O som das ondas do Mar n***o batendo nas rochas preenchia o silêncio pesado do quarto.
O laptop, sobre a mesa improvisada do pequeno chalé, emitia uma luz fria que refletia no rosto de Arkan.
Valéria estava ao lado dele, com o coração disparado.
Na tela, o nome do arquivo piscava em letras brancas:
“Projeto Mancinni – Confidencial / Propriedade de Kemal Demir Holdings.”
— Isso não pode ser — murmurou ela. — O sobrenome é da minha mãe.
— Então, o que quer que isso seja — respondeu Arkan —, está ligado a você.
Ele clicou duas vezes.
O arquivo se abriu em um mosaico de documentos digitalizados, relatórios, fotos e gravações antigas.
A primeira imagem fez Valéria prender a respiração.
Era uma fotografia de Paula Mancinni — mais jovem, em um laboratório, vestida com jaleco branco.
Ao fundo, o logotipo da Demir Holdings.
— Minha mãe… — sussurrou ela. — Ela trabalhou para eles?
Arkan franziu o cenho. — Isso muda tudo.
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Os relatórios descreviam um projeto iniciado vinte e sete anos antes.
Um programa confidencial financiado por Kemal Demir e supervisionado por Leyla.
O nome do projeto: “Mancinni”, em homenagem à cientista italiana que o concebeu — Paula Mancinni.
Arkan lia em voz alta, a cada linha o peso da revelação se tornando maior:
> “Objetivo: desenvolver um sistema de controle genético para otimizar a compatibilidade de órgãos e criar padrões hereditários de saúde e desempenho.
Testes experimentais conduzidos com amostras de famílias voluntárias.
Supervisão ética sob responsabilidade da Dra. Mancinni.”
Valéria se levantou abruptamente. — Controle genético? Isso é monstruoso!
— Continue lendo — pediu Arkan, a voz tensa.
> “Fase 3: interrupção abrupta após divergências entre a Dra. Mancinni e o Sr. Kemal Demir.
A cientista recusou-se a assinar os relatórios falsificados.
Rumores de que informações sensíveis foram retiradas do país antes do encerramento.”
Ela o olhou, estarrecida. — Ele destruiu a carreira dela… e talvez a vida dela.
Arkan fechou o laptop por um momento, respirando fundo. — Isso explica o ódio dele.
— Como assim?
— Seu pai acreditava que Leyla traiu a família Demir por amor. Mas e se ele também achasse que ela traiu nos negócios?
Valéria entendeu. — Por causa da minha mãe.
— E por causa de você — completou Arkan. — Você é o elo final dessa história.
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Do lado de fora, o vento soprou mais forte, fazendo o chalé ranger.
Valéria se afastou da mesa, o olhar perdido.
— Isso significa que tudo o que vivemos… não foi acaso. Que eu e você…
Arkan se levantou, aproximando-se. — Não.
— Mas Arkan, e se… se o projeto envolvia compatibilidade genética… e se...
— Não — repetiu ele, firme, segurando o rosto dela com as duas mãos. — Eu te amo pelo que você é, não pelo que nossas famílias planejaram.
Ela piscou, as lágrimas escorrendo. — E se for tarde demais?
— Nunca é tarde para escolher amar de verdade — disse ele, antes de beijá-la.
O beijo foi urgente, intenso — o tipo de beijo que nasce entre ruínas.
Quando se separaram, o ar entre eles estava carregado de algo mais forte que medo.
— Vamos expor isso — disse ela, decidida. — Vamos mostrar ao mundo o que ele fez.
Arkan assentiu. — Mas precisamos de ajuda.
— Elif — respondeu Valéria, sem hesitar. — Ela tentou nos avisar.
Ele a olhou com desconfiança. — E se for uma armadilha?
— Então cairemos juntos. — Ela sorriu triste. — Mas ao menos lutaremos por algo que vale a pena.
