A fumaça subia alto, pintando o céu de cinza e vermelho.
O fogo consumia a casa de Leyla Demir como se quisesse apagar sua história, mas o vento — teimoso e feroz — parecia sussurrar o contrário: nem tudo que queima se perde.
De longe, Valéria e Arkan observavam o incêndio escondidos entre as árvores.
O rosto dela estava manchado de fuligem, os olhos marejados.
— Ela merecia descanso, não isso — murmurou Valéria.
— Ela teria rido disso — respondeu Arkan, com a voz rouca. — Mamãe dizia que o fogo era o único que sabia transformar a dor em beleza.
O estalo da madeira quebrando ecoava como um lamento.
Arkan fechou os punhos, e Valéria segurou a mão dele.
— O pen drive está seguro?
Ele assentiu, tocando o bolso interno do casaco. — Sim. Mas agora o mundo sabe que estamos vivos.
— E fugindo.
— Isso nunca me assustou — disse ele, olhando-a. — O que me assusta é te perder antes de tudo acabar.
Valéria o olhou com ternura e força. — Então prometa que, aconteça o que acontecer, nós dois vamos sair vivos disso.
Arkan hesitou, depois assentiu devagar. — Prometo.
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Em Istambul, a sala de Kemal Demir estava mergulhada em escuridão.
As janelas fechadas, o copo de uísque quase vazio.
Ele observava uma gravação no celular — imagens dos carros parando diante da casa em chamas.
Um dos capangas aparecia na tela. — “Eles escaparam, senhor. O fogo começou antes da nossa chegada.”
Kemal jogou o copo contra a parede, o som estilhaçando o silêncio.
— “Escaparam?” — rugiu ele. — “Dois filhos do caos e vocês os perdem no meio do fogo?”
O homem do outro lado da ligação gaguejou: — “Temos pistas… talvez estejam indo para o leste.”
— “Eu não quero talvez! Quero corpos!” — gritou Kemal, desligando o telefone.
Ele ficou em pé por um instante, o peito subindo e descendo em fúria.
Mas então, algo em sua expressão mudou.
Um breve lampejo de dor — humana, quase vulnerável — cruzou seus olhos.
Ele foi até a mesa e abriu uma gaveta secreta. Dentro, havia uma foto antiga: ele e Leyla, jovens, sorrindo sob o sol do Bósforo.
Kemal passou o dedo sobre o rosto dela e murmurou:
— “Por que você teve que deixar isso renascer, Leyla? Por que através dele?”
A porta se abriu atrás dele. Elif entrou, hesitante.
— Eu pedi para não ser interrompido — disse ele, sem olhar.
— Eu sei. Mas o senhor precisa ver isso.
Ela colocou sobre a mesa uma pasta de documentos.
Kemal franziu o cenho. — O que é isso?
— Relatórios da empresa. — Ela cruzou os braços. — Há movimentações financeiras que não vieram do senhor.
Kemal a olhou, intrigado. — Como assim?
— Alguém está usando os mesmos códigos de transferência que o senhor usava… há vinte anos.
O silêncio caiu pesado.
Kemal pegou os papéis, leu rapidamente — e o rosto empalideceu.
— “Não pode ser…”
Elif respirou fundo. — Alguém está abrindo as feridas do passado, senhor. E parece saber tudo.
Kemal fechou a pasta, encarando-a. — Ache quem é. Antes que eu o faça.
Elif assentiu, mas o olhar dela traía uma certeza silenciosa: ela já sabia quem era.
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Enquanto isso, em uma pensão à beira da estrada, Valéria tentava limpar o sangue seco do braço de Arkan.
Um pequeno corte, feito quando ele quebrara a janela no sótão.
— Isso vai arder — disse ela, aplicando o antisséptico.
— Já arde — respondeu ele, com um meio sorriso.
Ela riu, balançando a cabeça. — Ainda acha graça no meio do caos.
— É assim que a gente sobrevive — murmurou ele, olhando para ela com ternura. — Com pequenas doses de loucura e amor.
Valéria sentiu o olhar dele atravessá-la, e por um instante o mundo lá fora pareceu desaparecer.
Mas então, o celular dela vibrou.
Uma nova mensagem.
Sem nome. Sem saudação. Apenas uma frase:
> “Não confiem em ninguém. Nem em Mehmet.”
O coração dela gelou.
— Arkan…
Ele pegou o celular, leu e franziu o cenho. — Isso não faz sentido. Mehmet me criou. Ele é a única pessoa que eu confio.
— E se for exatamente por isso que ele é perigoso? — perguntou Valéria.
