Capítulo 14 – Sombras e Cinzas

1415 Words
A fumaça subia alto, pintando o céu de cinza e vermelho. O fogo consumia a casa de Leyla Demir como se quisesse apagar sua história, mas o vento — teimoso e feroz — parecia sussurrar o contrário: nem tudo que queima se perde. De longe, Valéria e Arkan observavam o incêndio escondidos entre as árvores. O rosto dela estava manchado de fuligem, os olhos marejados. — Ela merecia descanso, não isso — murmurou Valéria. — Ela teria rido disso — respondeu Arkan, com a voz rouca. — Mamãe dizia que o fogo era o único que sabia transformar a dor em beleza. O estalo da madeira quebrando ecoava como um lamento. Arkan fechou os punhos, e Valéria segurou a mão dele. — O pen drive está seguro? Ele assentiu, tocando o bolso interno do casaco. — Sim. Mas agora o mundo sabe que estamos vivos. — E fugindo. — Isso nunca me assustou — disse ele, olhando-a. — O que me assusta é te perder antes de tudo acabar. Valéria o olhou com ternura e força. — Então prometa que, aconteça o que acontecer, nós dois vamos sair vivos disso. Arkan hesitou, depois assentiu devagar. — Prometo. --- Em Istambul, a sala de Kemal Demir estava mergulhada em escuridão. As janelas fechadas, o copo de uísque quase vazio. Ele observava uma gravação no celular — imagens dos carros parando diante da casa em chamas. Um dos capangas aparecia na tela. — “Eles escaparam, senhor. O fogo começou antes da nossa chegada.” Kemal jogou o copo contra a parede, o som estilhaçando o silêncio. — “Escaparam?” — rugiu ele. — “Dois filhos do caos e vocês os perdem no meio do fogo?” O homem do outro lado da ligação gaguejou: — “Temos pistas… talvez estejam indo para o leste.” — “Eu não quero talvez! Quero corpos!” — gritou Kemal, desligando o telefone. Ele ficou em pé por um instante, o peito subindo e descendo em fúria. Mas então, algo em sua expressão mudou. Um breve lampejo de dor — humana, quase vulnerável — cruzou seus olhos. Ele foi até a mesa e abriu uma gaveta secreta. Dentro, havia uma foto antiga: ele e Leyla, jovens, sorrindo sob o sol do Bósforo. Kemal passou o dedo sobre o rosto dela e murmurou: — “Por que você teve que deixar isso renascer, Leyla? Por que através dele?” A porta se abriu atrás dele. Elif entrou, hesitante. — Eu pedi para não ser interrompido — disse ele, sem olhar. — Eu sei. Mas o senhor precisa ver isso. Ela colocou sobre a mesa uma pasta de documentos. Kemal franziu o cenho. — O que é isso? — Relatórios da empresa. — Ela cruzou os braços. — Há movimentações financeiras que não vieram do senhor. Kemal a olhou, intrigado. — Como assim? — Alguém está usando os mesmos códigos de transferência que o senhor usava… há vinte anos. O silêncio caiu pesado. Kemal pegou os papéis, leu rapidamente — e o rosto empalideceu. — “Não pode ser…” Elif respirou fundo. — Alguém está abrindo as feridas do passado, senhor. E parece saber tudo. Kemal fechou a pasta, encarando-a. — Ache quem é. Antes que eu o faça. Elif assentiu, mas o olhar dela traía uma certeza silenciosa: ela já sabia quem era. --- Enquanto isso, em uma pensão à beira da estrada, Valéria tentava limpar o sangue seco do braço de Arkan. Um pequeno corte, feito quando ele quebrara a janela no sótão. — Isso vai arder — disse ela, aplicando o antisséptico. — Já arde — respondeu ele, com um meio sorriso. Ela riu, balançando a cabeça. — Ainda acha graça no meio do caos. — É assim que a gente sobrevive — murmurou ele, olhando para ela com ternura. — Com pequenas doses de loucura e amor. Valéria sentiu o olhar dele atravessá-la, e por um instante o mundo lá fora pareceu desaparecer. Mas então, o celular dela vibrou. Uma nova mensagem. Sem nome. Sem saudação. Apenas uma frase: > “Não confiem em ninguém. Nem em Mehmet.” O coração dela gelou. — Arkan… Ele pegou o celular, leu e franziu o cenho. — Isso não faz sentido. Mehmet me criou. Ele é a única pessoa que eu confio. — E se for exatamente por isso que ele é perigoso? — perguntou