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Horas depois, à noite, Elif estava em um café discreto de Karaköy, quando recebeu uma mensagem cifrada:
> “O Projeto Mancinni ainda existe. Nos encontramos amanhã. Mesmo lugar.”
Ela olhou em volta, nervosa.
Sabia que cada passo era vigiado, cada gesto monitorado.
Mas algo dentro dela — talvez o mesmo instinto que a fizera trair Kemal — dizia que precisava continuar.
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Na manhã seguinte, Valéria e Arkan voltaram a Istambul.
Entraram disfarçados, com roupas simples e rostos cobertos por capuzes.
O café era pequeno, com cheiro de café forte e pão quente.
Elif já estava lá, sentada num canto.
Quando os viu, levantou-se rapidamente. — Meu Deus… vocês estão vivos!
Valéria a abraçou. — Por pouco.
Arkan permaneceu alerta, observando o entorno. — Kemal te suspeita?
— Ele suspeita de todos. — Elif olhou para os dois. — O que descobriram?
Valéria colocou o laptop sobre a mesa. — Tudo. A verdade sobre o Projeto Mancinni.
Elif digitou rapidamente, abrindo os arquivos.
Os olhos dela se arregalaram. — Santo Deus… isso… isso é grande demais.
— Grande o bastante para derrubar um império — disse Arkan.
— E perigoso o bastante para matar todos nós — respondeu Elif. — Vocês não têm ideia do que estão enfrentando.
Valéria o encarou. — Temos sim.
Elif respirou fundo, olhando em volta. — Há uma pessoa que pode ajudar. Alguém que já tentou destruir Kemal antes… e falhou.
— Quem? — perguntou Arkan.
— Um ex-investidor da Demir Holdings. O nome dele é Selim Karadag. Ele vive escondido em Bursa, nas montanhas.
Arkan assentiu. — Então é pra lá que vamos.
— Esperem. — Elif segurou o braço dele. — Há algo que precisam saber.
Ela os olhou com seriedade. — O Projeto Mancinni nunca foi totalmente encerrado. Alguém o reativou há três anos… dentro da própria empresa.
Valéria sentiu o coração gelar. — Quem?
Elif hesitou. — O nome no registro é… Arkan Demir.
O silêncio caiu pesado como um golpe.
— Isso é impossível — murmurou Arkan. — Eu nunca…
— Alguém está usando seu nome — completou Elif. — E provavelmente quer que o mundo acredite que foi você quem continuou o trabalho do seu pai.
Valéria o olhou, o medo misturado à dor. — Estão tentando te transformar no inimigo.
— Então vamos mostrar que não somos as vítimas, e sim a verdade — respondeu ele, determinado.
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Naquela noite, já a caminho de Bursa, o carro avançava pela estrada molhada de chuva.
Valéria dormia, a cabeça apoiada no ombro de Arkan.
Ele mantinha os olhos fixos na estrada, mas por dentro, o coração pesava.
A voz de sua mãe ecoava em sua mente:
"Use a verdade por amor, não por vingança."
Mas o amor agora vinha misturado ao medo, e a linha entre justiça e ódio tornava-se cada vez mais tênue.
Do lado de fora, um raio iluminou o céu.
E por um instante, ele viu — refletido no espelho — o farol de um carro distante, seguindo-os.
Arkan estreitou os olhos. — Não estamos sozinhos.
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Em Istambul, Kemal observava o mapa digital em sua tela, os rastreadores piscando em vermelho.
Ele sorriu, frio.
— Corram, meus filhos — murmurou. — Corram enquanto ainda há estrada.
Ao seu lado, uma mulher apareceu na penumbra.
Ela tinha olhos escuros, voz calma, e um sorriso enigmático.
— Está pronto para que tudo volte a começar, Kemal? — perguntou ela.
Ele a olhou, surpreso. — Você? Eu pensei que estivesse morta.
Ela sorriu, inclinando a cabeça. — E você sempre subestimou o poder do amor.
O rosto dela se iluminou sob a luz — Paula Mancinni.