Capítulo 19 – A Verdade Libertada

1291 Words
O dia amanheceu em Istambul como se o céu soubesse que algo havia mudado. As manchetes pipocavam nos noticiários, as redes sociais explodiam em fúria e choque. > “Escândalo Demir: provas revelam manipulação genética, corrupção e desaparecimento de cientistas.” “Projeto Mancinni: o segredo sombrio por trás do império turco.” Em poucas horas, o nome Kemal Demir deixara de significar poder — para se tornar sinônimo de traição e horror. Valéria e Arkan observavam as notícias em uma televisão de um pequeno hotel em Ankara. As imagens mostravam protestos diante dos prédios da Demir Holdings, helicópteros sobrevoando o Bósforo, e repórteres tentando entrevistar ex-funcionários. — Conseguimos — disse Selim, com a voz rouca. — O mundo viu. Valéria estava sentada, o rosto pálido. — Mas a que custo? Arkan a olhou. — Ao custo da verdade. Ela assentiu lentamente, apertando o disco metálico entre as mãos. — O legado das nossas mães não era destruir, era libertar. — E foi o que fizemos — respondeu ele. Mas mesmo enquanto diziam isso, ambos sabiam: a guerra estava longe de terminar. --- Em sua cobertura, Kemal Demir assistia à mesma transmissão com um copo de uísque na mão. As veias do pescoço estavam salientes, o rosto tomado por uma fúria fria. — Malditos… — murmurou, esmagando o copo contra a mesa. Atrás dele, dois seguranças esperavam em silêncio. — Quero cada um deles — disse, com voz baixa e mortal. — Arkan. Valéria. Selim. — Senhor, a polícia internacional já está investigando… — Eu não perguntei o que a polícia está fazendo! — rugiu ele. — Eu perguntei o que vocês farão! Os seguranças se curvaram e saíram, deixando-o sozinho. Kemal olhou para o reflexo no vidro — um homem que fora rei e agora via seu trono em chamas. E por um instante, algo brilhou em seus olhos — não ódio, mas dor. — Leyla… — murmurou. — Eles te transformaram em mártir. E agora eu sou o monstro. --- Enquanto isso, Valéria caminhava pela sacada do quarto, olhando a cidade abaixo. O vento frio da manhã tocava seu rosto, e o som distante de sirenes parecia ecoar seu próprio coração. Arkan se aproximou, ficando atrás dela. — O mundo vai tentar transformar a verdade em espetáculo. Mas não podemos perder o foco. — Eu sei. — Ela respirou fundo. — Mas e se eles tentarem distorcer tudo? Dizer que somos culpados também? Ele a segurou pelos ombros, firme. — Então seremos culpados… por ter feito o certo. Ela virou-se para ele, os olhos marejados. — Às vezes esqueço que você é filho dele. Arkan abaixou a cabeça. — E é por isso que preciso fazer o que ele nunca fez: assumir a responsabilidade. Valéria o abraçou. — Não somos os pecados dos nossos pais. — Não — respondeu ele. — Somos o amor que eles não tiveram coragem de viver. --- Horas depois, Selim recebeu uma ligação. — É da imprensa internacional — disse ele. — Querem que Valéria dê uma entrevista. — Não — respondeu Arkan de imediato. — É cedo demais. Mas Valéria o interrompeu. — É hora, Arkan. Eles precisam ouvir da minha boca o que aconteceu. — Isso vai te expor. — Já estamos expostos — disse ela. — Agora eu quero ser ouvida. --- O estúdio de TV em Ankara estava em silêncio quando as câmeras começaram a gravar. Valéria, vestida com simplicidade, mas com os olhos firmes, sentou-se diante da jornalista. — Senhorita Mancinni, a senhora confirma que o projeto foi financiado pela Demir Holdings? — Confirmo. E confirmo também que o objetivo não era ciência, mas manipulação e poder. — E qual era o envolvimento de Arkan Demir? Valéria olhou para a câmera, sem hesitar. — Arkan não é cúmplice. Ele é a prova viva de que mesmo nascido do erro, alguém pode