Capítulo 15 – Projeto Mancinni

1216 Words
O som das ondas do Mar n***o batendo nas rochas preenchia o silêncio pesado do quarto. O laptop, sobre a mesa improvisada do pequeno chalé, emitia uma luz fria que refletia no rosto de Arkan. Valéria estava ao lado dele, com o coração disparado. Na tela, o nome do arquivo piscava em letras brancas: “Projeto Mancinni – Confidencial / Propriedade de Kemal Demir Holdings.” — Isso não pode ser — murmurou ela. — O sobrenome é da minha mãe. — Então, o que quer que isso seja — respondeu Arkan —, está ligado a você. Ele clicou duas vezes. O arquivo se abriu em um mosaico de documentos digitalizados, relatórios, fotos e gravações antigas. A primeira imagem fez Valéria prender a respiração. Era uma fotografia de Paula Mancinni — mais jovem, em um laboratório, vestida com jaleco branco. Ao fundo, o logotipo da Demir Holdings. — Minha mãe… — sussurrou ela. — Ela trabalhou para eles? Arkan franziu o cenho. — Isso muda tudo. --- Os relatórios descreviam um projeto iniciado vinte e sete anos antes. Um programa confidencial financiado por Kemal Demir e supervisionado por Leyla. O nome do projeto: “Mancinni”, em homenagem à cientista italiana que o concebeu — Paula Mancinni. Arkan lia em voz alta, a cada linha o peso da revelação se tornando maior: > “Objetivo: desenvolver um sistema de controle genético para otimizar a compatibilidade de órgãos e criar padrões hereditários de saúde e desempenho. Testes experimentais conduzidos com amostras de famílias voluntárias. Supervisão ética sob responsabilidade da Dra. Mancinni.” Valéria se levantou abruptamente. — Controle genético? Isso é monstruoso! — Continue lendo — pediu Arkan, a voz tensa. > “Fase 3: interrupção abrupta após divergências entre a Dra. Mancinni e o Sr. Kemal Demir. A cientista recusou-se a assinar os relatórios falsificados. Rumores de que informações sensíveis foram retiradas do país antes do encerramento.” Ela o olhou, estarrecida. — Ele destruiu a carreira dela… e talvez a vida dela. Arkan fechou o laptop por um momento, respirando fundo. — Isso explica o ódio dele. — Como assim? — Seu pai acreditava que Leyla traiu a família Demir por amor. Mas e se ele também achasse que ela traiu nos negócios? Valéria entendeu. — Por causa da minha mãe. — E por causa de você — completou Arkan. — Você é o elo final dessa história. --- Do lado de fora, o vento soprou mais forte, fazendo o chalé ranger. Valéria se afastou da mesa, o olhar perdido. — Isso significa que tudo o que vivemos… não foi acaso. Que eu e você… Arkan se levantou, aproximando-se. — Não. — Mas Arkan, e se… se o projeto envolvia compatibilidade genética… e se... — Não — repetiu ele, firme, segurando o rosto dela com as duas mãos. — Eu te amo pelo que você é, não pelo que nossas famílias planejaram. Ela piscou, as lágrimas escorrendo. — E se for tarde demais? — Nunca é tarde para escolher amar de verdade — disse ele, antes de beijá-la. O beijo foi urgente, intenso — o tipo de beijo que nasce entre ruínas. Quando se separaram, o ar entre eles estava carregado de algo mais forte que medo. — Vamos expor isso — disse ela, decidida. — Vamos mostrar ao mundo o que ele fez. Arkan assentiu. — Mas precisamos de ajuda. — Elif — respondeu Valéria, sem hesitar. — Ela tentou nos avisar. Ele a olhou com desconfiança. — E se for uma armadilha? — Então cairemos juntos. — Ela sorriu triste. — Mas ao menos lutaremos por algo que vale a pena. --- Horas depois, à noite, Elif estava em um café discreto de Karaköy, quando recebeu uma mensagem cifrada: > “O Projeto Mancinni ainda existe. Nos encontramos amanhã. Mesmo lugar.” Ela olhou em volta, nervosa. Sabia que cada passo era vigiado, cada gesto monitorado. Mas algo dentro dela — talvez o mesmo instinto que a fizera trair Kemal — dizia que precisava continuar. --- Na manhã seguinte, Valéria e Arkan voltaram a Istambul. Entraram disfarçados, com roupas simples e rostos cobertos por capuzes. O café era pequeno, com cheiro de café forte e pão quente. Elif já estava lá, sentada num canto. Quando os viu, levantou-se rapidamente. — Meu Deus… vocês estão vivos! Valéria a abraçou. — Por pouco. Arkan permaneceu alerta, observando o entorno. — Kemal te suspeita? — Ele suspeita de todos. — Elif olhou para os dois. — O que descobriram? Valéria colocou o laptop sobre a mesa. — Tudo. A verdade sobre o Projeto Mancinni. Elif digitou rapidamente, abrindo os arquivos. Os olhos dela se arregalaram. — Santo Deus… isso… isso é grande demais. — Grande o bastante para derrubar um império — disse Arkan. — E perigoso o bastante para matar todos nós — respondeu Elif. — Vocês não têm ideia do que estão enfrentando. Valéria o encarou. — Temos sim. Elif respirou fundo, olhando em volta. — Há uma pessoa que pode ajudar. Alguém que já tentou destruir Kemal antes… e falhou. — Quem? — perguntou Arkan. — Um ex-investidor da Demir Holdings. O nome dele é Selim Karadag. Ele vive escondido em Bursa, nas montanhas. Arkan assentiu. — Então é pra lá que vamos. — Esperem. — Elif segurou o braço dele. — Há algo que precisam saber. Ela os olhou com seriedade. — O Projeto Mancinni nunca foi totalmente encerrado. Alguém o reativou há três anos… dentro da própria empresa. Valéria sentiu o coração gelar. — Quem? Elif hesitou. — O nome no registro é… Arkan Demir. O silêncio caiu pesado como um golpe. — Isso é impossível — murmurou Arkan. — Eu nunca… — Alguém está usando seu nome — completou Elif. — E provavelmente quer que o mundo acredite que foi você quem continuou o trabalho do seu pai. Valéria o olhou, o medo misturado à dor. — Estão tentando te transformar no inimigo. — Então vamos mostrar que não somos as vítimas, e sim a verdade — respondeu ele, determinado. --- Naquela noite, já a caminho de Bursa, o carro avançava pela estrada molhada de chuva. Valéria dormia, a cabeça apoiada no ombro de Arkan. Ele mantinha os olhos fixos na estrada, mas por dentro, o coração pesava. A voz de sua mãe ecoava em sua mente: "Use a verdade por amor, não por vingança." Mas o amor agora vinha misturado ao medo, e a linha entre justiça e ódio tornava-se cada vez mais tênue. Do lado de fora, um raio iluminou o céu. E por um instante, ele viu — refletido no espelho — o farol de um carro distante, seguindo-os. Arkan estreitou os olhos. — Não estamos sozinhos. --- Em Istambul, Kemal observava o mapa digital em sua tela, os rastreadores piscando em vermelho. Ele sorriu, frio. — Corram, meus filhos — murmurou. — Corram enquanto ainda há estrada. Ao seu lado, uma mulher apareceu na penumbra. Ela tinha olhos escuros, voz calma, e um sorriso enigmático. — Está pronto para que tudo volte a começar, Kemal? — perguntou ela. Ele a olhou, surpreso. — Você? Eu pensei que estivesse morta. Ela sorriu, inclinando a cabeça. — E você sempre subestimou o poder do amor. O rosto dela se iluminou sob a luz — Paula Mancinni.
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