A manhã seguinte à invasão amanheceu carregada no morro. O ar ainda cheirava a pólvora, e nas esquinas, marcas de sangue fresco misturavam-se com a poeira da madrugada. A boca estava aberta, mas em clima de alerta: soldados calados, olhares duros, dedos sempre próximos do gatilho. Nada parecia comum, nem mesmo o vento que soprava por entre os becos. Na sala principal da boca, Coringa estava sentado com o cigarro queimando devagar entre os dedos. Ele encarava o vazio como se ainda pudesse ver a cena da noite passada — os tiros, os gritos abafados, o desespero de proteger as meninas escondidas no armário. Ao lado dele, Naipe caminhava de um lado para o outro, nervoso, o semblante pesado como nunca. Já Charada mantinha-se encostado na mesa, mexendo em um notebook, a expressão calculista, mas

