Ninguém nasce perigosa. Algumas apenas sobrevivem por tanto tempo no escuro, que não sabem pedir socorro.
Laura tinha quatro anos quando foi levada. Não se lembrava de nada, nem mesmo do rosto da mulher que a protegia.
Sua única lembrança era um barulho forte e o cheiro de sangue.
Ela cresceu achando que tinha sido abandonada, largada. Esquecida. Mas a história não era essa.
No orfanato, nunca conseguiu ser adotada. Talvez o destino ainda estivesse brincando com ela.
E agora, quartoze anos depois, ela tinha que sair. Não tinha para onde ir, nem a quem pedir a ajuda.
Laura achava que a sua história terminaria como sempre viveu: sozinha, calada.
Até aquela noite.
Vinicius não pediu para ser o dono do Complexo da Penha. Aos 17 anos, quando o sangue do pai ainda manchava o asfalto sob o peso da operação do BOPE, o morro chamou. E ele assumiu a coroa com dor, sangue, virou homem - Coringa.
Porém, aos 18 anos, achou que tinha encontrado o amor da sua vida, porém descobriu que ela era X9. Infiltrada do morro inimigo. E nesse momento, o seu coração se partiu. A dor da traição, o engoliu. Ela fugiu do morro e sumiu do mapa. Ele fechou seu coração e prometeu nunca mais se entregar a ninguém,
Nenhuma mulher teria o seu coração novamente. Nunca.
Tudo permaneceu igual, mesmo nove anos depois.
Até que ele se encontrou com a Laura….
-------------------------------------------------
ADEUS, ORFANATO.
Fazer dezoito anos deveria ser um momento de liberdade, festa, velas, abraços e promessas de um futuro e as vezes, o primeiro porre. Mas para mim... foi só o aviso de que eu não tinha mais onde morar.
Na semana passada completei dezoito. E com isso veio a sentença: hora de sair do orfanato. Não importa se você tem pra onde ir ou não. É assim que funciona.
Fui criada no Lar Santa Helena desde os quatro anos. Antes disso, a minha memória é embaçada, cheia de sombras e choros abafados. Dizem que a minha mãe foi assassinada. Nunca me contaram direito, nunca investigaram a fundo. Só diziam que o mundo era c***l e que a vida era injusta. O meu pai, eu nunca soube quem era – a certidão consta um espaço vazio, branco.
O Santa Helena era um casarão velho, com janelas enferrujadas e paredes descascando -mas era um lar. As freiras eram rígidas, mas algumas tentavam ser doces. A comida era pouca, mas quente. E o que faltava em conforto e amor, a gente compensava com as mais velhas – alguns abraços, algumas histórias para dormir.
Consegui guardar um pouco de dinheiro fazendo alguns serviços básicos, como: lavando roupas e vendendo uns chaveirinhos de crochê que aprendi a fazer com a Irmã Cecília.
Não dava para muito, mas pelo menos pagaria um ou dois meses em alguma pensão velha.
A pior parte de ir embora era deixar a Leticia. Ela tem dezessete anos, mas parece mais nova. Loira, baixinha e um cabelo liso que vai até a cintura. O olhar dela é doce, meio tímido, e o sorriso... é calmo, tem aquele furinho na bochecha.
Crescemos como irmãs e hoje ela me ajudou a arrumar as minhas coisas – mesmo escondendo o choro e que em dois meses ela iria sair, a saudade apertava – sempre vivemos juntas.
— Vai dar tudo certo, Lau — ela falou, segurando a minha mão.
— E se não der, eu dou um jeito — Respondi, queria passar segurança, mas minha voz tremeu.
Choramos ali, no quarto que dividimos por 14 anos. E hoje, tudo acabava.
Fomos até a saída e ela ficou. Saí pelo portão com uma mochila nas costas, uma sacola na mão e o estômago revirando de medo. Não sabia exatamente pra onde ir. Mas precisava andar. Precisava sair dali. Porque o mundo não espera. E eu... eu não podia mais esperar também.
Eu conhecia algumas partes das cidades, alguns bairros eu sabia que eram mais chiques – então, iria custar caro.
Quando cheguei num bairro mais afastado do centro, achei uma pensão e entrei, pela aparência eu iria conseguir passar pelo menos um mês ali.
— Bom dia, meu nome é Laura. Eu queria um quarto, por favor. – Sorri, queria parecer educada.
— O mês é R$900,00. Pagamento adiantado. – A mulher era seca, m*l levantou a cabeça para falar comigo e tinha um cigarro na boca, que fedia.
— Eu só tenho R$650,00, por favor... Eu não tenho onde morar. – Eu sabia que o mundo era c***l, mas não dessa forma. Minha voz tremia, meus olhos encheram de lágrimas, mas eu segurei.
— Nesse valor boneca, só no meio da favela. – A moça riu da minha cara, com deboche.
— Pode me dizer o caminho? – Eu abaixei a cabeça, nunca tinha entrado numa favela e sempre que via alguma notícia no jornal, era de tiroteio e perigo.
— Pode me dizer o caminho? – Eu abaixei a cabeça, nunca tinha entrado numa favela e sempre que via alguma notícia no jornal, era de tiroteio e perigo.
Ela me explicou com muita má vontade, então evitei fazer perguntas. Já era quase final de tarde, tinha comido apenas uma coxinha com refrigerante – a minha barriga roncava.
Peguei um ônibus, com a ajuda de algumas pessoas e quando eu desci, pude ver o morro do outro lado da avenida. Grande, alto, colorido e arm@s – muitas armas.
O ponto era próximo a um beco e quando eu desci, me apoiei no muro para arrumar meu tênis – foi quando eu sentir alguém me puxando.
— Me solta! Quem é você? Me largaaaa! – Eu gritei, tentava-me soltar dele, porém era em vão.
— Uma boneca dessa não deve sair sozinha. Tem muita gente má. – O homem falava, fedia a bebida e cigarro, era alto e me puxava pelo braço sem nenhuma delicadeza.
Quando ele me jogou no chão, eu acertei o pé no rosto dele, quando cambaleou para trás, eu levantei para correr, porém, ele já tinha me alcançado. Ele acertou o meu rosto tão forte, que eu apaguei.