A noite já se arrastava lenta quando Letícia encontrou Charada no terraço da casa onde estavam hospedados provisoriamente. O céu estava limpo, cheio de estrelas, mas o peso da conversa que se aproximava tornava o ambiente mais sombrio do que deveria ser. Charada estava encostado na mureta, cigarro aceso entre os dedos, os olhos fixos em algum ponto distante da cidade. Sua postura calma, quase indiferente, escondia uma mente que nunca parava. Ele parecia analisar cada detalhe, cada movimento do tabuleiro invisível em que todos estavam presos. Letícia se aproximou devagar, os cabelos loiros descendo como um véu sobre os ombros. — Você me chamou? — perguntou em voz baixa, um pouco receosa. Charada tragou lentamente, soltando a fumaça para cima, sem pressa. Só então virou o rosto para ela.

