Capítulo 22 – Sangue e Verdade

1130 Words
O som do tiro cortou o ar como um trovão preso em uma garrafa. Por um instante, ninguém se moveu. O eco ressoou pelas paredes metálicas do laboratório, e o silêncio que se seguiu foi mais c***l do que o estampido. Valéria sentiu o mundo girar. O cheiro de pólvora misturava-se ao do éter e do medo. Ela olhou para Arkan, o coração batendo descompassado. E então viu. Kemal cambaleava para trás, a mão pressionando o ombro. O sangue escorria lentamente, manchando a camisa branca. Arkan mantinha a arma erguida, o braço trêmulo. — Eu... — ele tentou dizer, a voz falhando. — Ele ia atirar em você. Valéria correu até ele e segurou sua mão, fazendo-o baixar a arma. — Está tudo bem, Arkan. Está tudo bem. Kemal riu, mesmo ferido. Uma risada rouca, quase sem ar. — Meu filho... sempre o herói. Sempre tarde demais. Dr. Haluk se aproximou, tentando estancar o sangue. — Precisamos levá-lo para o andar de baixo. — Ninguém vai a lugar algum — disse Arkan, firme. — Fale, Haluk. O que estavam fazendo aqui? O cientista hesitou, olhando de Valéria para o computador. — Era inevitável. Kemal queria recriar a Série Omega. O código estava incompleto... até vocês chegarem. — Como assim? — perguntou Valéria, dando um passo à frente. Haluk desviou o olhar. — O material genético original era dela. Mas faltava a sequência final. Ele precisava de você aqui, para completá-la. Arkan sentiu o sangue gelar. — Você a atraiu de propósito. Kemal sorriu, os olhos brilhando mesmo na dor. — Nada neste mundo acontece por acaso, meu filho. Você acha que pode fugir do que herdou? Do sangue que corre em suas veias? — Eu não sou você. — Arkan o encararava, os punhos cerrados. — Nunca fui. — Não? — provocou o pai, com voz arrastada. — Está aqui, com uma arma na mão, o mesmo olhar frio... o mesmo impulso. Eu apenas o moldei. Valéria se interpôs entre os dois. — Chega! Isso não é sobre ele — é sobre o que você fez comigo. Kemal virou o rosto para ela, e por um segundo, seu olhar perdeu a arrogância. — Você acha que eu não a amava, menina? Sua mãe era a mente mais brilhante que já conheci. O projeto era dela — eu apenas quis aperfeiçoá-lo. — Aperfeiçoar? — Valéria gritou. — Você transformou tudo em uma monstruosidade! Haluk, nervoso, tocou o teclado do computador. — Se me permitirem explicar… Mas antes que pudesse continuar, Selim apareceu na porta, arma em punho. — A polícia está a caminho — anunciou. — Ninguém sai. Kemal deu um meio sorriso. — Sempre o leal Selim. Pronto para salvar o dia. Mas você se esquece, meu caro, que eu sempre jogo algumas casas à frente. Um som metálico ecoou — o sistema de segurança ativou-se, e portas de aço deslizaram do teto, isolando o laboratório. O alarme disparou. Haluk recuou, apavorado. — Ele trancou tudo! Só o código mestre pode abrir! Kemal, já fraco, deixou escapar uma risada. — Veremos se vocês conseguem sair… antes que o sistema apague o que resta. --- O tempo parecia correr mais rápido dentro daquela prisão metálica. Selim tentava decifrar o painel de controle, enquanto Valéria e Arkan socorriam o ferido — mesmo que ele fosse o homem que os destruíra. — O sistema vai explodir os servidores em vinte minutos — disse Selim, suando. — É o protocolo Omega. — E o código mestre? — perguntou Arkan. Selim olhou para Kemal. — Está com ele. Valéria se ajoelhou ao lado do homem que arruinara metade da sua vida. — Diga o código, Kemal. Ou todos morreremos aqui. Ele a observou por um longo momento. — Você realmente acredita que a verdade vale tanto? — Sim. Mesmo que doa. Ele fechou os olhos, como se buscasse algo em si mesmo que há muito havia perdido. — 3-1-9-0. — murmurou. — O dia em que seu pai morreu. Ela... ela me contou. Valéria digitou o código, e as travas começaram a se abrir. Selim suspirou aliviado. — Funcionou. Mas então o sistema piscou novamente, exibindo uma contagem regressiva: 00:05:00 — Cinco minutos — disse Arkan. — Vamos sair daqui. --- Correram pelos corredores, o som das sirenes os acompanhando. No fundo do corredor, uma explosão sacudiu o chão. Valéria tropeçou, e Arkan a segurou pelos braços. — Está tudo bem — disse ele, ofegante. — Só mais um pouco. Haluk vinha logo atrás, arrastando uma pasta cheia de documentos. — Eu posso explicar tudo! O projeto... — Esqueça o projeto! — gritou Selim. — Saia agora! Chegaram à saída. A luz do sol os cegou por um instante. Atrás deles, o prédio começou a ruir em colunas de fumaça. Valéria virou-se a tempo de ver Kemal ainda dentro, caído ao lado da mesa. Ela hesitou. — Arkan… ele ainda está lá. — Valéria, não! — gritou ele, mas era tarde demais. Ela correu de volta, ignorando o calor e a fumaça. Encontrou Kemal respirando com dificuldade. — Por que voltou? — ele perguntou, a voz fraca. — Porque você ainda é o pai do homem que amo. Por um instante, algo brilhou nos olhos dele — arrependimento, talvez. Ele estendeu a mão, tremendo. — Diga a ele... que sinto muito. Uma segunda explosão sacudiu o chão, e Valéria foi lançada para trás. Arkan entrou no instante seguinte, segurando-a. — Vamos! — gritou ele. Eles saíram no exato momento em que o laboratório desabava completamente. O vento trouxe o cheiro de cinzas e ferro. Por alguns segundos, ninguém disse nada. Selim olhou para o horizonte. — Acabou? Valéria respirou fundo. — Não. Agora começa a verdade. --- Mais tarde, em um quarto de hospital, Valéria observava as chamas distantes através da janela. Arkan dormia ao seu lado, exausto, com o braço enfaixado. Ela passou os dedos pelos cabelos dele, sentindo uma paz triste. Ele se mexeu e abriu os olhos lentamente. — Você está bem? — perguntou. Ela assentiu. — E você? — Só cansado de lutar contra fantasmas. Valéria sorriu. — Às vezes é preciso enfrentá-los… para deixá-los ir. Ele pegou sua mão. — E agora? Ela olhou pela janela. O sol nascia sobre Izmir, dourando o mar. — Agora, começamos do zero. Sem segredos. Sem sombras. Arkan beijou sua mão, com ternura. — Então é assim que se cura o passado. Valéria encostou a cabeça no peito dele. Pela primeira vez, o silêncio entre eles não era dor — era paz. Mas no fundo do corredor, um vulto parou diante do vidro, observando-os em silêncio. O Dr. Haluk segurava um pen drive entre os dedos, e um leve sorriso curvou seus lábios. > “Nem todos os pecados morrem com o fogo.”
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