Valéria. Arkan ficou em silêncio. Por dentro, uma dúvida começou a crescer — lenta, venenosa. --- Horas depois, já de madrugada, bateram à porta do quarto. Três toques curtos, dois longos. — É o código de Mehmet — disse Arkan, aliviado. Ele abriu a porta. O velho mordomo entrou, ofegante, o rosto coberto de suor. — Meu menino — disse ele, abraçando Arkan. — Graças a Deus vocês estão bem! — Como nos encontrou? — perguntou Valéria, desconfiada. — Eu tenho meus contatos. — Ele sorriu cansado. — Mas precisamos sair daqui. Kemal colocou preço nas suas cabeças. Arkan assentiu. — Temos o pen drive. A verdade sobre tudo. Os olhos de Mehmet se estreitaram por um instante, quase imperceptível. — Então o destino finalmente cobrou sua dívida. Valéria percebeu o olhar, e algo dentro dela gritou em alerta. Mas antes que pudesse falar, Arkan já se movia para arrumar as coisas. — Vamos para a fronteira — disse ele. — De lá, posso enviar os arquivos para fora do país. Mehmet assentiu, mas havia algo frio em seu tom. — Sim… é melhor assim. Valéria, porém, não desviava os olhos dele. O velho mordomo, que sempre parecera gentil, agora tinha algo oculto na expressão — um traço de dor, culpa… ou traição. --- Ao amanhecer, o trio seguia pela estrada, o carro deslizando entre montanhas e penhascos. O rádio tocava uma melodia antiga, turca, triste e bela. Arkan dirigia em silêncio. Valéria observava o horizonte. Mehmet, no banco de trás, mantinha o olhar fixo na estrada. Até que o carro começou a desacelerar. — Arkan? — chamou Valéria. — O tanque está quase vazio — respondeu ele. — Vamos parar no próximo posto. Mas antes que chegassem lá, Mehmet falou baixinho: — Não pare. Arkan olhou pelo espelho. — O que? — Não pare, Arkan. — A voz dele tremia. — Eles estão atrás de nós. Valéria virou-se e viu, ao longe, dois faróis aproximando-se rapidamente. — Eles nos encontraram! Arkan acelerou, o motor rugindo. A estrada se estreitava, curvas perigosas cortando o penhasco. Os carros atrás ganhavam velocidade. Tiros ecoaram, estilhaçando o vidro traseiro. Valéria gritou, abaixando-se. Arkan manteve o controle com firmeza, desviando nas curvas. — Segurem-se! Um dos carros inimigos tentou ultrapassar, mas Arkan jogou o volante com precisão — o veículo colidiu contra as pedras e despencou no abismo. — Um a menos! — gritou Valéria. Mas o outro continuava atrás, incansável. Foi então que Mehmet, com voz trêmula, disse: — Me perdoem. Arkan olhou pelo retrovisor. — O que está dizendo? O velho ergueu algo brilhante — uma pequena caixa de metal. — Eles me obrigaram… ou matariam vocês. — Mehmet, não! — gritou Valéria. Mas já era tarde. Ele abriu a porta e se lançou do carro, levando a caixa consigo. O impacto explodiu num clarão atrás deles. O carro inimigo foi engolido pelas chamas. Arkan freou bruscamente. O silêncio seguinte era absoluto. Valéria o olhou, em choque. — Ele… se sacrificou. Arkan respirava com dificuldade, as mãos tremendo no volante. — Ele tentou se redimir. Ela pousou a mão sobre a dele. — E conseguiu. O sol começava a nascer, tingindo o céu de laranja e ouro. Entre sombras e cinzas, o amor deles seguia vivo — como o fogo que Leyla tanto acreditara. --- Mais tarde, parados diante do mar n***o, Arkan abriu o pen drive no laptop. Na tela, pastas com nomes, datas, e uma palavra em destaque: “Projeto Mancinni.” Valéria arregalou os olhos. — Mancinni? — Seu sobrenome — murmurou ele. — Isso muda tudo. E no instante em que clicou no arquivo, uma nova mensagem apareceu na tela: > “Se você está lendo isto, é porque chegou até o fim do começo. O verdadeiro inimigo ainda não mostrou o rosto.” Valéria sentiu o coração acelerar. — Isso… não foi sua mãe quem escreveu. Arkan a olhou, os olhos azuis faiscando. — Não. — Então quem foi? Um trovão ecoou ao longe, como resposta do destino. E, pela primeira vez, Arkan percebeu: a guerra apenas começara.
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