Capítulo 20 – Entre Cinzas e Promessas

1232 Words
A notícia da prisão de Kemal Demir se espalhou como fogo. As imagens do magnata sendo levado algemado, cercado por agentes internacionais, se tornaram o símbolo de uma nova era — uma era em que o poder não mais se escondia atrás de muros de ouro. Mas para Valéria e Arkan, a vitória não parecia doce. Era silenciosa. Dolorida. Nos dias seguintes, eles permaneceram afastados do mundo, em uma casa simples no interior de Eskişehir, cercada por campos secos e oliveiras antigas. O tempo parecia parado. O som do vento era o único ruído que quebrava o vazio. Valéria observava o horizonte todas as manhãs, o disco prateado ainda sobre a mesa, como uma lembrança constante do preço que haviam pago. Às vezes, ela ainda esperava ver a mãe cruzar a porta, sorrindo, com o cabelo preso e aquele olhar calmo. Mas o eco da realidade voltava rápido. Paula Mancinni estava morta. E o mundo inteiro sabia o que ela havia tentado impedir. --- Arkan passava as manhãs consertando coisas ao redor da casa — o portão, o carro, o telhado. Era sua forma de lidar com a culpa. Valéria sabia. E o amava ainda mais por isso. Uma tarde, quando o sol se punha em tons de cobre e vinho, ela o encontrou sentado nos degraus da varanda, com um cigarro entre os dedos e o olhar distante. — Faz tempo que não te vejo fumar — disse ela, com um sorriso leve. Ele deu uma risada curta. — Nem lembrava mais como era. Acho que preciso sentir algo… mesmo que seja o gosto da fumaça. Ela se sentou ao lado dele. — E o que você sente agora? Ele demorou a responder. — Que destruí meu pai. Valéria ficou em silêncio por um momento. Depois, disse com doçura: — Você destruiu o império dele. Não o homem. Esse já estava destruído há muito tempo. Arkan virou o rosto para ela, e havia dor nos olhos azuis. — Mesmo assim, sou o que restou dele. Ela segurou o rosto dele entre as mãos. — Não. Você é o que o amor transformou. E isso é o que ele nunca foi capaz de ser. Ele a olhou por um instante longo, e depois, lentamente, encostou a testa na dela. O vento soprou entre os dois, e pela primeira vez, Arkan chorou. --- No dia seguinte, Selim chegou com notícias. Trazia um jornal dobrado debaixo do braço e um laptop na mochila. — O mundo não para — disse, entrando. — A Demir Holdings está ruindo. As ações despencaram, e investidores de vários países estão rompendo contratos. Arkan se levantou. — E o governo? — O governo turco abriu uma investigação formal. Vários políticos estão sendo implicados. — Selim olhou para Valéria. — E você, minha querida, está sendo chamada de heroína. Ela deu uma risada incrédula. — Heroína? Eu me sinto… exausta. — Os heróis raramente se sentem vitoriosos — respondeu Selim, com um sorriso gentil. — Mas o mundo precisa de alguém em quem acreditar. Valéria suspirou. — E o mundo precisa aprender a não adorar falsos deuses. --- Naquela noite, ela não conseguiu dormir. Saiu para o campo e ficou olhando o céu, pontilhado de estrelas. O vento frio batia no rosto, trazendo consigo o perfume das oliveiras. De repente, ouviu passos atrás de si. Era Arkan. — Você sempre foge quando pensa demais — disse ele, aproximando-se. — E você sempre me acha — respondeu ela. Ele sorriu. — Talvez porque eu sempre esteja procurando. Ela se virou para ele. — Arkan… o que vai ser da gente agora? Ele respirou fundo. — Podemos desaparecer. Viver longe de tudo. O mundo não precisa de nós. — Mas nós precisamos do mundo — disse ela, olhando as estrelas. — O que fizemos… não pode acabar aqui. Ele a observou por um momento. — Quer continuar a luta? — Quero continuar viva — respondeu ela. — E viva é o que eu me sinto quando luto por algo maior que a dor. Arkan deu um passo à frente, segurando a mão dela. — Então vamos lutar. Mas juntos. Ela sorriu, emocionada. — Sempre. Ele a puxou para si, e o beijo que se seguiu foi lento, profundo, como uma promessa silenciosa entre almas marcadas pelo fogo. --- Nos dias seguintes, começaram a reconstruir um propósito. Selim ajudava Valéria a reunir os arquivos que restaram — não os do escândalo, mas os de pesquisa verdadeira, os que poderiam curar, não destruir. Ela sonhava em criar uma fundação — Projeto Luz de Paula — dedicada à ética científica e à proteção de crianças usadas em experimentos ilegais. Arkan, por sua vez, vendia os poucos bens pessoais que ainda possuía, planejando financiar a primeira sede. Mas o passado, como uma sombra, ainda rondava. Mensagens anônimas começaram a chegar. A maioria eram agradecimentos. Outras, ameaças. Um dia, Selim entrou no escritório com o semblante tenso. — Recebi um relatório da Interpol — disse. — Kemal não está mais sob custódia. Valéria congelou. — O quê? — Alegaram uma transferência de segurança, mas o comboio foi interceptado. Não há corpo. Arkan se levantou devagar. — Ele fugiu. O silêncio que se seguiu foi sufocante. Valéria sentiu o coração disparar. — Não… ele não pode… Selim balançou a cabeça. — Não há registros oficiais. Mas se ele estiver vivo, vai querer recuperar o que perdeu. Arkan olhou para o horizonte. — Então a paz era só uma pausa. --- Nessa noite, Valéria não conseguiu dormir. Ficou sentada à mesa, lendo e relendo as anotações da mãe. As palavras de Paula pareciam ecoar em sua mente: > “A ciência deve servir à vida, não controlá-la. O amor deve curar, não possuir.” Ela chorou silenciosamente, até sentir uma mão pousar em seu ombro. Era Arkan. — Não vamos deixar ele destruir mais nada — disse ele, baixo. — Nem a memória dela. Nem o que somos. Valéria o olhou, as lágrimas brilhando sob a luz fraca da lâmpada. — Promete? — Prometo. Ele estendeu a mão, e ela a segurou. Entre eles, não havia mais medo. Havia só o compromisso de continuar — não apenas por vingança, mas por redenção. --- Semanas depois, o Projeto Luz de Paula foi oficialmente lançado. A imprensa voltou a falar deles, mas agora com um tom diferente — não de escândalo, mas de esperança. Valéria, diante das câmeras, declarou: > “A verdade é uma chama. Ela queima, mas também ilumina. Nós viemos das cinzas. E é delas que construiremos o amanhã.” Arkan estava ao lado dela, discreto, mas presente. E quando ela terminou o discurso, ele segurou a mão dela diante de todos. A imagem percorreu o mundo — o símbolo de um amor que sobreviveu à queda de um império. --- Naquela noite, de volta à casa, eles ficaram em silêncio diante da lareira. Arkan olhou para Valéria e disse: — Quando tudo começou, eu achei que a paixão era um fogo que consumia. Agora entendo que é um fogo que guia. Ela sorriu. — Então estamos aprendendo a viver entre cinzas e promessas. Ele a beijou de novo, devagar, como quem sela um pacto. Do lado de fora, o vento soprava suave. E o som distante das oliveiras parecia murmurar o que ambos já sabiam: o amor deles não era mais uma fuga — era um recomeço.
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