Arkan ficou em silêncio. Por dentro, uma dúvida começou a crescer — lenta, venenosa.
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Horas depois, já de madrugada, bateram à porta do quarto.
Três toques curtos, dois longos.
— É o código de Mehmet — disse Arkan, aliviado.
Ele abriu a porta.
O velho mordomo entrou, ofegante, o rosto coberto de suor.
— Meu menino — disse ele, abraçando Arkan. — Graças a Deus vocês estão bem!
— Como nos encontrou? — perguntou Valéria, desconfiada.
— Eu tenho meus contatos. — Ele sorriu cansado. — Mas precisamos sair daqui. Kemal colocou preço nas suas cabeças.
Arkan assentiu. — Temos o pen drive. A verdade sobre tudo.
Os olhos de Mehmet se estreitaram por um instante, quase imperceptível.
— Então o destino finalmente cobrou sua dívida.
Valéria percebeu o olhar, e algo dentro dela gritou em alerta.
Mas antes que pudesse falar, Arkan já se movia para arrumar as coisas.
— Vamos para a fronteira — disse ele. — De lá, posso enviar os arquivos para fora do país.
Mehmet assentiu, mas havia algo frio em seu tom. — Sim… é melhor assim.
Valéria, porém, não desviava os olhos dele.
O velho mordomo, que sempre parecera gentil, agora tinha algo oculto na expressão — um traço de dor, culpa… ou traição.
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Ao amanhecer, o trio seguia pela estrada, o carro deslizando entre montanhas e penhascos.
O rádio tocava uma melodia antiga, turca, triste e bela.
Arkan dirigia em silêncio. Valéria observava o horizonte.
Mehmet, no banco de trás, mantinha o olhar fixo na estrada.
Até que o carro começou a desacelerar.
— Arkan? — chamou Valéria.
— O tanque está quase vazio — respondeu ele. — Vamos parar no próximo posto.
Mas antes que chegassem lá, Mehmet falou baixinho:
— Não pare.
Arkan olhou pelo espelho. — O que?
— Não pare, Arkan. — A voz dele tremia. — Eles estão atrás de nós.
Valéria virou-se e viu, ao longe, dois faróis aproximando-se rapidamente.
— Eles nos encontraram!
Arkan acelerou, o motor rugindo.
A estrada se estreitava, curvas perigosas cortando o penhasco.
Os carros atrás ganhavam velocidade. Tiros ecoaram, estilhaçando o vidro traseiro.
Valéria gritou, abaixando-se.
Arkan manteve o controle com firmeza, desviando nas curvas.
— Segurem-se!
Um dos carros inimigos tentou ultrapassar, mas Arkan jogou o volante com precisão — o veículo colidiu contra as pedras e despencou no abismo.
— Um a menos! — gritou Valéria.
Mas o outro continuava atrás, incansável.
Foi então que Mehmet, com voz trêmula, disse:
— Me perdoem.
Arkan olhou pelo retrovisor. — O que está dizendo?
O velho ergueu algo brilhante — uma pequena caixa de metal.
— Eles me obrigaram… ou matariam vocês.
— Mehmet, não! — gritou Valéria.
Mas já era tarde.
Ele abriu a porta e se lançou do carro, levando a caixa consigo.
O impacto explodiu num clarão atrás deles.
O carro inimigo foi engolido pelas chamas.
Arkan freou bruscamente. O silêncio seguinte era absoluto.
Valéria o olhou, em choque. — Ele… se sacrificou.
Arkan respirava com dificuldade, as mãos tremendo no volante.
— Ele tentou se redimir.
Ela pousou a mão sobre a dele. — E conseguiu.
O sol começava a nascer, tingindo o céu de laranja e ouro.
Entre sombras e cinzas, o amor deles seguia vivo — como o fogo que Leyla tanto acreditara.
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Mais tarde, parados diante do mar n***o, Arkan abriu o pen drive no laptop.
Na tela, pastas com nomes, datas, e uma palavra em destaque: “Projeto Mancinni.”
Valéria arregalou os olhos. — Mancinni?
— Seu sobrenome — murmurou ele. — Isso muda tudo.
E no instante em que clicou no arquivo, uma nova mensagem apareceu na tela:
> “Se você está lendo isto, é porque chegou até o fim do começo.
O verdadeiro inimigo ainda não mostrou o rosto.”
Valéria sentiu o coração acelerar. — Isso… não foi sua mãe quem escreveu.
Arkan a olhou, os olhos azuis faiscando. — Não.
— Então quem foi?
Um trovão ecoou ao longe, como resposta do destino.
E, pela primeira vez, Arkan percebeu: a guerra apenas começara.