escolher a verdade. O silêncio no estúdio foi absoluto. Do outro lado do mundo, milhões de pessoas assistiam. O nome dela — Valéria Paula Mancinni — começava a ser pronunciado como o símbolo de coragem. --- Em Istambul, Kemal observava a entrevista em silêncio. Quando a repórter mencionou o nome de Arkan, o rosto dele endureceu. — Ele escolheu o lado dela… — murmurou. — Então que morra com ela. --- Naquela mesma noite, Selim recebeu uma mensagem cifrada. Um remetente desconhecido. > “Se querem sobreviver, saiam de Ankara agora. Ele está vindo.” Selim olhou para Arkan. — Temos que ir. Arkan franziu o cenho. — Quem mandou isso? — Não sei. Mas se é o que penso… talvez alguém do círculo dele ainda tenha consciência. --- O grupo deixou o hotel às pressas, atravessando ruas estreitas e se misturando à multidão. Mas um carro preto os seguia à distância. Dentro dele, um dos homens de Kemal falava ao rádio. — Os tenho à vista. Seguindo para a autoestrada. --- Quando o carro deles chegou à periferia de Ankara, Arkan percebeu pelo retrovisor as luzes se aproximando. — Segurem-se. — girou o volante bruscamente e entrou por uma estrada secundária. Valéria segurava o braço de Selim com força. — Eles estão nos cercando! — Confia em mim — disse Arkan, acelerando. Os pneus rasgaram o asfalto molhado. Um dos veículos dos perseguidores derrapou e bateu em uma barreira. Mas outro continuava atrás. Arkan virou para uma estrada estreita que levava a uma pedreira abandonada. O som dos motores ecoava nas rochas. — Arkan! — gritou Valéria. — Vamos ficar encurralados! Ele olhou para ela, os olhos intensos. — Às vezes, o melhor jeito de vencer… é parar de fugir. --- O carro deles parou em meio à poeira. Os homens armados desceram dos veículos, cercando-os. Do meio deles, um homem alto e de terno desceu lentamente. — Então é aqui que o amor romântico acaba — disse Kemal Demir, surgindo das sombras. Valéria sentiu o corpo gelar. Arkan deu um passo à frente. — Pai. — Não me chame assim — respondeu Kemal, a voz fria. — Você desonrou meu nome. — Eu salvei o que restava dele. Kemal riu, sem humor. — Salvar? Você destruiu tudo o que construí! Valéria se colocou entre os dois. — O que você construiu foi dor. O que destruímos foi mentira. Ele a olhou com desdém. — Você fala como sua mãe. Orgulhosa. Idealista. Morta. Valéria ergueu o queixo. — E ainda assim, mais viva do que o senhor jamais será. O silêncio que se seguiu foi cortante. Kemal levantou a arma, mirando nela. Mas antes que pudesse atirar, uma sirene cortou o ar. Luzes vermelhas e azuis invadiram o vale — viaturas da Interpol. Selim levantou as mãos. — Enviamos os dados para a polícia, Kemal. Tudo o que você fez. Kemal olhou em volta, percebendo que estava cercado. Mas em vez de fugir, baixou lentamente a arma. — Então é assim que termina — murmurou. Arkan se aproximou, com os olhos marejados. — Pai… ainda pode escolher ser humano. Kemal o olhou longamente. Por um instante, seu olhar vacilou. Mas então, com um sorriso triste, ele disse: — Eu fiz minhas escolhas há muito tempo. E ergueu as mãos para ser levado. --- Horas depois, o sol nascia sobre Ankara novamente. Valéria e Arkan estavam sentados em um campo, longe de tudo, o som dos helicópteros se afastando. Ela respirou fundo. — Acabou. Ele balançou a cabeça. — Ainda não. Mas o pior, sim. Ela olhou para ele, um sorriso suave surgindo. — O que acontece agora? — Agora — respondeu ele, entrelaçando os dedos nos dela — nós vivemos. O vento soprou entre eles, leve, quente, quase como uma bênção. E pela primeira vez desde que tudo começou, o silêncio não era medo — era paz.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD