O cheiro de fumaça ainda parecia preso na pele dela.
Mesmo dias depois da explosão em Izmir, Valéria acordava à noite sentindo o estalar do fogo nos ouvidos.
O corpo estava seguro, mas a mente ainda corria entre as ruínas.
O hospital havia se tornado um refúgio provisório.
Arkan dormia na poltrona ao lado, o braço direito engessado, o rosto marcado pela exaustão.
Ele insistira em ficar ali, mesmo quando os médicos garantiram que ela estava fora de perigo.
Valéria observava-o agora, enquanto o sol da manhã filtrava-se pela janela, dourando seus cabelos escuros.
Ela estendeu a mão e tocou de leve o rosto dele.
— Finalmente em paz — sussurrou. — Ou quase.
Mas paz, para Arkan Demir, nunca vinha sem um preço.
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Horas depois, ele acordou com o som suave de passos.
Selim entrou no quarto, carregando uma pasta grossa.
Seu olhar dizia tudo — o mundo fora daquele hospital continuava girando, e com ele, as consequências.
— Boas notícias? — perguntou Arkan, ainda sonolento.
Selim hesitou. — Depende do que você chama de boas.
Valéria se sentou, ajeitando os lençóis. — Fale, Selim.
— O governo turco encerrou oficialmente as investigações sobre Kemal Demir. O corpo dele foi encontrado entre os escombros.
Arkan ficou em silêncio, o olhar perdido em algum ponto distante.
— Então é verdade.
Selim assentiu. — Mas o problema é que parte dos arquivos digitais não foram destruídos. Alguém acessou o sistema antes da explosão.
— Haluk — murmurou Valéria, imediatamente.
— É o que parece — confirmou Selim. — E há mais. Um dos laboratórios parceiros de Kemal, em Zurique, foi reativado há dois dias.
Arkan respirou fundo. — Então o “legado” ainda respira.
Selim fechou a pasta e a colocou sobre a mesa. — Vocês precisam decidir o que fazer. Se continuarem envolvidos, estarão colocando o nome Demir e o projeto Luz de Paula sob holofotes perigosos.
Valéria olhou para Arkan. — Não podemos fingir que isso acabou.
Ele assentiu lentamente. — Mas também não podemos lutar sozinhos.
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À tarde, Arkan recebeu a visita de um homem alto, de terno escuro e sotaque britânico carregado.
— Sr. Demir. — O homem apresentou-se como agente Lawrence da Interpol. — Vim pessoalmente agradecer por sua colaboração.
Arkan arqueou a sobrancelha. — Agradecer?
— A explosão destruiu um dos maiores laboratórios clandestinos da Europa. Mas precisamos dos registros originais para impedir que o Dr. Haluk continue o projeto em outro país.
Valéria cruzou os braços. — Vocês acham mesmo que ele vai parar?
— Não — admitiu Lawrence. — Mas se tivermos provas suficientes, podemos cortar o financiamento.
Arkan trocou um olhar rápido com Valéria. — E se dissermos que parte dos arquivos ainda existe?
Lawrence o observou atentamente. — Está dizendo que os recuperaram?
— Digamos que minha mãe — interveio Valéria — não destruiu tudo. Ela escondeu uma cópia.
O agente inclinou-se levemente. — Então talvez ainda haja esperança de corrigir o que foi feito.
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Quando Lawrence saiu, Valéria ficou em silêncio por um tempo.
O vento fazia as cortinas balançarem, e ela parecia pensar alto:
— Às vezes penso se minha mãe sabia o quanto isso iria nos consumir.
Arkan aproximou-se, apoiando o braço bom na cabeceira da cama. — Talvez ela soubesse. Mas também sabia que alguém precisaria terminar a história.
— E esse alguém sou eu? — perguntou ela, com um sorriso cansado.
— É o que ela queria. E, sinceramente, o que o mundo precisa.
Valéria suspirou. — Eu só queria um tempo. Um lugar onde nada explodisse, onde as pessoas simplesmente... vivessem.
— Posso te levar para lá. — Arkan sorriu de leve. — Um vilarejo na Capadócia, longe de tudo. Só nós.
Ela o olhou por um longo instante. — E o legado?
— O legado espera.
Mas ambos sabiam que não era verdade.
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Dias depois, eles deixaram o hospital e viajaram até a pequena vila de Göreme, cercada pelas montanhas de rocha vulcânica e balões coloridos que flutuavam no céu.
O silêncio do lugar era quase surreal depois do caos.
A casa que Arkan alugara era simples, com janelas grandes e uma varanda de madeira.
No primeiro pôr do sol, Valéria observou os balões dançando no horizonte.
Arkan veio por trás e a envolveu com os braços.
— Está linda assim — sussurrou ele.
Ela sorriu. — Assim como?
— Sem medo.
— Não sei se perdi o medo — respondeu ela. — Só aprendi a dançar com ele.
Ele beijou o topo de sua cabeça. — Então continue dançando. Eu sigo seu ritmo.
E ficaram assim, em silêncio, até o sol desaparecer.
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Mas a paz raramente dura.
Uma semana depois, um envelope foi deixado na porta da casa.
Sem remetente, sem selo.
Valéria o abriu devagar. Dentro, havia apenas uma foto: ela e Arkan, na varanda, tirada de longe.
E um bilhete, com a mesma caligrafia que ela já conhecia:
> “Os segredos não morrem com os culpados.
Eles apenas escolhem novos guardiões.”
O sangue de Valéria gelou.
Ela olhou para Arkan, que já lia a mensagem com o maxilar travado.
— Ele está vivo? — ela sussurrou.
— Ou alguém continua o trabalho por ele — respondeu Arkan, com voz sombria. — De qualquer forma, não acabou.
Valéria olhou para o horizonte. Os balões coloridos subiam novamente, pacíficos, indiferentes.
Ela fechou os olhos e respirou fundo.
— Então não fugimos mais — disse ela. — Agora, a história é nossa.
Arkan assentiu. — Queime tudo, se for preciso. Mas dessa vez, faremos do nosso jeito.
E o vento levou a última folha do bilhete, que se perdeu entre as rochas, como um presságio silencioso de que o legado de Kemal Demir ainda estava vivo — em algum lugar, esperando o momento certo para renascer.