Capítulo 23 – As Cinzas e o Legado

970 Words
O cheiro de fumaça ainda parecia preso na pele dela. Mesmo dias depois da explosão em Izmir, Valéria acordava à noite sentindo o estalar do fogo nos ouvidos. O corpo estava seguro, mas a mente ainda corria entre as ruínas. O hospital havia se tornado um refúgio provisório. Arkan dormia na poltrona ao lado, o braço direito engessado, o rosto marcado pela exaustão. Ele insistira em ficar ali, mesmo quando os médicos garantiram que ela estava fora de perigo. Valéria observava-o agora, enquanto o sol da manhã filtrava-se pela janela, dourando seus cabelos escuros. Ela estendeu a mão e tocou de leve o rosto dele. — Finalmente em paz — sussurrou. — Ou quase. Mas paz, para Arkan Demir, nunca vinha sem um preço. --- Horas depois, ele acordou com o som suave de passos. Selim entrou no quarto, carregando uma pasta grossa. Seu olhar dizia tudo — o mundo fora daquele hospital continuava girando, e com ele, as consequências. — Boas notícias? — perguntou Arkan, ainda sonolento. Selim hesitou. — Depende do que você chama de boas. Valéria se sentou, ajeitando os lençóis. — Fale, Selim. — O governo turco encerrou oficialmente as investigações sobre Kemal Demir. O corpo dele foi encontrado entre os escombros. Arkan ficou em silêncio, o olhar perdido em algum ponto distante. — Então é verdade. Selim assentiu. — Mas o problema é que parte dos arquivos digitais não foram destruídos. Alguém acessou o sistema antes da explosão. — Haluk — murmurou Valéria, imediatamente. — É o que parece — confirmou Selim. — E há mais. Um dos laboratórios parceiros de Kemal, em Zurique, foi reativado há dois dias. Arkan respirou fundo. — Então o “legado” ainda respira. Selim fechou a pasta e a colocou sobre a mesa. — Vocês precisam decidir o que fazer. Se continuarem envolvidos, estarão colocando o nome Demir e o projeto Luz de Paula sob holofotes perigosos. Valéria olhou para Arkan. — Não podemos fingir que isso acabou. Ele assentiu lentamente. — Mas também não podemos lutar sozinhos. --- À tarde, Arkan recebeu a visita de um homem alto, de terno escuro e sotaque britânico carregado. — Sr. Demir. — O homem apresentou-se como agente Lawrence da Interpol. — Vim pessoalmente agradecer por sua colaboração. Arkan arqueou a sobrancelha. — Agradecer? — A explosão destruiu um dos maiores laboratórios clandestinos da Europa. Mas precisamos dos registros originais para impedir que o Dr. Haluk continue o projeto em outro país. Valéria cruzou os braços. — Vocês acham mesmo que ele vai parar? — Não — admitiu Lawrence. — Mas se tivermos provas suficientes, podemos cortar o financiamento. Arkan trocou um olhar rápido com Valéria. — E se dissermos que parte dos arquivos ainda existe? Lawrence o observou atentamente. — Está dizendo que os recuperaram? — Digamos que minha mãe — interveio Valéria — não destruiu tudo. Ela escondeu uma cópia. O agente inclinou-se levemente. — Então talvez ainda haja esperança de corrigir o que foi feito. --- Quando Lawrence saiu, Valéria ficou em silêncio por um tempo. O vento fazia as cortinas balançarem, e ela parecia pensar alto: — Às vezes penso se minha mãe sabia o quanto isso iria nos consumir. Arkan aproximou-se, apoiando o braço bom na cabeceira da cama. — Talvez ela soubesse. Mas também sabia que alguém precisaria terminar a história. — E esse alguém sou eu? — perguntou ela, com um sorriso cansado. — É o que ela queria. E, sinceramente, o que o mundo precisa. Valéria suspirou. — Eu só queria um tempo. Um lugar onde nada explodisse, onde as pessoas simplesmente... vivessem. — Posso te levar para lá. — Arkan sorriu de leve. — Um vilarejo na Capadócia, longe de tudo. Só nós. Ela o olhou por um longo instante. — E o legado? — O legado espera. Mas ambos sabiam que não era verdade. --- Dias depois, eles deixaram o hospital e viajaram até a pequena vila de Göreme, cercada pelas montanhas de rocha vulcânica e balões coloridos que flutuavam no céu. O silêncio do lugar era quase surreal depois do caos. A casa que Arkan alugara era simples, com janelas grandes e uma varanda de madeira. No primeiro pôr do sol, Valéria observou os balões dançando no horizonte. Arkan veio por trás e a envolveu com os braços. — Está linda assim — sussurrou ele. Ela sorriu. — Assim como? — Sem medo. — Não sei se perdi o medo — respondeu ela. — Só aprendi a dançar com ele. Ele beijou o topo de sua cabeça. — Então continue dançando. Eu sigo seu ritmo. E ficaram assim, em silêncio, até o sol desaparecer. --- Mas a paz raramente dura. Uma semana depois, um envelope foi deixado na porta da casa. Sem remetente, sem selo. Valéria o abriu devagar. Dentro, havia apenas uma foto: ela e Arkan, na varanda, tirada de longe. E um bilhete, com a mesma caligrafia que ela já conhecia: > “Os segredos não morrem com os culpados. Eles apenas escolhem novos guardiões.” O sangue de Valéria gelou. Ela olhou para Arkan, que já lia a mensagem com o maxilar travado. — Ele está vivo? — ela sussurrou. — Ou alguém continua o trabalho por ele — respondeu Arkan, com voz sombria. — De qualquer forma, não acabou. Valéria olhou para o horizonte. Os balões coloridos subiam novamente, pacíficos, indiferentes. Ela fechou os olhos e respirou fundo. — Então não fugimos mais — disse ela. — Agora, a história é nossa. Arkan assentiu. — Queime tudo, se for preciso. Mas dessa vez, faremos do nosso jeito. E o vento levou a última folha do bilhete, que se perdeu entre as rochas, como um presságio silencioso de que o legado de Kemal Demir ainda estava vivo — em algum lugar, esperando o momento certo para renascer.
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