haluk vinha logo atrás, arrastando uma pasta cheia de documentos. — Eu posso explicar tudo! O projeto...
— Esqueça o projeto! — gritou Selim. — Saia agora!
Chegaram à saída.
A luz do sol os cegou por um instante.
Atrás deles, o prédio começou a ruir em colunas de fumaça.
Valéria virou-se a tempo de ver Kemal ainda dentro, caído ao lado da mesa.
Ela hesitou. — Arkan… ele ainda está lá.
— Valéria, não! — gritou ele, mas era tarde demais.
Ela correu de volta, ignorando o calor e a fumaça.
Encontrou Kemal respirando com dificuldade.
— Por que voltou? — ele perguntou, a voz fraca.
— Porque você ainda é o pai do homem que amo.
Por um instante, algo brilhou nos olhos dele — arrependimento, talvez.
Ele estendeu a mão, tremendo. — Diga a ele... que sinto muito.
Uma segunda explosão sacudiu o chão, e Valéria foi lançada para trás.
Arkan entrou no instante seguinte, segurando-a.
— Vamos! — gritou ele.
Eles saíram no exato momento em que o laboratório desabava completamente.
O vento trouxe o cheiro de cinzas e ferro.
Por alguns segundos, ninguém disse nada.
Selim olhou para o horizonte. — Acabou?
Valéria respirou fundo. — Não. Agora começa a verdade.
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Mais tarde, em um quarto de hospital, Valéria observava as chamas distantes através da janela.
Arkan dormia ao seu lado, exausto, com o braço enfaixado.
Ela passou os dedos pelos cabelos dele, sentindo uma paz triste.
Ele se mexeu e abriu os olhos lentamente.
— Você está bem? — perguntou.
Ela assentiu. — E você?
— Só cansado de lutar contra fantasmas.
Valéria sorriu. — Às vezes é preciso enfrentá-los… para deixá-los ir.
Ele pegou sua mão. — E agora?
Ela olhou pela janela.
O sol nascia sobre Izmir, dourando o mar.
— Agora, começamos do zero. Sem segredos. Sem sombras.
Arkan beijou sua mão, com ternura.
— Então é assim que se cura o passado.
Valéria encostou a cabeça no peito dele.
Pela primeira vez, o silêncio entre eles não era dor — era paz.
Mas no fundo do corredor, um vulto parou diante do vidro, observando-os em silêncio.
O Dr. Haluk segurava um pen drive entre os dedos, e um leve sorriso curvou seus lábios.
> “Nem todos os pecados morrem com o fogo.”